Aurora (IV)

Os escritos traziam as palavras: Apocalypsis iesu Christi e aquele estranho busto parecia sair de um enorme casulo de membros contorcidos e miraculosamente libertos do restante de sua matéria corporal, como se nascesse, ou renascesse, de um mundo de coisas incógnitas entre as coisas cógnitas para, enfim, se dissolver um pouco abaixo, nos contornos do espelho envernizado

IV

– És apenas o teu reflexo. Segues os conselhos de outro e não acreditas em ti mesmo?

Existia ali, na precisa especificidade daquele momento, a marca mais tênue de uma das mais notáveis capacidades do ser humano: pudemos, Alermano e eu, moldar o evento no cérebro um do outro com primorosa precisão. Obviamente não me refiro às cientificidades ideológicas que marcam a busca e o extermínio dos bruxos, como, valho-me da lembrança, aconteceu com o verdadeiro pai de Alermano, pois não se tratava de telepatia, controle mental e tantas outras obsessões demoníacas; tais obscurantismos são por demais grosseiros, mesmo se fossem aqui descritos por alguém que realmente neles acreditasse (o que, certamente, não é o meu caso), quando comparados ao instinto que me unia a meu irmão. Era uma nossa capacidade própria, uma verdadeira habilidade tão fortuita e natural que acostumei-me a esquecê-la, mas agora, relembrando-a, percebo que se tratava de um verdadeiro milagre. Desta maneira, peço ao leitor mais cético que abandone sua imaginação ao poder de tal milagre, tão pobremente descrito através de minha linguagem, apenas por alguns instantes, pois o que realmente provocará comoção não será o evento, frio e cruel, em si, mas a extremamente poderosa arte natural a qual aqui prenuncio e que tentarei descrever adiante.

Reluto para não me estender sobre a cena aterradora que se seguiu, mas a escrita está tão entrelaçada à experiência humana, por mais implacável e venenosa que esta seja, que é impossível não narrar, ainda que brevemente, o cenário como um todo. Por já se estender o cair da tarde, a casa estava fria e escura, deixando-me presa do mais abjeto e desprezível terror. Após o gesto de Alermano, corri e me empenhei no trabalho que ele me destinara mentalmente: atrair a atenção do mais distante dos cavaleiros para que, um contra um, a luta se tornasse mais justa, seja lá qual maligna providência de justiça possa existir num combate de dois cavaleiros do imperador contra dois jovens que éramos. Mesmo assim pude reunir forças para um profundo interesse na preservação de alguma coragem, e a fragilidade de minha juventude, a torpeza que senti em meus primeiros crimes, deu lugar à ansiedade do risco de trapacear com nossos algozes, de torná-los tão frágeis quanto nós, por mais supérfula e imbecil que tal descrição de sentimento possa parecer.

Nosso corredor possuía, ao seu final, um grande espelho, fruto de uma das poucas viagens de meu pai à região da alta Itália. Sobre sua arcada de madeira marrom e manchada havia, esculpida entre caracteres antigos, a figura de um tronco humano, ombros, pescoço e aquilo que se assemelharia a uma caixa craniana: os olhos haviam sido preenchidos com tinta, muito profundamente, a boca, embora inerte, era sombriamente eloqüente e o nariz, de perfil, já desbotado e mofado, apontava austero num ângulo de quarenta e cinco graus em direção ao teto, sobre a boca entreaberta num sorriso que parecia gotejar de luxúria, ainda que fosse discreto e como se fosse fustigado frontalmente por um vento misterioso. Os escritos traziam as palavras: Apocalypsis iesu Christi e aquele estranho busto parecia sair de um enorme casulo de membros contorcidos e miraculosamente libertos do restante de sua matéria corporal, como se nascesse, ou renascesse, de um mundo de coisas incógnitas entre as coisas cógnitas para, enfim, se dissolver um pouco abaixo, nos contornos do espelho envernizado. A altura e a profundidade de sua reflexão eram terríveis quando observadas a pouca luz, as imagens ali se deformavam, ganhavam proporções distintas da realidade, flutuantes e somente anos mais tarde pude entender o estado de espírito de um dos cavaleiros ao encontrar-se, no escuro, diante daquele móvel. Havia, entre alguns minoritas das regiões sul e sudeste da Alemanha, (região que muito pôde prover o imperador quanto a seu corpo de cavaleiros) misteriosas crenças a respeito das imagens dos espelhos. Dizia-se que as crianças que eram paridas diante deles nasciam falantes e sábias, sem uma única lágrima e muitas delas, ao verem seus próprios reflexos, pediam às suas mães para serem mortas, aos gritos e com voz de adulto. E, até mesmo nestes dias, não são poucas as lendas germânicas a estes respeitos: homens com crânios voltados para trás e chifres no lugar dos olhos, mulheres com focinho de cão e cavalos com cabeça de serpentes; a população inteira dos infernos, excluída e assentada, movia-se detrás dos reflexos dos espelhos e neles encontravam seu portal para o mundo dos homens.

