Aurora (VI)

Durante os primeiros dias de nossa empresa através de caminhos e trilhas vicinais que nos colocaram diante dos olhos tão novas e belas e estranhas culturas de povoados desconhecidos e exilados, pude perceber que a aparente calma da mulher era controlada para demonstrar distanciamento da realidade, senso de justiça e uma áspera dignidade nos modos

VI

– Regiões de enriquecimento. Mas para quem?

Durante os primeiros dias de nossa empresa através de caminhos e trilhas vicinais que nos colocaram diante dos olhos tão novas e belas e estranhas culturas de povoados desconhecidos e exilados, pude perceber que a aparente calma da mulher era controlada para demonstrar distanciamento da realidade, senso de justiça e uma áspera dignidade nos modos; e sua beleza, embora já não contasse com as vicissitudes de sua juventude, se esvaía entre seus olhares reluzentes como o cobre que me transmitiam uma mescla de caridade e esperança e toda uma multiplicidade de impressões. Nunca me detive em memórias e análises de gestos e expressões físicas, uma vez que somos todos pó e ao pó, conforme o santo desígnio, voltaremos todos para que apenas a essência permaneça, resoluta e atemporal, como uma luz de certeza a habitar o mais alto e indecifrável dos firmamentos.

Não teria sentido algum se aqui eu descrevesse maneirismos dos passantes de minha história, mas como toda obra, também a minha tem seu tempo, seu espaço e sua face; e esta não teria sentido sem que ao menos tentasse retratar aquela mulher, seus sorrisos entrecortados por um ar de fábula e ao mesmo tempo tão reais que verdadeiramente me causaram comoção. Certamente aquela sua calma enganosa era apenas uma das conseqüências de sua solidão, o que lhe revestia agora, moldado durante anos a fio, de um aspecto ausente, melancólico e paradoxalmente bondoso, em alguns momentos compenetrado, mas na maioria das vezes até mesmo a maneira como pronunciava suas palavras demonstrava seu sofrimento de alguma forma apaziguado pelo tempo, resultando numa quietude que parecia fazer espuma, tamanho impacto que aquela sua imagem me causara enquanto decidíamos quais caminhos seguir.

Chegamos a cogitar a possibilidade de descer pelas terras vermelhas e afluentes de águas escuras que nos levariam de Lyon até Marselha, seguindo o curso do rio Ródano através dos Alpes, mas a idéia de descer ao sul Francês nos foi prontamente descartada, uma vez que o francês Clemente V havia, em 1305, transferido a sede de seu papado para Avignon, justamente na Provença-Côte D`azur que nos daria acesso ao norte italiano. As delegações eclesiais, desde então, passaram a exercer uma forte perseguição aos vagantes por aquelas regiões e até mesmo as facções religiosas de menor influência, como os minoritas que pregavam a mendicância dos monges, defendida por São Francisco de Assis, não encontravam ali uma área que fosse comum a todos. Desta feita, a mulher me dissera que avançaríamos rumo a Besançon, passando pelo centro do Franco-Condado, descansaríamos perto do lago de Genebra e, da Suíça, romperíamos a fronteira com a Lombardia, já em terras do norte da Itália. Aquelas terras, as do norte, sempre foram motivo de estranhas especulações por parte do restante italiano; até mesmo o glorioso Frederico II de Hohenstaufen, o grande imperador, ao herdar o Sacro-Império-Romano de seu pai e a Sicília juntamente com o sul da Itália, de sua mãe normana, fracassara ao tentar impor sua autoridade às comunas dos nortistas, há mais de um século destes dias. O poeta Francesco Petrarca, embora Toscano e, de certa forma, centro-sulista no que convinha as suas idéias, fora cruelmente perseguido pelas investidas papais, anos mais tarde, já por volta de 1360, pela publicação, realizada no norte, de seus versos dedicados a Laura. Sob os veios artísticos que lhe deram a vida, Laura representara o amor idealizado e, no que diz respeito até mesmo ao consenso artístico geral, os propósitos do poeta Francesco somente era enriquecer o pensamento e a consciência humana, objetivos que exerceram grande influência para a construção da poesia européia, anos a fio, e que servira de embasamento para os ideais renascentistas, tão contraditórios quando debatidos pelos afluentes de pensamento cristão-ortodoxo; e então sua musa Laura, a brisa mais moderada e o mais puro amor, se tornou, para os cristãos, a perdição demoníaca, a luxúria desmensurada, a meretriz idealizada, a corrupção da carne, o pecado humano, a calúnia infame, a ironia satírica e a lepra da alma; e chegaram os católicos a colocar fogo em bustos realizados em madeira e pedra em homenagem à musa do poeta, a queimar os exemplares das obras que prenunciavam a Renascença do pensamento humano e a impedir os carregamentos de livros proibidos, por meio da coersão, na cidade de Veneza, embora tais vandalismo tenham sido erroneamente atribuídos aos próprios mercadores que, num surto de eclesiaste, foram movidos pela mão santíssima de suas consciências e a do Senhor, forte, destra e secular os guiara através de socos e pontapés; ou aos cretenses que chegavam ao porto do império ultramarino veneziano e que vagavam provocando saques e motins do Chipre à costa Dálmata.

