Futebol meio a zero

Placar de alguns eventos do mundo da bola: basquete: 88×73, vôlei: 3×2 (com 25/20, 22/25, 21/25, 27/25, 27/25), futsal: 6×4, tênis: 2×1 (com 6/3, 7/6, 6/4, 6/4, sem falar no 15, 30, 40, …), handebol: 10×7, tênis de mesa: 3×2 (com 11/9, 10/8, 7/10, 9/11, 10/8), futebol: um a zero. Um a zero! Pois é, futebol é assim mesmo: por pouco mais de 90 minutos de espetáculo, a platéia fica sempre à espera do momento mágico desse esporte. Por vezes,

Placar de alguns eventos do mundo da bola: basquete: 88×73, vôlei: 3×2 (com 25/20, 22/25, 21/25, 27/25, 27/25), futsal: 6×4, tênis: 2×1 (com 6/3, 7/6, 6/4, 6/4, sem falar no 15, 30, 40, …), handebol: 10×7, tênis de mesa: 3×2 (com 11/9, 10/8, 7/10, 9/11, 10/8), futebol: um a zero. Um a zero! Pois é, futebol é assim mesmo: por pouco mais de 90 minutos de espetáculo, a platéia fica sempre à espera do momento mágico desse esporte. Por vezes, mesmo quando ele não ocorre, a galera pode vir a ter suas razões para comemorar. Mas que é dureza ficar duas horas num estádio (ou mesmo na onda televisiva) sem ter a chance de explodir de alegria, ah isso é. O esporte mais popular do Brasil e, por conseqüência, o que mais enterte as classes menos privilegiadas, é tão pobre em gols quanto esta é em sua balança financeira. Em números relativos, poucos são os jogos com placares mais dilatados. Sei que o futebol tem se tornado mais competitivo, que a zaga está ali para isso, mas você não vai me convencer que a mais bela das defesas tire mais aplausos do torcedor do que a bola sendo guardada na rede do time adversário.

Pergunto-me, ao mesmo tempo, se não seria justamente essa singularidade do futebol o seu maior charme. Se não estaria na tensão do jogo, na espera do gol, nos lances polêmicos, no xingamento ao juiz e toda sua família, que estaria o “tchan” do espetáculo (para desespero dos cardíacos). Mesmo assim, fico imaginando como seria se um placar mais dilatado fosse a regra, se a regra pudesse ser modificada de forma a resultar em placares mais dilatados ou se tivéssemos pelo menos jogos mais dinâmicos. Desde o estabelecimento das regras, algumas poucas e tímidas medidas foram tomadas nesse sentido, como a proibição do recuo de bola com os pés para o goleiro e vitórias valendo o triplo de um empate. Pois reuni então algumas idéias que circulam pelo mundo futebolístico a respeito de tema e passo a dividi-las com vocês:

Impedimento – Quantos gols anulados, jogadas interrompidas, polêmicos erros e acertos. Além de ser uma regra que gera muita polêmica, é a base, penso eu, da necessidade de dois juízes auxiliares. Assim, abolir o impedimento poderia ser sinônimo de acabar com os bandeirinhas (trocando por mais um juiz em campo – ver adiante). A idéia é dar mais campo e liberdade para os avantes. Há quem defenda também a permanência do impedimento apenas a partir de uma linha imaginária que corta o campo lateralmente na altura da linha da grande área. Eu seria mais radical, até porque isso resolveria a eterna dificuldade masculina de explicar essa regra para o sexo oposto (e se então as mulheres acabarem com a TPM, estaríamos todos quites).

Arbitragem – È injusta a situação do juiz. Ele é só um e corre na defesa, meio-campo e ataque, não é substituído, tem que tomar decisões sem ter os detalhes “da telinha”, sem o replay, recebe os piores xingamentos de todas as torcidas e não raro acabam pagando o preço pelos erros de seus auxiliares. Sou a favor de termos 2 árbitros, um correndo em cada metade do campo, munidos de alguma forma e telecomunicação mútua. Ficaria indubitavelmente mais fácil de estar “em cima do lance”, quem sabe até mesmo podendo eliminar a necessidade dos bandeirinhas (ver considerações sobre o impedimento). Mas também não adianta mudar um monte de regras se as que existem não são obedecidas (também vale para o futebol…). Bons olhos para a idéia da criação de um curso superior de formação de árbitros, cujo diploma seria pré-requisito para o exercício da profissão.

Tecnologia – é impressionante como o futebol ainda lança mão (ou pé, já que estamos falando de futebol) de pouca tecnologia dentro do gramado. Só há pouco surgiram os sprays demarcatórios estilo creme de barbear, que nada de moderno têm em si e ainda assim não são usados em todos os jogos. Detesto a comparação com os EUA, mas ela se faz necessária nesse momento. No futebol americano, os lances polêmicos são passíveis de discussão in loco. Basta o treinador jogar uma toalha branca no chão e o juiz está desafiado a rever o lance com seus auxiliares e ainda assistir o repeteco num monitor privativo colocado à beira do campo. Se errar é humano, consertar pode ser da máquina. E tem também os telecomunicadores, que facilitariam a vida dos juízes quando quizessemfalar com seus auxiliares e mesmo com a torcida. Eles poderiam bradar num fone estilo Sandy & Júnior, com transmissão para os alto-falantes do estádio: “Falta!”, “Pênalty!”, “Escanteio”, “É a de vocês!”, etc.