Certamente por isso, aquele a quem me destinei ficara imóvel (e não poderia dizer se devido a uma combinação de admiração e medo) ao ver meu reflexo deformado atrevendo-se no meio da escuridão, um verdadeiro fantasma que o fez gritar enquanto me movia longe de suas vistas, fazendo do espelho minha marionete, movimentando minha sombra desproporcional a qualquer habitante da terra com tamanha destreza que percebi que até mesmo Alermano, que tão bem conhecia as suas propriedades de reflexão, se espantou por um instante. Quando o homem correu pelo corredor, dando as costas ao meu reflexo e vindo na direção em que me encontrava realmente, Alermano pôde acertá-lo através da armadura, incógnito que estava, com sua lança, direto no peito com tamanha força que vi meu amigo voar para trás com violência, aterrizando perto da porta e de onde se encontrava o segundo cavaleiro. Não me lembro dos gritos ou das palavras especificamente, mas havia ondas de fumaça, devido ao frio, que se evolavam de nossas bocas, envolvendo-nos numa fina nuvem azulada. A elevada estatura daqueles homens, suas armaduras arredondadas nos flancos que lhes davam um aspecto pesado e admirável de verdadeiras sobrecasacas, tudo se desfez com a fumaça azulada que parou diante da boca do homem acertado pela lança; parara de respirar e, antes de cair, seu reflexo em nosso espelho parecia o de um verdadeiro extraterrestre, primeiro debruçando-se sobre uma cadeira, depois caindo teatralmente sobre os próprios joelhos, olhando para si mesmo naquela imagem deformada, como se esperasse ver sua alma saindo do corpo e deixando-o sem substância, antes de perecer privado de sua própria essência humana, engolido pela estranha figura ali esculpida. Voltei a mim a tempo de vislumbrar uma outra tragédia: devido à força de seu golpe fatal, Alermano ainda encontrava-se caído e desprotegido ao ataque daquele que restou, então corri na sua direção sem ao menos pensar no que fazer. Tais coisas podem ser vislumbradas pela imaginação, pode-se ter, através da criatividade das palavras, uma sensação, mas nunca o gosto real do veneno; as palavras não têm o poder de impressionar o espírito com o requintado horror de sua realidade.

Alermano, no chão, gritou para que me afastasse e o deixasse resignado a seu destino fatal. Foi quando ouvi um estrondo enorme vindo da porta, um barulho anormal que me atingiu como uma flecha nos ouvidos, uma sombra humana apareceu movimentando-se rápido e trazia algo em suas mãos; e havia fumaça e confusão. O que era aquilo, afinal? Aqueles contornos estranhos, então, adentraram a casa na direção de meu amigo e o cavaleiro, muito aturdido, mas muito mais ciente da situação do que eu, me acertou direto no pescoço, jogando-me do outro lado do corredor e fazendo-me perder a consciência por um longo tempo. Foi um tempo de exaustiva e mortalmente longa agonia e quando meu espírito sentia-se recobrado e livre das amarras das profundezas da alma, de alguma forma sentia que novamente os sentidos me deixavam só e eu deduzia, aturdido, que o único som que me chegava, o das batidas de meu coração, prenunciava aquilo que poderia ser o som da morte lenta, da frase final e sufocante. Em meio aos meus profundos esforços para relembrar aquele estado de delírio, as figuras, o cenário, os sons, tudo parece se dissipar como por arte da mágica e vejo reduzir a apenas um pequeno espúrio, através destas palavras, o que realmente senti em meu tormento e inconsciência, evocando aquelas impressões como que de outro mundo intangível dentre todas as outras coisas, mas que para mim eram também inatingíveis. E quão contingente é esse precipício chamado inconsciência. Como, me pergunto, pude reconhecer agora aquelas sombras e distingüí-las da verdadeira morte? Contudo, os tormentos e visões do que chamo “inconsciência” hoje em nada me libertam, percebo que me aparecem, depois de muito tempo, com a mesma força de minha juventude, sem solicitação, enquanto, petrificado, pergunto a mim mesmo de onde provêm tais maravilhas invisíveis, tal luz imaterial da qual posso me aproximar e passar a mão, desfazendo as imagens por ela formada, mas quando me afasto, as imagens se tornam tão nítidas quanto antes, e crescem e se multiplicam para depois virarem pó.

