Mundo cão

Dia desses estava eu dentro do meu carro quando um menino de rua (não sei se essa é a forma mais adequada de defini-lo), passou pela frente do veículo. Talvez não houvesse nada demais nesta cena, não fosse me chamar atenção que vinha, em sua mão direita, com uma cordinha esticada. Antes mesmo de ver por completo, imaginei tratar-se de um cachorrinho. Meu pensamento imediato foi de satisfação, algo do tipo: “Pôxa que legal Dia desses estava eu dentro do meu carro quando um menino de rua (não sei se essa é a forma mais adequada de defini-lo), passou pela frente do veículo. Talvez não houvesse nada demais nesta cena, não fosse me chamar atenção que vinha, em sua mão direita, com uma cordinha esticada. Antes mesmo de ver por completo, imaginei tratar-se de um cachorrinho. Meu pensamento imediato foi de satisfação, algo do tipo: “Pôxa que legal um menino de rua conduzindo seu cão pela guia, que baita exemplo” e admito um certo preconceito aqui. Mais alguns passos à frente e eis que surge, na outra extremidade da corda, nada menos do que um daqueles assustadores pitbulls. Fiquei perplexo e preocupado, percebendo também que na mão esquerda, o menino segurava um haltere de pequeno porte, talvez entre 2 e 4 Kg, com o qual exercitava ininterruptamente seu fino braço. Lembrei-me do amigo Pedro Volkmann, em seu artigo sobre o Desarmamento, na edição 43 do Simplicíssimo, quando se referiu às armas e às armas. Inevitavelmente, veio em meu pensamento uma seqüência de cenas de uma gangue valendo-se da fera para assaltar transeuntes desavisados. Em meu fugaz devaneio, senti-me realmente muito angustiado. Não sei se isso tudo fica mais atrelado ao nosso violento dia-a-dia urbano, ao senso comum, ao bom senso ou por mais uma carga de preconceitos (com o menino e com essa raça canina), mas foi realmente inevitável. Até porque ocorreram duas histórias nada agradáveis com minhas colegas de trabalho, gente de muito boa vontade.

Uma delas, ao parar com seu carro na sinaleira, foi abordada por um mendigo que lhe pediu algum trocado. Respondeu-lhe que não tinha, mas comovida pela insistente lamúria do menino abriu a carteira para mostrar-lhe o quão pouco tinha dentro. E pouco pode fazer para evitar o sentimento de desilusão e raiva (com sua inocência, bondade ou ambos) que seguiu-se à mão que adentrou pelo vidro aberto e roubou-lhe as duas únicas notas de R$ 1,00 que tinha. Também parada na sinaleira, mas com o vidro fechado, a outra colega deu atenção a uma criança pedinte (a mesma do outro caso, ao que tudo indica). Com uma moeda em sua mão, o mendigo pediu-lhe dinheiro e, frente à negativa, advertiu: “Se você não me der vou riscar seu carro”, acenando com a moeda. Tendo o sinal aberto, ela partiu, sentindo na sua boa alma o barulho do metal rasgando a pintura de toda a lateral de seu carro e o sorriso sarcástico daquela pequena criatura que ficava para trás.

Volta e meia penso o que eu teria feito. Antes, durante e depois de tal acontecimento. E imagino que você tenha se perguntado o mesmo. Então me diga prezado leitor, sinceramente, o que você teria feito?