O constrangedor cinema de Gerbase

Ok, o recurso metalinguístico de inserir filmes dentro do filme, partindo-se do pressuposto de que isto contribuiu para o que Gerbase considerou uma “homenagem” à Sétima Arte até é válido. O resultado final é que não funciona. Bem, na verdade, muito pouca coisa funciona em Sal de Prata

Acho que não vou cair no paternalismo de me referir a este filme dentro da esfera “um filme brasileiro” (isto poderia ser visto como um fator amenizante para o fato de ele ser tão ruim do jeito que é. Por enquanto, ser um “filme brasileiro” ainda serve como desculpa para produções parcas em qualidade – haverá sempre alguém para relevar tal fato…). Mas mesmo me desfazendo de tal especificidade, poucas vezes assisti a um filme tão tosco – ainda que não esperasse que fosse grande coisa, o nível de decepção foi coisa acima do previsível. Sal de Prata, de Carlos Gerbase, chega a constranger tamanha é a pretensão de sua proposta e tão tacanho é seu resultado.

Não é que não possua uma certa engenhosidade em seu roteiro. Ok, o recurso metalinguístico de inserir filmes dentro do filme, partindo-se do pressuposto de que isto contribuiu para o que Gerbase considerou uma “homenagem” à sétima arte até é válido. O resultado final é que não funciona. Bem, na verdade, muito pouca coisa funciona neste filme.

Desde o princípio – a história de Veronese (um apático e desinteressante Marcos Breda), um cineasta chinelo, realizador eventual de curtas-metragens, que sofre um enfarte e morre em meio a uma discussão sobre formatos aceitáveis para um concurso de audiovisual (em um auditório, realizadores diversos se engalfinham sobre a validade de vídeos digitais concorrerem com filmes em película em um concurso. Ensandecidos, alguns gritam “Sal de prata, tem que ter sal de prata!” – eis aí a justificativa para o título, que em um primeiro momento se chamaria “Roteiros Encontrados num Computador”… Buenas!). O falecido era namorado da executiva bem sucedida Cátia (Maria Fernanda Cândido) -, e o antagonismo exacerbado que vai permeando a obra, além de não trazer a menor verossimilhança, é um fato contínuo em meio a uma série de questões forçadas. Nota-se um esforço muito articulado em tornar o personagem falecido um sujeito fascinante, uma espécie de “gênio de morte prematura”.

Veronese com seus poucos momentos em vida é tão interessante quanto uma corrida de tartarugas; em flashbacks, então, só nos traz à mente a pergunta “mas o quê uma mulher como Cátia quereria com um Zé Mané destes?”. O esforço de Maria Fernanda em defender seu papel, no entanto, não é o que nos traz tão profunda indagação: seu sofrimento, seu choro e tristeza constantes são plausíveis, eis uma atriz honrando o seu papel. Pena que – com a exceção que será abordada em seguida – nada mais ao seu redor conspire para que o filme consiga levantar-se do estado de catarse em que se encontra mergulhado desde os seus primeiros momentos. Afinal, o que vemos depois que a tristeza pelo falecimento de Veronese envolve a todos os seus entes queridos: um “mergulho” em sua obra. É Cátia abandonando seu belíssimo e luxuoso apartamento na Bela Vista para se enfurnar no muquifo do defunto, escarafunchar seus roteiros deixados em um laptop e compreender todo o universo denso de seu amado. À sua volta, Valdo (um Bruno Garcia de quem esperamos que solte uma piada a qualquer momento), “amigão” de Veronese, o cineasta bem sucedido que usa gola rolê e faz charminho pra Cátia; os “alívios cômicos” são representados pelos personagens João Batista (Nelson Diniz), o publicitário que também se envolve com cinema, com grana para bancar produções mais requintadas e Holmes (Júlio Andrade), outro pé-rapado amante do vídeo digital por suas “facilidades”.

Entre as viúvas chorosas de Veronese – além de Cátia, há a Mirabela (Janaína Kremer) e Cassandra (Camila Pitanga) – a outra exceção a que me referia. E mais uma vez vem à tona a questão: que tanto fascínio, invisível ao público, vêem no falecido Veronese?

Um fascínio capaz de fazer dois de seus amigos brigarem pela realização de um roteiro seu. De fazer Cátia viajar ao interior para conhecer a filha de Veronese (uma editora de imagens em uma emissora local: a vocação audiovisual tá no sangue!), procurar entender seus roteiros repletos de sexo – enfim, envolver-se profundamente com o “legado” deixado por Veronese. Em meio ao ciúme que sente de Cassandra, o caso não-explicado de Veronese, Cátia vai emendando aprendizados sobre a função da sétima arte, assistindo a perrenga pela realização de duas versões de um roteiro de Veronese, com a mesma atriz – sua atriz fetiche, Cassandra – e envolver-se com o universo cinematográfico, como em uma póstuma homenagem à paixão do amado falecido. E nós somos desafiados a nos emocionar com as tentativas de momentos profundos, adornados por inapropriada trilha sonoro que convoca Mendelssohn, Schubert, Bach, entre outros clássicos para um auxílio dramático.

Sal de Prata constrange em passagens como as que Cátia visualiza o roteiro de Veronese. Em dada cena, o cenário é um quarto de motel de quinta categoria, os protagonistas são os próprios Veronese e Cátia e tudo fica com aquele aspecto de “Curtas Gaúchos da RBS”. Cenas mal iluminadas, atores (os mesmos porto-alegrenses de sempre que abundam nas produções da Casa de Cinema) com uma interpretação de cinema amador, um roteiro que se pretende intrincado, mas se perde na banalidade. Sal de Prata é duro de agüentar.