Quem nunca morreu para depois voltar à vida dos sentidos não descobrirá jamais os misteriosos caminhos e formas e sombras estranhamente reconhecíveis entre a escuridão silenciosa; não vislumbrará, sobre águas mornas, os restos daquilo que antes chamávamos realidade, flutuando, enquanto alguns afundam ao tentar alcançá-las; não sentirá a fé de uma prece realizada sobre o perfume de algum incenso estranho e desconhecido, nem meditará no mistério de alguma composição que jamais foi antes entoada, mas que agora, em júbilo e com grande ecumene, os anjos tocam como uma interseção. Durante muitos dias não pude saber o que acontecera a Alermano, ao cavaleiro que restou e o que diabos era aquela figura que adentrara nossa casa num momento tão singular. Encontrara-me nesta espécie de morte induzida, sobrevivendo aos cuidados de alguém que, até então, pensava não existir, vivendo num destes campos desconhecidos mais afastados de planíces rasas, montanhas cobertas de neve e riachos que serpenteavam por entre as terras verdes de mato alto. Quando enfim recuperei os sentidos, encontrava-me numa das situações mais estranhas. Embora tentasse falar de maneira alucinada, as palavras pareciam se perder na garganta, e não conseguia me expressar, apenas emitir sons estranhos e ganidos de dor. Afinal, o que acontecera a meu irmão e como fui acordar naquele estranho lugar? Vi que estava numa cabana cercada, aparentemente isolada de qualquer tipo de civilização, feita de madeira cinza e larga, com lumes pendurados nos cantos e aninhados no chão, sombrios, porém era estranhamente aconhegante e cheirava a cravo e cânfora, e havia uma mulher velha, mas não muito, de maneirismos fortes, estranhamente masculinos e patrícios, que pareceu ser, dentre todas, a mulher mais bela que já pude conhecer em toda minha vida. Diante da beleza, a única atitude plausível é o silêncio, então deixei de tentar compreender, ainda que por um breve instante, a minha situação e o destino de Alermano.

A imagem daquela mulher estranha me surgiu, a princípio, envolvida por um descomunal mistério, mas depois sua voz me inspirou uma espécie de confiança, e foi através de suas palavras que pude vislumbrar o que acontecera naquele fim de tarde fatídico em minha casa. Mas certamente não estava preparado para o choque de sua revelação mais aterrorizante, surpreendente e quase inverossímel: sua verdadeira identidade. Ela me tratara com ervas do campo e quando olhei a minha volta vi três caldeiras fumegantes ao redor de um acolchoado de pele de leão, cogumelos em tons de rosa e algumas poções que não pude reconhecer, mas que cheiravam à papoulas. O cheiro era pungente e acre e causou-me tontura e dor de cabeça quando tentei me levantar. A mulher me acundiu antes da queda e olhando-a de perto sua beleza me atingira novamente, agora como algo inexplicável. Disse-me que as hortaliças me seviriam para cicatrizar as feridas no pescoço e até que meu ferimento não estivesse a salvo, não poderia falar. Tentar só prejudicaria minha recuperação. Numa lareira, desfocada pela visão embaçada e pelas fumaças sobre minha cabeça, jaziam pequenas chamas dançantes e, pouco a frente delas, um galgo selvagem que me olhava com olhos negros estáticos, a cabeça junto ao chão num silêncio eloqüente. Percebi que o animal respirava no mesmo ritmo inerte das chamas e que seus pêlos grossos deviam-lhe ser vitais naquele frio. Em seguida, caí num sono profundo, assim como diversas vezes nos dias seguintes, paciente que era das folhas medicinais da mulher; algo que certamente lhe complicaria a situação caso fosse descoberta pela igreja, uma vez que tais práticais curativas eram prontamente condenadas pela inquisição como atos de bruxaria e apego ao maligno.

Com um grande esforço, somente após o quarto ou quinto dia pudemos conversar e suas revelações acerca de sua identidade, como já disse, me abalaram e surpreenderam profundamente.