Ontem (3)

2007-01-30

Ainda não fui à procura da palhota onde supostamente se
esconde a tintura do JSS. A charada refere a primeira palhota, que
suponho ser a primeira casa da rua. Tenho uma vaga ideia que essa
casa é uma ruína. Se for, é um excelente esconderijo, tão bom que nem
vale a pena ir lá procurar sem um cão farejador de tintura.

 

2007-01-30
Ainda não fui à procura da palhota onde supostamente se
esconde a tintura do JSS. A charada refere a primeira palhota, que
suponho ser a primeira casa da rua. Tenho uma vaga ideia que essa
casa é uma ruína. Se for, é um excelente esconderijo, tão bom que nem
vale a pena ir lá procurar sem um cão farejador de tintura. Um cão da
marca Azevedo, Champalimaud ou, melhor ainda, Gates; são cães que
conseguem sentir o cheiro da tintura a léguas. E onde vou eu arranjar
um cão desses? Está visto que por aí não vou a lado algum. Entretanto
vou imaginando outras possibilidades de descoberta da tintura.
Felizmente o pé-de-atleta, com o frio que tem estado, deixou de
incomodar tanto. Fica provado que é o calor e a transpiração que
permitem o desenvolvimento do fungo e, por este andar, qualquer dia
muita gente caminhará pelas ruas com os pés enfeitados de cogumelos,
tal a falta de tintura que se vislumbra no horizonte.
Os culpados são, sem dúvida, aqueles que pegaram nas ideias do
tio Adam Smith e as empolaram de tal forma que, em vez de haver
muitas pequenas e médias empresas de produção de tintura, há hoje
poucas e grandes empresas multinacionais que açambarcam a tintura
toda, deixando ao Zé o estritamente necessário para que elas próprias,
empresas, possam continuar a sobreviver. É uma situação muito
parecida com a que se vivia nas roças das ex-colónias. Depois de
abolida a escravatura, os escravos das roças já não eram escravos,
passaram a chamar-se empregados, trabalhadores, etc. e recebiam um
salário. E o que faziam eles com o salário? Adquiriam bens na cantina
do dono da roça. Mas, inevitavelmente, começavam a comprar mais do
que o salário permitia pagar. Nesse tempo ainda não havia cartões de
crédito, era o patrão que tinha uma lista onde apontava as dívidas dos
seus escravos; o princípio era exactamente o mesmo do dos cartões de
crédito que as pessoas hoje exibem como símbolo de status. E com que
orgulho algumas pessoas mostram o seu cartão de escravo!!! Bem,
depois de endividado, a diferença entre o “trabalhador por conta de
outrem” e o escravo é a mesma que existe entre urina e xixi.

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2007-01-30

Há um problema de que ainda não falei nesta saga da tintura de
iodo: já o tio Smith tinha constatado que os escravos são muito mais
férteis que os tios, talvez para compensar a elevada taxa de
mortalidade infantil dos escravos. Entre os pastores da Escócia era
comum uma mulher parir uma vintena de filhos e só sobreviverem
meia dúzia ou menos.
Experiências com ratos demonstraram também que os mal
alimentados procriam mais do que os anafados. Devido a este
desequilíbrio que se estabelece entre o número de escravos e de tios, os
tios começam a temer pela sua segurança, os níveis de pobreza
começam a ser tais que, temendo a revolta dos escravos ou o
recrudescer da criminalidade, os tios inventam formas de controlar o
aumento da população de escravos. Valem-se de uma argumentação
que leva os escravos a pensar que as medidas que pretendem impor
lhes são mesmo favoráveis.
É assim que em Inglaterra, durante a revolução industrial,
quando a classe de escravos começou a aumentar perigosamente,
começaram a capar os escravos para que estes não pudessem procriar e
criar condições para a revolução do proletariado, nome que o tio Marx
resolveu dar aos modernos escravos das sociedades industrializadas.
Foi ele também que inventou o nome de “luta de classes“, que os tios
dizem que é pura inveja e a inveja é, como se sabe, um pecado mortal e
as pessoas não gostam de ofender a Deus.
“Mudam-se os tempos, mudam-se as técnicas“. Hoje em dia os
tios defendem que a castração dos homens é um acto bárbaro,
preferem deixar os ratos à solta, até porque o sexo já não é tabu
nenhum, e muitos negócios dos tios baseiam-se no sexo (cinema,
televisão, revistas, internet, etc.) mas propõem o aborto como
complemento da castração moderada, coisa que até os tios que se
reclamam apóstolos do tio Marx aceitam e são, paradoxalmente os seus
mais fiéis defensores. A castração chama-se, hoje em dia, mudança de
sexo.
Felizmente Portugal sempre viveu um pouco à margem destas
coisas que afectaram os países ditos desenvolvidos do Centro-Norte da
Europa onde já experimentaram disso tudo e com muito maus
resultados. A dita liberalização do aborto, bem como as centrais
nucleares, chegam tão tarde que agora já são desnecessárias porque a
técnica entretanto evoluiu e o aborto já pouco ajuda os tios a controlar
o número de escravos. Talvez a promoção da homossexualidade e da
transsexualidade (outro nome que dão à castração) seja mais
promissora, há tios que apostam mais nestas formas de evitar a
procriação dos escravos.
Em último recurso os tios podem ainda desencadear guerras
mundiais, cujo principal benefício é tornar a relação tios-escravos
menos perigosa. A prova é que a tintura, a seguir às guerras, se
reproduz maravilhosamente. Mas, para haver uma guerra em grande
estilo, há que aproveitar os ânimos de escravos à beira da revolta,
canalizando essa revolta contra outros povos. Os escravos que morrem
nas guerras são promovidos a mártires e os que matam muitos
inimigos passam a ser uns heróis.
Mártires? Isso deu-me uma ideia. Amanhã já vos conto.