Inu

São seis horas e há muito que estou acordado para meu passeio matinal. Ela, porém, somente se levantou por alguns minutos e já voltou a dormir. Não tem jeito: tenho que despertá-la.
Começo puxando-lhe o lençol. Nem se…

São seis horas e há muito que estou acordado para meu passeio matinal. Ela, porém, somente se levantou por alguns minutos e já voltou a dormir. Não tem jeito: tenho que despertá-la.

Começo puxando-lhe o lençol. Nem se move! Ai, ai, e agora? Já sei: vou lamber-lhe os pés…

Dito e feito: ela acorda com um sorriso e começa a fazer-me festa na cabeça. Primeira etapa cumprida, corro então para a cozinha; pois dentro de poucos minutos terei a recompensa.

Observo-a abrir um saco e despejar os grãos em meu prato. Surpresa: hoje ela acrescentou leite (espero, sinceramente, que não seja Made in China). Mas não mais percamos tempo com coversas. Que venha meu café da manhã…

Delicioso. E pelo que notei, saudável. Até mesmo diet. Pois, justiça seja feita, ela sempre se preocupa com minha forma…

Oh, não, lá vem ela. Recuso-me a vestir essa roupa ridícula mais uma vez. Essa coisa apertada… e rosa?! Não. Resisto bravamente. Até uso o recurso do granhido, mas não tem jeito. Ela já me dominou e aqui estou eu: revoltado, correndo atrás da própria sombra… E o que é pior: vestido de algodão doce.

Ganho um biscoito e volto a estar calmo. Além do quê, ela já abriu a porta e já está me chamando. Viva! Uma hora de liberdade (não plena, claro; pois a coleira já me aperta o pescoço). Umas paradas aqui e acolá para que as vizinhas me façam carinho… (que maçada!) Mas basicamente: ar livre. Para correr ( ela sempre deixa-me sem a coleira no parque); fazer as necessidades, claro (como qualquer animal racional!), encontrar os amigos… Enfim, a liberdade de todas as manhãs…

Vejam: cadelinha interessante aquela. Espero que não seja coquete…

Ah, o gato! Espere para ver, bandido! Ainda te pego!…

E pensar que o dia está apenas começando. Minha dona já avisou que hoje tem ginástica, e que, em seguida, vou encontrar os outros no playground. Talvez até mesmo haja algumas horas no banho público (que aqui eles chamam de onsen). E, às sete, ela passará para me pegar…

Mas até lá… Tóquio é cidade aberta.

Ah, vida boa é ser inu. Sim, senhor. Vida boa é ser cachorro no Japão!…