VEIÊRA!

Domingo, chuva, frio e, claro, tédio.

Começo, nem sei por que, a remexer umas caixas guardadas no armário do escritório (“escritório”, “quarto de estudos”, sei lá) e lá encontro minhas velhas fitas cassete. São cento e tantas (quase duzentas, eu acho), algumas mais recentes, de 1994 ou 1995, quando trocava muita correspondência com gente de todos os cantos

VEIÊRA!

Domingo, chuva, frio e, claro, tédio.

Começo, nem sei por que, a remexer umas caixas guardadas no armário do escritório (“escritório”, “quarto de estudos”, sei lá) e lá encontro minhas velhas fitas cassete. São cento e tantas (quase duzentas, eu acho), algumas mais recentes, de 1994 ou 1995, quando trocava muita correspondência com gente de todos os cantos do Brasil e de fora; outras bem mais antigas, lá pros tempos de 1982 ou 1983…

São essas últimas que me fazem sentar no chão, com a caixa entre as pernas, e perder a noção de tempo e espaço. Fico horas olhando uma por uma; as datas de gravação, as bandas, as músicas, quem gravou, onde eu estava, quem eu era.

Lá se vão mais de vinte anos.

Até fico com vontade de ouvir algumas daquelas gravações, mas as fitas não me inspiram muita confiança, as etiquetas descolando e amareladas, a tinta da caneta já meio desbotada, acho até que vão se desmanchar nas cabeças do toca-fitas.

Mas, como são essas fitas que justificam o tape-deck, tomo coragem e coloco “War and Pain” do Voivod, que nem é das mais antigas (a cópia é de 1987). Ouço todo o lado “A”. O “B” começa com “Blower”, depois vem “Live for Violence”… cara, como eu gostava dessas músicas! E o mais surpreendente: gostei de novo. E muito!

Não vou ficar dizendo que hoje não se faz mais nada tão bom como antigamente, porque acho isso uma bobagem e, além do mais, gosto de muitas mais coisas de hoje do que de outros tempos. Mas que Voivod era tesão e que nunca se fez mais nada como aquilo, lá é verdade.

Em todo caso, não precisa muito pra que eu mergulhe em comparações entre aquele “eu” de vinte anos atrás e o de hoje. Percebo que, no geral, não mudei muito nesses anos. Hoje penso mais ou menos igual e gosto mais ou menos das mesmas coisas (e isso não se refere só à música, mas às coisas da vida em geral). Invevitavelmente vem a dúvida: será que parei no tempo? Ou será que eu já era mais ou menos “maduro” naquela época (considerando-se, claro, que eu tenha mesmo amadurecido) (mas o que é ser “maduro”, afinal?)?

A segunda alternativa até me enaltece; mas, por outro lado, a primeira possibilidade causa um grande desconforto. É que quando paramos para aquilo que nos cerca é sinal de que não estamos mais integrados ao meio e, portanto, não aprendemos nem evoluímos mais. Aí estamos velhos.

Acho que a velhice não está necessariamente na idade física, mas na idade mental. Isso significa que uma pessoa com sessenta anos pode ser mais jovem do que uma de trinta.

Agora, ao som de The Rods (essa é de 1983, pelo que me lembro…), fico tentando calcular minhas idades física e mental.

No que se refere ao físico, continuo magrão, cabeludo (embora com miríades de cabelos brancos) e isento daquela barriga inexorável que aflige a maioria dos homens de “meia idade”. Acho que, então, não sou assim tão velho.

Quanto à idade mental, talvez o que me salve é que ainda (com esse maldito advérbio de tempo, indeterminado) não comecei com esse papo de “no meu tempo isso”, “no meu tempo aquilo”. Nessa vida eu ainda não entrei.

Mas o tal advérbio está ali, como que zombando de minha convicção.