Contaria…………

Existem festas, cenários peculiares, rostos e mágicas de sol que guardo em meu baú de memórias, um Giugno Pisano que poderia contar até a madrugada, tal a atmosfera que ficou impregnada em meus registros. À tarde, convidaria um amigo a sentar no Caffè dell´Ussero, tradicional cafeteria da cidade de Pisa, onde se encontravam, no passado, literatos e cientistas de renome para…
Existem festas, cenários peculiares, rostos e mágicas de sol que guardo em meu baú de memórias, um Giugno Pisano que poderia contar até a madrugada, tal a atmosfera que ficou impregnada em meus registros. À tarde, convidaria um amigo a sentar no Caffè dell´Ussero, tradicional cafeteria da cidade de Pisa, onde se encontravam, no passado, literatos e cientistas de renome para traçarem escritos, planos e discussões acaloradas. Sentaria numa mesa ali fora, talvez, para acompanhar o movimento colorido das margens do Arno, com algum doce típico e uma longa taça de café, do tamanho das intensas conversas que o cenário suscita. Na chegada da noite, na calçada à beira do Arno ainda no lusco-fusco, quando a prata da lua chamusca brilhos no rio, e, feito prisma, estes permeiam o céu de cores, ganharia um beijo de algum Oficial italiano (é assim amar noutro idioma), e caminharia pelas ruas e praças do Giugno Pisano com ares de Dolce Vita.

Acordaria no dia seguinte achando que fora sonho, encontrando pelo caminho ainda as velas da Luminara, e leria no jornal, no café da manhã, à mesa da janela do lugar de sempre, que as equipes Tramontana e Mezzogiorno (nomes que equivalem às duas metades da cidade: pôr-do-sol e meio-dia) disputaram o Giocco del Ponte no domingo passado, e que…….Contaria da disputa, das equipes, das metades da cidade, da Ponte di Mezzo e de sua história, das cores das vias que margeiam o Arno nas várias horas do dia (não há algo tão lindo quanto os pequenos prédios e casas em cores ocres, contrastando com o céu azul das quatro da tarde).

Contaria do Portão de madeira do Palazzo Agostini, ilustre senhor da calçada, que tudo vê, tudo sabe, tudo cala. Que, grande e sólido, era como uma fortaleza para meus medos, tornando-se íntimo de meus anseios com o passar do mês.

Contaria, contaria, contaria…………Dos Jardins clareados pelo sol, que perdi de comprar os ingressos e, até hoje, me paro imaginando, num demorado sentir, os verdes prateados dos jardins às cinco da tarde, como um passeio às minhas fantasias…Contaria dos pátios, das máscaras de festa, das bicicletas coloridas pra lá e pra cá, no mês da cidade….Das tendas de doces e de bebidas típicas, dos folhetos com a programação da cidade, que me parava olhando, contente, em murais aleatórios nas paredes dos prédios históricos…Contaria das chuvas que assissti, e das que doeram; e das vezes em que enxerguei a alegria da cidade no dia claro, do verde radiante na Torre branca, das gentes sentadas no chão, rindo da vida.

Contaria toda a emoção do Giugno Pisano em detalhes, e tanta coisa que não cabe nas linhas da folha, mas posso garantir…Ainda que eu conte, e que as cores e descrições possam dar uma vaga idéia do que se sente nestas imagens, seria uma madrugada longa de prosa…Melhor do que contar, posso desenhar o mapa do Giugno Pisano, um mapa de sensações, para o viajante recém-chegado…Este é meu ofício, que, em esboço aqui, estará no meu livro, num futuro próximo!