Histórias pra boi dormir, se puder…

Tinha treze anos de idade. Meus pais me apresentaram o Chico em casa, sorridentes, embora eu percebesse em minha mãe um certo ar de tristeza. Chico me levou embora, pra bem longe, e nunca mais vi meus pais. Chico não falou uma palavra, durante toda a viagem. Eu nunca tinha saído da vila, e não tinha a menor idéia de onde estava sendo levada.

São Paulo, 29 de agosto de 2005.


HISTÓRIAS PRA BOI DORMIR, SE PUDER…


Tinha treze anos de idade. Meus pais me apresentaram o Chico em casa, sorridentes, embora eu percebesse em minha mãe um certo ar de tristeza. Chico me levou embora, pra bem longe, e nunca mais vi meus pais. Chico não falou uma palavra, durante toda a viagem. Eu nunca tinha saído da vila, e não tinha a menor idéia de onde estava sendo levada.


Chico me acordou, e eu nem sabia se era o mesmo dia, ou se haviam se passado dois ou mais. Encontrei uma casa pequena, mal tratada. Chico me olhou, acariciou meu rosto, apertou meu pequeno seio esquerdo, sorriu, e abriu a porta da casinha. Fiquei sentada na sala minúscula, num banquinho de madeira, enquanto o Chico descarregava as tralhas da caminhonete. Arrumou minha cama, mandou-me ir deitar, levou-me um copo de leite e duas bolachas maizena numa ripa de pau, que usou de bandeja. Fechou a porta, e dormiu na sala, sobre uns pedaços de papelão.


Na manhã seguinte, mandou-me fazer a comida, e eu, com todo o conhecimento de minha idade, fiz o arroz mais empapado da história, fritei uns ovos que estorricaram, e fiz uma salada, sem lavar as folhas da alface. Chico comeu tudo, não disse nada, mandou-me lavar a louça, e saiu.


Chico chegou tarde, depois de anoitecer, levou-me pro quarto, e violentou-me. Acabou, colocou as calças, e saiu de novo. Durante bons meses foi a mesma coisa, mas agora eu já sabia o que ele queria, e facilitava as coisas, embora nunca tenha deixado de ser dolorido.


Comecei a ter enjôos, e Chico começou a chegar bêbado em casa. Sentava-se no banquinho da sala, arfando, olhando torto, falando umas palavras intraduzíveis, levava-me pro quarto, tentava possuir-me, mas dormia antes, muito fedorento. Eu tirava suas roupas, ajeitava a coberta, cuidava dele.


Chiquinho nasceu sem o pai saber. Chico sumiu por uns dois meses, e a vizinha parteira trouxe o Júnior ao mundo. Tive problemas, claro, e quase perdi todo o sangue do corpo. Quando Chico voltou, Júnior já tinha três meses. Chegou em casa, pegou o menino no colo e sumiu de novo. Voltou no dia seguinte, sem o Júnior, e violentou-me outra vez.


Quando Chico sumiu pela quarta vez com mais um filho meu, eu nada disse, como sempre. Esperei que ele chegasse bêbado, e dormisse. Quebrei seu crânio em três pedaços, com um pedaço de ferro que encontrei no quintal, e fui dormir na sala.


Hoje vivo com tranqüilidade. Minhas amigas na cadeia me ensinaram muita coisa, e eu aprendi a ser respeitada. Aprendi inclusive a ter prazer, pois minha namorada é bastante carinhosa. Às vezes penso no Chico, nos meninos, nos meus pais, mas não sinto nada. Nunca chorei por eles, nem por ninguém, mas sei que é porque eu morri aos treze anos de idade, e minha história se escreve em uma única folha de papel…