Rap triste, dinheiro no bolso…

Quando sua mãe chamou pra ir à escola, ele ficou chateado, mas obedeceu… Largar aquele campinho de terra era difícil… Pensava que um dia a convenceria de que aquilo os faria ricos…

       

– Menino, toma juízo… Isso não leva ninguém a nada…

       

 

RAP TRISTE, DINHEIRO NO BOLSO…

 

Quando sua mãe chamou pra ir à escola, ele ficou chateado, mas obedeceu… Largar aquele campinho de terra era difícil… Pensava que um dia a convenceria de que aquilo os faria ricos…

       

– Menino, toma juízo… Isso não leva ninguém a nada…

       

O tempo passou, e a casa estava pequena para tantas medalhas e troféus. Aos quinze, aquele time grande da capital ofereceu casa, comida e um salário mínimo ao garoto, a troco de uma assinatura no papel saído do bolso daquele senhor estranho e cheio de dedos… A mãe sentiu um aperto no coração, mas assinou, incapaz de ver aqueles olhos que tanto amava decepcionados.

E o garoto sumiu no mundo. A cada cinco ou seis meses chegava uma carta, dizendo que o empresário o levara para outro time da Suíça. Depois chegava outra dizendo que agora era a Escócia. Preocupada mesmo ela ficou quando o destino o havia levado à Rússia. Onde é eu não sei, mas dizem que é muito frio por lá… Mas, fazer-se o que? A gente cria um filho pro mundo, não pra gente…

Um belo domingo, a já velha senhora pensava na vida, no único filho, sustentado à custa de muita roupa lavada à beira do riacho quase seco… Nem uma notícia, nos últimos três anos… Já devia estar com seus vinte e cinco anos, morrendo de frio o coitadinho, naqueles cafundós que o homem engravatado o levava… Nem um tostão chegou ao seu bolso mal costurado. Mas não era isso que ela queria, Deus me livre, sô… Lembrou das sovas, hoje arrependida, que dava naquele magrelinho todo sujo de barro, que esqueceu o caderno outra vez, no barranco ao lado do campinho… Acho que fui muito dura com ele…

Uma dor aguda nascia do meio do peito. O retrato deslizou do colo ao chão, espatifando-se no único pedaço de cimento da casa. Um corpo franzino, de seus quase sessenta anos de idade, jazia na varanda do barraco escondido da favela, sem vida, que nunca teve…

Lá embaixo, neste mesmo instante, uma equipe de televisão (um programa dominical) procurava informações sobre uma senhora franzina, chamada fulana de tal, pois parece que seu filho era um rico e famoso jogador de futebol, que finalmente conseguira economizar o suficiente para tirar a mãe do morro…

Um garoto que passava pelo pessoal da TV, inspirou-se pelo interesse da equipe, ouviu atentamente o que se passava, e alguns meses depois, no mesmo programa dominical, um famoso "Rapper" nascido na favela, recebia o disco de ouro pelo sucesso estrondoso: "Demorou, perdeu a mãe, Mané…".

 

Marcos Claudino, 35 anos, profissional de RH, gosta de futebol, gosta de Racionais, mas no domingo, em última circunstância, assiste ao Pânico…