Simplicíssimo

Pedes e Receberás

São Paulo, 11 de abril de 2006.
 
Desempregado, largado no mundo, família distante. Assim encontrava-se Lulpídio, no exato momento de nossa narração. O último tostão fora usado para a coxinha composta 85% de massa, 10% de óleo e 5% de carne supostamente de frango. Com o troco, comprou ainda dois cigarros soltos.
Desespero quase batendo à porta (que porta?), senta-se para observar a formosa e mal cuidada Praça da Sé. Acende o cigarro amassado e observa. Grande quantidade de mendigos atrofiados pedem, cotocos de mãos estendidos aos transeuntes sempre apressados e desinteressados. Interessa-se.

Molha a cabeça na fonte de água podre, rasga uma das barras da calça, arranca uma das mangas da camisa surrada, senta-se na saída da escada rolante do metrô, estende a mão, e pede.

Horas a fio e nenhum tostão. Alguns pisões na hora do rush, resmungos, e nada. Persistente, sem saída, continua, até o metrô fechar, o esvaziamento quase total do ponto zero do país. O mendigo ao lado, com os pés expostos sem os dedos, recolhe o cobertor que servia de colchão, conta os vinténs, joga uma nota de dez ao infeliz pedinte, vai-se assobiando despreocupado.

Como você consegue tanto? Deve ter aí uns quarenta reais…
– Sessenta e dois, amigo, e hoje estava fraco, longe do dia do pagamento, sabe como é…

No dia seguinte, Lulpídio não trabalhou. Comprou um maço de bom cigarro, comeu bem e pensou…

Pensou e procurou um serralheiro. Pagou os R$ 5,00 que sobraram da fartura recebida, cortando os dedos da mão esquerda, e ainda ganhou um talho bem exposto no rosto. Ficou tão feio que ninguém chegava perto para dar esmolas.

Foi recolhido pela vigilância sanitária uma semana depois, indigente que era, enterrado como tal.

Marcos Claudino

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