Da prematura necessidade de se definir as obras-primas

O que, afinal, é "Brokeback Mountain"? Uma apologia homossexual, uma zombaria ao símbolo do cowboy, uma obra de arte da sensibilidade ou um dramalhão amoroso lugar-comum? De vez em quando resolvem alçar um filme ao posto da genialidade. Encontram nele todos os fatores possíveis para considerá-lo, prematuramente, uma obra-prima de todos os tempos. O cordão vai engrossando tão rápido e com opiniões tão pouco díspares, que uma hora você não sabe se realmente está prestes a presenciar o surgimento de um novo clássico ou se ninguém se dá ao trabalho de contestar a coisa por que, afinal, se todo o mundo tá dizendo que é bom, quem sou eu para dizer o contrário? Ainda mais se o filme em questão tem oito indicações ao Oscar, ganhou o Globo de Ouro de melhor drama e, heresia das heresias, vão me acusar de preconceituoso se eu encontrar falhas em um filme que ousa retratar o homossexualismo de maneira tão… sensível (ainda não sei se é a melhor palavra)? "O Segredo de Brokeback Mountain" é um filme muito bom. Ao contrário do que muitos pensam e até tentam legitimar, não é uma apologia ao homossexualismo, nem mesmo uma provocação contra este símbolo tão ligado à masculinidade americana, que é o cowboy – no entanto, já tão cercado de suas próprias metáforas gays, que não é nem preciso fazer referência ao mundo de Marlboro e seus vaqueiros suados enxugando os corpos em câmera lenta… Então, o que é "Brockeback Mountain"? Não sou ninguém para responder em definitivo, mas me atenho a tentar compreendê-lo sob um ponto de vista mais generalista, que diz respeito a um tempo, um momento em que o filme se situa. Naquela elipse de tempo que compreende os anos 60 ao 70, finda a ilusão do campo, do bucolismo dos grandes pastos e dos empregos ligados à área. A época agora é de desencanto, de empregos subalternos, de tediosas labutas como empacotador. O desencanto está presente não só na vida dos desencontrados personagens – também eles carentes de atenção, de cuidado. Mas sim nos saloons vazios, nos tediosos bailes e nos cabelos mais repletos de laquês que vão entrando em cena a medida que o encanto vai saindo dela. Não chegaria à barbaridade de dizer que os personagens se apaixonaram "só" por esta carência; não seria ingênuo a tal ponto, é lógico, por mais que alguns digam que é aquela condição comum de renegados que os aproximou – e é, também –, mas não somente isto. Lógico que era preciso mais do que isto para que os dois homens se envolvessem. É bonito dizer que eles se apaixonaram somente "um pelo outro"? Pode ser, mas também uma mentira. Por mais que os personagens nunca abandonem sua masculinidade – ninguém desmunheca, não passam a usar botas rotas e franjas purpurinadas em suas jaquetas – e, principalmente o personagem de Ledger em nenhum momento se envolve com outro homem (daí a afirmação de que ele se apaixonou "pelo Jack", e isto aconteceria fosse ele homem ou mulher), é intrínseco o fato de serem dois homossexuais. A maneira como o filme trata isso, no entanto, é que angariou todo este entusiasmo, esta simpatia. A narrativa não-cinematográfica do filme, o enredo, é primoroso. Algumas coisas me incomodam na forma com que o filme, no entanto, peça final, se apresenta. Apesar de ser uma película extremamente longa, pouco destaque se deu à parte que mais tempo deveria receber atenção – os dias de idílio no campo, o cuidado com o rebanho de ovelhas (e suas conotações religiosas?), enfim, toda a liberdade e encanto que uniou as figuras de Ennis Del Mar (Heath Ledger) e Jack Twist (Jake Gyllenhaal) e corroborou para sua paixão. Aquela fascinação que remete a seus dias de solidão nas montanhas e faz com que se apaixonem é retratada de maneira rápida e um tanto burocrática. Mais burocráticos ainda se tornam os momentos em que tornam a se encontrar, nestes vintes anos retratados. Os momentos de encontros para "pescaria" que eles dividem ao longo dos anos, retornando à sua amada montanha, é quase videoclíptico. É possível, eu creio, pela sensibilidade do espectador se encantar com a história dos dois. Mas o filme não parece muito preocupado em fazer isto, com a seqüência hiper-fragmentada destes encontros, com as elipses de tempo exageradas (em uma cena, Jack está transando com uma mulher que conheceu num dos rodeios, na cena seguinte ela está dando a luz!). Quando não estão em encontros nas montanhas, portanto (e esta possível e tão clara separação de "momentos" do filme, é que me incomoda), estão sendo atormentados por suas vidas comezinhas, por seus casamentos farsescos, por seu cotidiano pobre e infeliz. A felicidade é lá fora – nos diz Ang Lee – no campo, na vida desregrada de então, na liberdade dos pastos e no segredo dos encontros proibidos. No momento em que se traz a possibilidade da vida a dois, do casamento, da união, da divisão da rotina, tudo se torna enfadonho e chato. Tanto é isto, e ele não diz só da união heterossexual, que Enis foge da união como o diabo foge da cruz, por mais que Jack viva a lhe atormentar. E a questão talvez não seja somente o modo como Enis encara a homossexualidade, sua consciência de não serem aceitos em uma sociedade preconceituosa. A coisa está além. É provável que ele imagine que uma vida de união, da divisão diária, torne o seu relacionamento com Jack tão tedioso quanto com Alma (Michelle Williams, a Jen de "Dawson’s Creek"). Enfim. Dúvidas que persistem. E que a montagem não ajuda a diluir. Talvez menos por sua qualidades técnicas (não me referindo a estupenda interpretação geral do elenco) e mais pelo que representa, este filme esteja sendo tão incensado. A burocracia com que Lee se detém no entanto, é que o impede de ser a obra-prima que todos querem dizer que é.