Contos Pastorais

Teófilo é um exemplo de ser humano. Evangélico, pregador oficial da igreja, e, nas demais horas, na empresa, em casa, na padaria, em qualquer lugar. Teófilo é muito brincalhão, mas às vezes perturba pelas suas pregações. Pai de família digno, cumpridor de suas obrigações de pai e marido, leva a "palavra" onde quer que esteja.

CONTOS PASTORAIS

 

Teófilo é um exemplo de ser humano. Evangélico, pregador oficial da igreja, e, nas demais horas, na empresa, em casa, na padaria, em qualquer lugar. Teófilo é muito brincalhão, mas às vezes perturba pelas suas pregações. Pai de família digno, cumpridor de suas obrigações de pai e marido, leva a "palavra" onde quer que esteja.

Certa vez, por ocasião de uma comemoração, a empresa presenteou os funcionários com uma dupla de dançarinas do ventre, no pátio dos automóveis, após o expediente. Teófilo não só não compareceu, como deixou claro aos quatro ventos que era contra essa pouca vergonha. Melhor seria, segundo ele, que se fizesse uma tarde de orações, uma pregação aos funcionários, tão necessitados da "palavra". Conseguiu inclusive evitar a presença de um bom número de companheiros.

Assim era Teófilo, um sujeito que não deixava escapar a oportunidade de demonstrar que era um filho de Deus, um digno representante Dele na terra, um justo merecedor de uma cadeira, à Sua direita, no reino dos céus.

Acontece que, certa vez, próximo de sua saída de férias, Teófilo percebeu uma graninha a mais em sua conta corrente. Calou-se Teófilo, na esperança de ser um erro no banco, um crédito indevido que não seria descoberto. Tratou de sacar o dinheiro rapidamente, e cobrir algumas contas em atraso, contando ainda com o dinheiro das merecidas férias, que cairia alguns dias depois.

Chegou o dia do crédito citado, e nada de dinheiro. Esperou Teófilo, mais um dia se passar, antes de reclamar ao RH da empresa. Passado o prazo, e na falta do crédito em sua conta, Teófilo avisou o setor, que verificou o valor depositado a maior, quase duas semanas antes da data devida. Verificou inclusive o silêncio proposital do funcionário, convidando-o em seguida, a retirar-se de seu quadro de colaboradores.

Teófilo deixou órfãos seus companheiros de credo na empresa, após dez anos de bons serviços profissionais. Ninguém entendeu bem a repentina demissão, e o próprio demitido não fez questão de explicar aos amigos.

Teófilos são comuns em nosso meio. Eles gostam muito de usar a sua própria conduta ilibada de exemplo aos demais, na esperança de sempre condená-los, oferecendo seu modo de vida como a solução para os problemas do mundo. Teófilos acham-se vítimas da ganância do homem, e creditam a Deus seus sofrimentos, como mais alguma parcela no pagamento da passagem ao paraíso, na chegada da vida eterna.

Quando pararmos para pensar que as coisas não andam bem em nossa sociedade, em nossa cidade, país ou planeta, pensemos que podemos estar agindo como Teófilos, que, na primeira oportunidade de mostrar seu verdadeiro caráter, realmente o fazem, e perdem a oportunidade de serem exemplos positivos, sendo sim, negativos.

Teófilo é brasileiro, e o brasileiro não desiste nunca, não é? Será que isso tem alguma coisa em comum com o caráter dos políticos que continuamos colocando no poder? É a parte que te cabe neste latifúndio, amigo Teófilo…

 

Marcos Claudino