Tempos de Jogo – 11 jogadores correm 45 mais 45 minutos e ouvimos, quase sem exceções, suas ofegantes entrevistas aos repórteres ao final de cada jogo. Com o tempo isso se torna um “sotaque” de jogador e imagina-se que o tom seguiria imutável mesmo num calmo alvorecer dominical. Pois é desta semana a recusa da FIFA em aumentar de 15 para 20 minutos o tempo de intervalo de um jogo de futebol. Mas o tópico bem que poderia merecer outras mudanças, como aumentar o número de substituições, que atualmente restringe-se a 3 (e já foi de apenas 2). De repente seria necessário um plantel maior disponível no banco de reservas. Outra possibilidade seria um sistema de 3 tempos de 30 minutos ao invés de 2 de 45 (só para não imitar os tradicionais 4/4 americanos).

Tempo Técnico – Pense bem, o time está mal, não se acerta em campo. Bons treinadores sabem o que fazer, mas têm apenas o intervalo para passar orientações, restando ficar deselegantemente aos berros na beira do campo em sua área técnica enquanto a bola rola no gramado. De volta aos outros esportes com bola e veremos que existem pedidos de tempo ao longo de cada período. Num esporte onde a coletividade e preparo físico são fundamentais (o massagista sempre socorre com aquela aguinha), 45 minutos com apenas 3 substituições e sem poder “arrumar a casa” ou mesmo mudar de estratégia, batendo um papo com seu time é lamentável. E a culpa é geralmente do coitado do treinador …

Lateral – ainda não encontrei lógica em bater o lateral com as mãos, fazendo a segunda exceção à regra de não se usar essa parte do corpo (a primeira fica a cargo do goleiro). A cobrança com os pés implicaria num lançamento com maiores possibilidades ofensivas. Observem quando a bola é colocada dentro da área por ocasião de uma cobrança nas suas proximidades. Além disso, acabariam com as reversões devido a erros elementares, como o alçamento da bola com o atleta em movimento. Se há jogadores que cobram lateral com as mãos melhor do que o fariam com os pés, é de se questionar se não estariam praticando o esporte errado …). Seria uma cobrança de falta, um tiro de meta na lateral, ou seja, um tiro de lateral.

Escanteio – uma vez que se efetive a mudança na regra do lateral, é preciso incrementar o escanteio ou ele fica desvalorizado, tornando-se apenas um “lateral de fundo” (sem preconceitos com o lateral). Uma forma de lhe conceder maior status (leia-se ser um lance com maiores chances de resultar em gol) é a mudança do local de cobrança para o ponto onde se encontram, perpendicularmente, a linha de fundo com a linha da grande área. Sei que, atualmente, um escanteio bem cobrado tem seu valor tático, técnico e mesmo estético (vejam o gol olímpico, por exemplo), mas o que mais vemos são jogadores chutando verdadeiras abóboras, como se não passassem dias treinando esse chute. Pensando assim, isso ajudaria também a conservação das abóboras …

Limite de faltas – esportes de contato direto têm disso. Creio que uma boa forma de tentar (nada é garantido) reduzir o número de faltas e criar mais chances ofensivas, é a criação do limite de faltas. Assim como no futsal e no basquete, após um determinado número de faltas o time infrator é penalizado com um tiro livre direto na sua intermediária. Jogador que, individualmente, excede as infrações, poderia ser punido com um “chá de banco” por um tempo pré-determinado, deixando sem time com 1 jogador a menos e criando uma clara vantagem ofensiva ao adversário. Menos faltas também poderiam significar menos lesões dos atacantes, nossos protagonistas do gol e seria também uma forma de aplicar a tão moderna medicina preventiva (outra forma é partir para a prática de outro esporte …).

Existem ainda muitas outras idéias, como reduzir o número de jogadores em campo, as dimensões do campo e do gol, etc. Certamente a organização de um forum sobre o tema, com a presença de instituições relacionadas, clubes, dirigentes, comentaristas, jornalistas, repórteres, torcedores e quem mais quiser participar (enquanto algumas esposas estariam reunidas na liga contra o futebol), traria uma gama enorme de soluções. O problema é que a bola está ficando no banco, substituída pelos teóricos burocratas de plantão, com suas leis e estatutos que nem mais os ingleses querem ver. E olha que, segundo dizem, foram esses mesmos gringos que inventaram essa coisa toda.

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Imperdível: “o ‘futchibol’ é o único jogo onde as regras são perfeitas desde o início. Ora toma, que vais p’ra Roma! Eu, por mim, para evitar os empates, resolvia logo o problema: fazia um jogo só de penaltis. Cada equipa marcava cem penaltis. Garanto que nunca haveria empates!” (comentários do português C.F., em seu artigo no site Voz Portucalense