Eu não quero paz no trânsito

Estava eu zappeando pela TV outro dia (movimento que me lembra uma casa noturna em Porto Alegre que não recomendo) e parei numa entrevista de um professor que fez uma pergunta aos seus alunos, algo mais ou menos assim:

_ Você entra num banco e encontra o cofre aberto e os funcionários lhe garantem: você Estava eu zappeando pela TV outro dia (movimento que me lembra uma casa noturna em Porto Alegre que não recomendo) e parei numa entrevista de um professor que fez uma pergunta aos seus alunos, algo mais ou menos assim:

_ Você entra num banco e encontra o cofre aberto e os funcionários lhe garantem: você pode pegar o dinheiro que nada lhe acontecerá. O que vocês fazem?

Pois a maior parte dos alunos e, imagino, dos aqui leitores, metem a mão na grana, ainda mais que dinheiro dando sopa está pior que cavalo encilhado pastando no jardim de casa. Pois apesar da insistência do meu primo querido (um pouco menos depois dessa) e quase advogado (talvez por isso), que insiste em impugnar a questão, tentando invalidá-la pelo fato da pessoa estar sendo autorizado a, o uso que o professor deu à pergunta segue sendo totalmente produtivo para minhas reflexões. Não sendo o dinheiro de sua propriedade e, portanto, alguém sairia prejudicado nessa história,

É um probleminha para se trabalhar o conceito de moral e ética. Aliás, buscando entender mais o que é um e que é o outro, percebi que poucos sabem, alguns explicam mas não se entende e a maioria não está nem aí para nenhum deles (tomara que meus SimpliAmigos me socorram). De qualquer forma, a questão levantada pelo ilustre é a de que atualmente temos baseado nossas ações sobre o resultado e não sobre os princípios éticos ou morais. Fulano faz se nada lhe acontecerá ou se, ainda que aconteça, sairá com vantagem. E, num país submerso em leis formidáveis, mas de aplicabilidade ou execução lamentáveis (seja por que motivo for, isso fica para uma outra discussão), assistimos, como um dos resultados, a crescente onda de violência e desrespeito à lei.

Ler um jornal, ouvir um noticiário pelo rádio ou assisti-los pela TV tem sido de chorar. É o Rio desrespeitando a Rocinha (sim, porque o vilão deixou de ser o criminoso há tempos, se o policial atira é processado) ou respeitando por demais, o presidente da FUNAI aprovando que os índios defendam suas terras com o uso de armas (e depois não querem que os fazendeiros façam o mesmo com o MST – aliás, os dois movimentos formalizaram união política essa semana… ), o técnico do Fluminense flagrado mandando seus jogadores baterem no tornozelo do craque adversário, até o PT caindo na safadeza, pitbull sendo treinado puxando caminhão (os donos deviam dar é a piroca para eles puxarem), briga de torcida, crimes passionais, pai que mata filho, filho que mata a família inteira, igrejas aproveitando-se da inocência da fé, assalto, assalto, assalto, seqüestro, assalto (esqueci um montão de coisas ruins né?).

Parece que mesmo os cidadãos “de bem” vem perdendo a capacidade de tolerância a raciocínio. O sexo tem que ser selvagem, a reunião de condomínio nem dá para pensar, o trânsito cada vez mais estressado (um desce do carro e bate na motorista, outro se perde na curva e mata quem estava na parada de ônibus) e por aí vai, Aliás, o Detran que venha se desculpar: patrocinar com o dinheiro público o enredo carnavalesco “Paz no Trânsito”, com o jogador e atropelador Edmundo desfilando na comissão de frente, foi prá matar. Matar, matar, matar, que horror! Uma vez postei (êta verbo novo esse) em um blog minha primeira opinião sobre a questão do desarmamento. Os pacifistas discordantes vieram com todas as armas (rendeu uma edição especial do Simplicíssimo sobre o assunto). Noutra sobre a Aids, o cidadão sentiu-se ofendido sem razão alguma ou por puro preconceito dele e enviou-me emails com ameaças de cima abaixo. Incrível: em dias de seca ou ciclone, quem oferece a outra face ao irmão, na certa vai levar porrada em dobro.

E a inflação, a crise, o imposto de renda (ai ai ai) e outras desculpas mais, nos colocam a agir ou melhor, a deixar de agir, numa postura individualista ao extremo. Nos declaramos ocupados demais para se envolver com o problema dos outros, que são ou um dia serão nossos também. Ah que vontade que dá de fazer como cantam os Mutantes: “Não leremos jornais que noticiem crimes, não participaremos dessas mortes vis (…)” (da música Beija-me Amor – imperdível). Pois eu não quero paz no trânsito. Eu quero paz em tudo e todos. Bandeira branca já!