Simplicíssimo

Táxi, táxi!!

– Pra onde?
– Pro inferno. Vai pro inferno, meu camarada. Toca em frente, infeliz, no caminho a gente resolve.
– Olha, seria bacana o senhor me tratar com um pouco mais de finesse, caso contrário  eu deixo vocês aqui mesmo. Quero ver os dois peladões, a polícia chegando e levando o casalzinho meigo pro distrito por atentado ao pudor. Aliás, o que é que vocês estavam fazendo assim, nuzinhos, em plena Consolação chamando táxi?
– Você se lembra se a maçã era fuji, argentina ou gala, amor?
– Se você que pegou a maçã não sabe, eu é que vou saber? Mulher se liga em cada detalhe, que diferença isso faz agora? Vai se queixar pro Ceagesp ou pro Ceasa? Agora é tarde, minha nega. Já estamos expulsos mesmo.
– Mas o que aconteceu, meu Deus do céu?
– Pois foi o Deus do céu, foi esse mesmo, moço. Acabamos de cair fora do paraíso, ordem de despejo.
– Sei, mas foram expulsos do bairro ou da estação do metrô?
– Não, do paraíso mesmo, meu amigo. Imagina só, a única coisa que o Homão barbudo pediu era pra gente ficar longe daquela maldita árvore. Mas sabe como é mulher, né? Podia ter pego uma jaca, um maracujá, uma meia dúzia de limas da pérsia, chafurdado a fuça numa melancia, sei lá, qualquer coisa daquele pomar lindo, menos a maçã. Ela devia ser expulsa sozinha, a culpa foi dela, caramba.
– Tá bom, e a mordida que você deu? Devia ter recusado quando te ofereci. Aquela serpente era uma víbora, enganou a gente direitinho.
– Agora quero ver o que a gente faz da vida. Você, nuazinha e inteiraça desse jeito, não demora e arruma um dinheiro fácil. Mas e eu, que não sou nenhum Adônis? Como é que eu fico?
– Adônis? Quem é Adônis, Adãozinho?
– Olha, em briga de marido e mulher ninguém mete a colher, e eu sou só um taxista querendo ganhar a vida honestamente, mas pelo jeito vocês são Adão e Eva. Portanto viveram muito antes desse mitológico rapaz grego, um modelão de beleza – se é que ele existiu de verdade. A Dona Eva tá certa, não tem como vocês terem conhecido ele, não. Aliás, ele é descendente de vocês. E eu também, diga-se de passagem. Somos todos filhos de Caim com não sei quem.
– Moço, explica melhor essa história. Agora bagunçou minha cabeça. Caim é o nosso filhinho!
– É o seguinte: segundo a Bíblia, que começa contando a história de vocês, seu filho Caim matou seu outro filho, o Abel. Sujeito cem por cento, maior ficha limpa. E pra humanidade ter continuado o Caim precisava ter tido uma mulher, que até onde eu sei não consta do Livro Sagrado. A menos que vocês dois tivessem aumentado a prole fora do Jardim do Éden, fato que a Escritura também não deixou claro.
– Aumentado a prole? Acho que não vai ter clima…
– Também acho. A base do casamento é a confiança, e você traiu a minha e a do Criador.
– Dá licença aí, desculpa interromper a troca de gentilezas, mas vou aproveitar que o sinal fechou pra deixar vocês por aqui, viu. Pelado não tem bolso, e onde é que tá a grana da corrida? Alguém pode me mostrar? E já vou avisando que não aceito maçã como pagamento. Ainda mais essa maçã amaldiçoada aí que vocês pegaram.
– Mais respeito, seu taxista. Mais respeito. Não se esqueça que eu sou seu avô, avô distante mas sou.
– Mas avô que se preza não sacaneia o neto.
– Ora, vamos. Seja um netinho obediente. Vou começar a espalhar meu currículo, logo consigo uma colocação e pago o que lhe devo.
– Sei, sei. Se você conseguiu ser expulso do paraíso, imagina de uma empresa…
– Mas já falei, a culpa foi da sua avó!
– Pra fora os dois. Já!
– Neto ingrato. Mas deixa estar. Deus é pai. O Homão barbudo há de fazer justiça.
– Essa é boa, Eva e Adão…
– Repete o que você disse! Repete, seu boca suja!!

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Marcelo Sguassabia

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