Teatro Mágico

Apresentando:

 

Clara, a mulher.

Roger, o incompreendido.

Hermes, rei dos loucos.

Horácio, a besta fera.

Apresentando:

 

Clara, a mulher.

Roger, o incompreendido.

Hermes, rei dos loucos.

Horácio, a besta fera.

 

Ato I. Cena I.

 

Entra Hermes, deitado no gramado, absorto e Roger, ao seu lado, com uma arma.

 

Hermes: Eu tenho luz elétrica, posso fazer o que quiser. Dominar o mundo, cegar uma criança, iluminar a escuridão, eletrocutar meu cérebro. Não é fascinante, Roger? Luz, luz, luz!

 

Roger: Não. Que droga estás falando? Seu pobre diabo! Há séculos que a eletricidade existe, como pode se maravilhar com algo assim? Largue de abstrações gratuitas, rompantes de insanidade. Ninguém mais lhe ouve, você se desgraçou com essas besteiras.

 

Hermes: Pois não me importo. Não vês? Por que achas que vivo a perambular pelo mundo, sem construir morada, andando a esmo, sorvendo meu próprio destino?

 

Roger: Ora, porque és um velho maluco, deslocado e inquieto.

 

Hermes: Venha, dispa-se, vamos dançar.

 

Hermes põe-se a dançar, cantarolando melodias incompreensíveis. Entra Clara, embevecida, com um longo vestido branco.

 

Roger: Pare com isso, não me repugnes a este ponto.

 

Clara: Olá Roger, o que fazem aqui, neste campo longínquo, refúgio de tantas perturbações?

 

Roger: Clara…não havia notado a tua presença. Está aí resposta que desconheço! Apenas deixei-me arrastar pelo venenoso Hermes que, como pode ver, está em transe, fazendo piruetas.

 

Clara: Pois eu sempre quis dançar nua, pelo campo verdejante, com o orvalho a molhar os pés. Então acompanharei este venerável ancião.

 

Roger: Venerável ancião! Há! Que piada! Não sabia que possuías bom humor.

 

Clara: Você é patético Roger, patético. Sempre pronto a estragar a catarse alheia.

 

Roger: E vocês não passam de ridículos escapistas, pregando o que mal sabem definir. Responda-me: como procrastinar o imediato?

 

Clara: Esqueces que o presente somos nós. O verde, a lua, a dança. Deixe de querer saborear o amanhã.

 

Roger: Sinto não me fazer compreender. Não quero a bondade. O que é bom, é bom por essência, nunca se tornará mal. Mas o mal, este sim é passível de transformações, este sim pode ser manipulado, somente ele é multiforme, surpreendente. Esperei a vida toda e finalmente posso sentir o líquido negro corroendo minhas veias. Minha vendetta começa agora, diga adeus ao seu mestre, e a tua existência medíocre.

 

De repente, surge Horácio, a besta-fera, devorando os três. E o monstro rosna ao desconhecido.