A grande planta verde

Um plantão é algo realmente desgastante para o profissional da área da saúde. Não apenas pelo estresse das situações limítrofes e das habilitações necessárias para tal, como bem podemos ver no famoso seriado do E.R. ou do um pouco mais bem humorado Scrubs. Mas, como era de se esperar, nosso país tem suas particularidades e absurdos que incrementam qualquer história. A maior parte se deve, penso eu, à falta de Um plantão é algo realmente desgastante para o profissional da área da saúde. Não apenas pelo estresse das situações limítrofes e das habilitações necessárias para tal, como bem podemos ver no famoso seriado do E.R. ou do um pouco mais bem humorado Scrubs. Mas, como era de se esperar, nosso país tem suas particularidades e absurdos que incrementam qualquer história. A maior parte se deve, penso eu, à falta de informação adequada e/ou uma correta atitude das pessoas envolvidas (leia-se: profissional e paciente). Mas existem outras causas, algumas que eu nem devo ter ainda imaginado. Vamos tentar aprofundar a questão, mas deixando de lado temporariamente o caos social, a violência e outras coisas mais que indubitavelmente fazem parte da cena deste crime.

É fato que os locais de atendimento de urgência e emergência tem estado cada vez mais lotados, o que acaba conferindo um certo “grau maior” de insalubridade ao meio. Não menos certo é a irritabilidade das pessoas com as filas e a demora no atendimento. Há muito aquela paradinha na sala de espera deixou de ser um charme para o “doutor” e cada vez mais todos nós padecemos de um imediatismo assustador para tudo e todos. Até o jornal de domingo queremos ter em mãos ainda no sábado. E não é diferente com a nossa saúde. Quantos pacientes impacientes já entram no consultório com ares de poucos amigos, de quem teve um péssimo dia e está pronto para descontar tudo no primeiro cara de branco que aparecer pela frente? (como diz o Fábio, meu grande amigo e colega, “só porque vestimos branco vão achando que somos ovelhinhas”). Ainda mais se ele assistiu à reportagem do Fantástico da série “Médicos Ruins”. Daí sim, a mesa está servida. Isso poderia explicar em parte também as ligações que os pacientes fazem querendo saber qual o médico de plantão.

Mas a confusão entre um consultório e uma emergência não pára por aqui.
_ Em que posso lhe ajudar?
_ É essa manchinha aqui no meu braço que apareceu há uns 2 meses …
Ou então:
_ Dona Judite, você por aqui de novo? (grrrrr)
_ Sabe como é né doutor, depois que a gente se acerta com um médico não quer ir noutro …
Ou ainda:
_ O que era para a senhora?
_ Ah eu vim trazer o meu filho para o pediatra e já que estou aqui aproveitei para uma consultinha. A gente sempre tem alguma coisa para consertar não é?
_ grrrrrrrrr
Estes são pequenos exemplos que parecem inofensivos para quem vive apenas o seu mundo, mas se tornam grandes tumultuadores quando se repetem nas salas de emergência.

A facilidade de acesso e o comodismo saltam aos nossos olhos ainda mais quando se recorre a um serviço de emergência com um problema específico que deveria ser resolvido por um especialista. Se as lavagens de ouvido são a maior causa de processo entre os otorrinolaringologistas (pelo rompimento da membrana timpânica), certamente deveria-se abolir tal procedimento de um pronto-atendimento não especializado e informar adequadamente a população, para que não fiquem achando se tratar de falta de vontade do médico. Uma vasta gama de patologias cirúrgicas (incluindo pêlo e unha encravados) pode se encaixar aqui também. Por vezes uma simples padronização nos serviços evitaria muita confusão:
_ O quê, mas o Dr. Fulano faz aqui, por que você NÃO QUER fazer? Olha que eu vou para os jornais …

Ah sim, já ia me esquecendo. A nova moda é processar os médicos. Porque fez, porque não fez, porque isso, porque aquilo. Nos EUA a regra é passar grande parte do tempo da consulta literalmente lendo bulas para o paciente não alegar que faltou informação. O que se dizer das consultas em postos de saúde, onde atende-se 20 pacientes por hora, numa velocidade que até Schumacher sucumbiria. E uma boa relação médico paciente ajuda, mas já não é mais garantia para nada. Assim como nas portas de cadeia, há sempre os oportunistas de plantão atacando no plantão. Que lugar para se tentar levar uma vantagem. Tem uma festa? Faltou ao trabalho? Quer sair um dia antes ou voltar um depois no feriadão? Não custa nada conseguir um atestado. Errado, custa caro, custa muito caro. Principalmente para quem tem consciência. Mas lembre-se, um dia você ou um dos seus pode ter uma parada cardíaca, chegar inconsciente numa emergência e o médico estar ocupado atendendo alguém com uma micose, convencendo um cidadão a buscar um especialista, tentando entender uma mentira em busca de um atestado frio ou qualquer coisa do gênero …