Era Mulher de Verdade

Amélia era uma mulher discreta. Um cumprimento sério pela manhã, geralmente almoçava sozinha. Quando precisava, fazia extras. Pouco se sabia sobre sua vida pessoal, pois ela não permitia a liberdade, naturalmente. Nas festas da empresa, só ia quando era muito importante sua presença. Saía cedo. Sempre sozinha, nunca falou de namoro, de novela, de futebol. Só falou dos balanços patrimoniais, dos relatórios contábeis.

São Paulo, 08 de agosto de 2005.

 

ERA MULHER DE VERDADE…

 

Amélia era uma mulher discreta. Um cumprimento sério pela manhã, geralmente almoçava sozinha. Quando precisava, fazia extras. Pouco se sabia sobre sua vida pessoal, pois ela não permitia a liberdade, naturalmente. Nas festas da empresa, só ia quando era muito importante sua presença. Saía cedo. Sempre sozinha, nunca falou de namoro, de novela, de futebol. Só falou dos balanços patrimoniais, dos relatórios contábeis.

Amélia era simpática e bonita. Era delicada e solícita. Educada ao extremo. Todos gostavam da Amélia, mas os homens a cobiçavam. Não foram poucos que tentaram se aproximar. Sempre com discrição, Amélia os dispensava, um a um. Casados, solteiros, indecisos, tímidos e extrovertidos, loiros e morenos, altos, baixos, gordos e malhados, nenhum foi aceito por Amélia.

Certa manhã, como tantas outras, Amélia chegou diferente no departamento. Um pouco exaltada demais. Havia um brilho diferente em seu olhar. Uma alegria incontida, uma satisfação desinibida. Pediu relatórios com mais carinho. Solicitou planilhas com uma voz suave e lânguida. Deixou o balancete minimizado, para entrar no site de cartões virtuais, vê se pode… E assim foi a semana toda. Pela primeira vez, em tantos anos, viram a Amélia levar uma bronca da chefe. E, o pior, ela nem ligou…

Passadas algumas semanas, nova diferença na Amélia, que já se tornara alvo das fofocas femininas e, as piores, as masculinas… Mas agora ela estava triste. Cabeça baixa, mal cumprimentava os colegas, suspiros a cada fechamento de arquivo. Novas broncas, agora mais freqüentes, e ela chorava. Ia ao banheiro, voltava com os olhos inchados, trabalhava, suspirava, e ia embora…

Amélia acabou pedindo a conta, para a felicidade das invejosas, e tristeza geral do público masculino. Ela assim como veio partiu, não se sabe pra onde… Certo dia, tocou o telefone do Zelão, um dos piores cafajestes da empresa. Era Amélia, convidando-o para sair. E ele foi. Fez de tudo, e contou pra todos. Mais alguns dias, e ela ligou pro Zequinha, um que todos desconfiavam da masculinidade. Foi chamado ao trabalho, e compareceu, muito bem, por sinal, decidiu-se enfim…

Amélia saiu com todos da empresa, um por um, casados, solteiros, gordos, magros, baixos, altos, sarados e afeminados. Até os que não a conheceram no trabalho foram indicados, e ela tratou de devorá-los também…

Um belo dia vem a notícia da morte da Amélia. Tão nova a moça… Insuficiência respiratória, ou algo assim. Todos os homens foram ao enterro. Lá, mais uma multidão de cuecas, das mais variadas categorias. Um belo discurso dos ex-amigos de trabalho, o funeral, e, na saída, foi entregue um bilhetinho a cada presente, com os dizeres: "Não usei camisinha com você também, comece a tomar AZT, querido…"

 

Marcos Claudino