É de Hoje?

Já havia algum tempo que entrava naquela loja de conveniências restando pouco minutos para a meia-noite. Percorria atentamente as prateleiras até a virada da hora e se dirigia ao balcão de atendimento, onde uma jovem sempre muito simpática (apesar do ar cansado e das olheiras em algumas noites), lhe atendia com um pronto sorriso no bem cuidado rosto adolescente. Já havia algum tempo que entrava naquela loja de conveniências restando pouco minutos para a meia-noite. Percorria atentamente as prateleiras até a virada da hora e se dirigia ao balcão de atendimento, onde uma jovem sempre muito simpática (apesar do ar cansado e das olheiras em algumas noites), lhe atendia com um pronto sorriso no bem cuidado rosto adolescente.

_ É de hoje? Dizia ele apontando para o aparente delicioso sanduíche que aguardava algum guloso cliente. A moçoila já tinha superado a fase de dizer que sim e ter que atualizar o seu o calendário na sua cabeça em função de minguados segundos a mais. Embora fosse algo constrangedor nunca poder agradar o cliente, balançava alegremente a cabeça respondendo-lhe um melódico e empático “não”, próprio dela mesma. E então ele dava meia volta, escolhia alguma bolacha cara, passava pelo caixa e sumia em seu mundo pela porta de saída.

O tempo foi passando e o lacônico e repetitivo cliente entrando e saindo diariamente da lojinha não permitia que a balconista fosse muito mais além de um afável “Não Seu Machado, é de ontem.”. Não que ele tivesse se identificado. Pouco se sabia do seu repertório de palavras Mas o cartão de crédito tinha dado um jeito nisso. Aliás, toda vez batia onze e meia da noite os três funcionários se alvoroçavam am brincadeiras e comentários à espera do Seu Machado: “Figurinha estranha, não?”, “Que bolacha ele vai levar hoje”, “Acho que ele vem aqui só pra te ver” e assim por diante.

Pois certa vez os jovens funcionários comentaram com o patrão na festa de fim de ano e foram incumbidos de uma difícil tarefa. Preparariam um sanduíche tão saboroso quanto aquele “de ontem” ao início das doze badaladas noturnas. “Satisfazer o cliente” virou o lema de todo o torto grupo, cervejado e alegre que estava. E lá se foi o trio, em busca de sua mais difícil e ansiada conquista. Planejaram todos os detalhes, desde a disposição antecipada dos ingredientes até a simulação de promoção de um produto qualquer para distrair o Seu Machado com a fajuta balela, ganhando precioso tempo no preparo do sanduíche.

Luz, câmera e ação. Adentrara na loja de conveniências ninguém menos que o tão aguardado Seu Machado. Como de costume, parou a apreciar as prateleiras e seus produtos. Já devia saber tudo de cor, mas isso parecia não ter a menor importância. Lá ia ele,, para cá e para lá até o relógio acusar um novo dia. Mal virou o corpo e foi surpreendido por um dos vendedores, sorridente e tagarela, com uma cesta de produtos em promoção. Mal lhe dava tempo de pensar, tamanha quantidade de informações que recebia. Tampouco conseguia desviar o olhar. Se o fizesse, veria ao fundo a moça simpática num surto de ansiedade a compor um estupendo sanduíche em frações do tempo medido.

Com um gesto em sua mão direita, conseguiu ao mesmo tempo agradecer e dispensar o vendedor, dirigindo-se ao balcão, levemente atrasado em sua rotina, o suficiente para os objetivos da esperta e talentosa turma de jovens. Apoiou sua mão na vidraça apontando para o sanduíche, enquanto o trio parecia estar assistindo a uma decisão por pênaltis na copa do mundo.

_ É de hoje? Papagaiou o Seu Machado.
_ Sim! Respondeu enfaticamente a adorável moça como que extasiada na sua rara, senão única oportunidade de dar essa resposta. Mas pouco durou seu sorriso. Tempo menos que o necessário para seu lindo rosto ficar totalmente corado de uma expressão surpresa, espanto e medo. Não fosse sua total imobilidade e veria a mesma expressão estampada nos demais colegas de trabalho, tal qual um reflexo de espelho. O pacato Seu Machado iniciou ou enorme, empolgado e raivoso discurso anti-capitalista. E entre babas e gestos enfurecidos, deu as costas e saiu porta afora e ainda do outro lado da rua se podia entender alguma coisa do que falava.

E nunca mais voltou, para imenso desprazer dos jovens. Um deles aliás, o teria visto no topo daquela manifestação contra a abertura do comércio aos domingos, da qual lhe informaram ser ele o líder ferrenho já há mais de ano. Ah, e outro dia foi visto saindo de uma lojinha concorrente no costumeiro horário noturno. Lá ia o Seu Machado, carregando consigo um pacote de bolachas requintadas.