Até mesmo a grande peste que chegaria a quase miraculosa matança de todo um terço da população italiana fora atribuída aos deliberados maus costumes e à vida desregrada das minorias do norte, tão promíscuas e incultas quanto os caminhos que levavam às profundezas da imbecilidade. Para a Igreja, se qualquer iminente afronta a seu poder pudesse levá-la a mais total derrocada, estava claro que tal propulsão viria, nascida no inferno, através do norte. Nem mesmo o príncipe francês, Charles D`Anjou conseguira assumir o poder nortista e, a convite do papa, impora-se somente no sul e na Sicília, em 1266. Mas na época da viagem, tais fatos e conjecturas históricas não me afligiam, parte devido a minha ignorância e também a meus outros interesses, mas não pude deixar de ficar profundamente impressionado pelo conhecimento histórico e geográfico de minha companheira. Ela parecia conhecer cada povoado, cada costume e os motivos de tais costumes, e nossa viagem, embora em grande parte silenciosa, se tornou para mim um grande aprendizado. Nossa empresa já durava cerca de quatro semanas e encontramos com vagantes de todas as laias: vigarista e traficantes que, incógnitos no meio das trilhas barrentas, levavam miçangas, espelhos, machados, tapetes, plainas, cinzéis, enxós, martelos, rasouras, limas, linha de costura, navalhas, agulhas, verrumas e muito ópio do centro para o leste europeu, muitas vezes papoulas em flores aninhadas em grandes sacos de pano sobre várias comitivas de cavalos, sempre precedidas por arqueiros sagazes e mortais a qualquer ameaça invísivel.

Nós mesmos nos vimos presa de suas miras quase insondáveis feitas no alto das árvores e atrás das pedras deslocadas pelo tempo através dos campos, e quando nos identificavámos, havia uma espécie de fraternidade que os unia a nossa missão, e conseguíamos desta forma os mais variados tipos de drogas, alucinógenos e medicinas alternativas e de grande valor entre aqueles mambembes. Nossas provisões, nestas feitas, em muito aumentaram, e a cada dia sobravam-me apenas as ervas para prover de forças minhas veias que pareciam estalar a cada nova inalação, a cada fumo, a cada ingestão e satisfação de meus novos vícios. E não foram poucos também os maltrapilhos, excluídos e exilados, que vagavam pelo nosso caminho, e alguns leprosos que caminhavam errantes com panos imundos sobre todo o corpo e correntes nos pés, perdidos e expulsos de lugar a lugar, nunca encontrando nada e sobrevivendo de míseras esmolas que lhes eram jogadas de longe, em sacolas sujas e cheias de restos de comida e vestimentas.

“- Sumam daqui, mensageiros do demônio!” – gritavam os homens e atiravam-lhes pedras como se suas condições naturais já não lhes bastassem. Certa feita, enquanto eu ainda acordava, minha companheira se aproximou de um bando destes, fazendo-me um sinal com a mão que a esperasse voltar, e vi aquela mulher em direção dos leprosos, cobertos e aterrorizantes (não menos aterrorizados) e ela lhes passou uma pequena parte de nossas provisões, em mãos, de seu cavalo negro e com um sorriso plácido no rosto enquanto, estarrecidos, aqueles desventurados lhe estendiam os braços trêmulos por debaixo das roupas; e pude ver suas feridas, terríveis e profundas até os ossos que pareciam, a distância, pulsar de dor e sujeira sobre um esqueleto raquítico de aspecto deplorável; e suas vestes estavam úmidas devido à fria chuva que nos precedera, o que lhes delineava ainda mais o corpo anão abaixo dos mantos encardidos que chegavam até seus tornozelos sangrentos, onde as correntes que os unia e lhes foram impostas antes do exílio tilintavam entre seus suplícios de dor entremeados pela fustigante alegria que minha curandeira lhes proporcionara. Para o meu mais cruel desespero, repentinamente o vento aumentou numa rajada e o capuz que ocultava a expressão de um deles foi violentamente jogado para trás de sua cabeça e pudemos ver sua face cadavérica, os olhos já não mais possuíam as pálpebras, dando-lhe olhos eternamente esbugalhados e esbranquiçados, os lábios superiores, corroídos, despencavam até o queixo retraído e, ao redor do maxilar até a orelha despedaçada, podia-se ver o osso branco com pequenos veios de sangue e cascas negras, se perdendo no pescoço pulsante dentro do manto, deixando os dentes podres quase que inteiramente nus. E foi naquele sorriso, obscurecido pelo manto, difícil e aterrorizante aos olhos e inteligências comuns, que vi a expressão mais concreta e verdadeira dos tempos em que vivíamos, o sorriso do povo de Cristo, feito a sua imagem e semelhança; e tal foi o sorriso que me encorajou a continuar a viagem.

O cavalo se alarmou, dando um salto para trás e a maneira como minha acompanhante o dominou me fascinou profundamente, tamanha a habilidade de seus modos, até que ela se distanciasse do bando e voltasse até onde eu e o galgo a esperávamos. Quando retornou, aquele monte de mantos negros e bastardos ainda nos fitava, estático e de longe, e sussurravam algo entre eles com a comida e as ervas que ela lhes passara, olhando dos embrulhos para nós, e novamente para os embrulhos, até que nos acenaram, encurvados que estavam, com suas mãos deformadas que pareciam se perder no vento daquele fim de tarde cinzento. Nem mesmo o mais sábio dos profetas poderia nos dizer em que circunstâncias voltaríamos a nos encontrar com aquele bando de perdidos. “- O ópio lhes causará algum alívio…” – ela me disse enquanto retornávamos ao nosso caminho, alguns esquilos nos observavam no alto de velhas árvores secas. Após quatro luas desfocadas por uma chuva submissa, enfim uma noite de beleza concreta, embebida apenas de sonhos, quase filosófica e me sentia cada vez mais liberto e desejoso de reencontrar meu pai e meu irmão. Obviamente num terreno tão irregular como aquele pelo qual passávamos, não viajámos em linha reta, e nos detivemos em diversos povoados. Acontece que, por um acidente natural (uma rocha nos impedia a passada através de uma ponte) tomamos um caminho incerto. Fomos, num encontro fortuito, a umas das práticas mais fascinantes das culturas dos homens de outrora, até então totalmente desconhecidas por mim.