Tentar esquecer é ficar lembrando

De repente você percebe que não se lembra. Força a cuca e nada. Esfrega a testa e nada. Era importante, mas não tem jeito, você esqueceu. Se tivesse anotado na agenda, naquele papelzinho qualquer, na mão mesmo. Nada, foi-se. E parece que não vai voltar mais. Desapareceu tão ao natural, sem fazer força alguma. Pois deu-se o De repente você percebe que não se lembra. Força a cuca e nada. Esfrega a testa e nada. Era importante, mas não tem jeito, você esqueceu. Se tivesse anotado na agenda, naquele papelzinho qualquer, na mão mesmo. Nada, foi-se. E parece que não vai voltar mais. Desapareceu tão ao natural, sem fazer força alguma. Pois deu-se o esquecimento. Você não estava determinado a fazê-lo, não traçou um plano, não tentou esquecer. Simplesmente esqueceu.

A Sra. L. mora no Centro Geriátrico Vitalis. Da mesma forma que muitos outros que estão por lá, depara-se diariamente ao acordar com um calendário feito com números grandes que indicam o que ela esquece. Todo dia. Ela tem Alzheimer e parece já ter deixado para lá a briga com o cérebro. Mas se tentar lembrar é tarefa árdua, tentar esquecer pode vir a ser uma dívida inglória, por vezes impagável. E olha você aqui meu amigo, fazendo força para esquecer … tsc, tsc, tsc.

Não recordo de ter visto uma lista de lembretes de coisas a esquecer perdida em algum bloco de anotações rabiscadas por aí. Bem você sabe que nem o processo de luto serve ao esquecimento. Muito pelo contrário, sua elaboração depende muito mais do resgate ao consciente daquilo que mais se aproxima da realidade, eliminando as fantasias, grandes responsáveis pelas culpas infundadas. Tampouco a missa de 7º dia ou as visitas ao cemitério prestam favor ao esquecer. São para relembrar e matar a saudade.

Me diga uma coisa, por um acaso você não fica lembrando, lendo, repetindo em voz alta um trecho de livro que quer tirar de sua cabeça? Ou faz isso quando quer lembrar? Vai dizer que quando aquela musiquinha brega detestável pega você distraído e não larga mais da sua cabeça, repetitiva e chata como algo pode ser, você fica cantarolando-a por inteiro na tentativa de esquecê-la? Não, você não faz isso. Ah, o problema é passional? Pois cai como uma luva aqui o trecho da música Canto de Ossanha, do Baden Powell e do Vinícius de Moraes:

… eu não sou ninguém de ir
Em conversa de esquecer
A tristeza de um amor que passou
Não, eu só vou se for pra ver
Uma estrela aparecer
Na manhã de um novo amor

Ah, é difícil né? Você fica com aquele aperto no peito revisitando as poucas fotos sob um céu estrelado para lembrar dela, que há muito lhe prometeu uma resposta e imaginando qual seria. Fica achando ela parecida com algum personagem da TV, com a cara no outdoor e etecétera, etecétera e etcétera. Lamento lhe informar que este é o caminho errado para esquecer. Se é que o que você quer é mesmo esquecer. Vai ver ela nem sabe mais o seu nome, lembra disso. Quem sabe o ponto seja sua esperança de tê-la de volta, de mantê-la perto, de manter alguma brasa acesa, de lembrar para sempre. Pois caberá a você decidir se seguirá o caminho de ficar tentando reviver ou deixar ir de vez.

Seja qual for o caso, e se esquecer é o seu desejo, esqueça de tentar esquecer. Simplesmente esqueça. Vire a página meu amigo, parta para outra, porque tentar esquecer é ficar lembrando. Como diziam Os Mutantes em Dia 36:

Não é mais dia trinta e seis
Tudo começa outra vez
Esquece não pensa mais