Aurora (X)

…embora a culpa e a infelicidade fossem minhas, eu as via nela; aqueles eram os seus olhos de sofrimento, eram os seus lábios que não sorriam, de modo que não poderia eu gritar por qualquer ajuda, mas apenas assistir minha alma impenitente, mesquinha, demente e perdida, retratada naquela sua carnalidade inocente, e nada mais.

X

– Chegastes a ti através de caminhos que não conhecestes

Foi imaginando as ordens casuais, contradições e cadeias de relações e tramas palacianas que regem o mundo que comemos, assados pela fogueira de galhos secos que fiz, os peixes daquele singular modo de pesca. “- Oleandro.” – a mulher falou, rompendo o duro silêncio estático a nossa volta. “- O que disse?” – perguntei enquanto esticava uma sardinha até o fogo e vi que as chamas iluminavam seu rosto de modo a exaltar sua beleza perfeita. “- A flor que o mudo cultiva na estufa. Seu nome é oleandro, um tipo de arbusto ornamental que possui sementes aveludadas, folículos duplos e flores hemafroditas. Alguns antigos povos o consideraram tóxico devido a seus efeitos alucinógenos, mas a verdade é que seu odor e suas raízes apenas reduzem o nível de oxigênio em meios líquidos.” “- Mas o que significa…?” – perguntei, lembrando-me dos oleandros róseos, nunca verdes como aqueles, de nossos vales em Pádua. “- Significa que houve uma redução de oxigênio em teu sangue quando Goldoni o convidou a cheirar a planta, eis o motivo das alucinações tardias, o corpo leva tempo para recompor seu nível normal de oxigênio e, em frias estações como estamos, isso acontece ainda de maneira mais lenta.” “- Isso explica também a morte dos peixes. A água, privada de oxigênio, abandona sua vitalidade e…” – e fui interrompido por uma chama que avançou pelo espeto de madeira que segurava junto à fogueira, abanando a fumaça da face. “- Na verdade, caríssimo, o oleandro age diretamente sobre a respiração dos peixes, travando seus músculos, mas deduzistes bem.” “- Por isso podemos comê-los, não há envenenamento. Goldoni, certamente, sabia disso e não viu nenhum perigo em mostrar-me as flores; mas como sabes disso?”

“- É um tipo de pesca tradicional entre ciganos e povos do leste europeu, mas há uma história.” – aproximei-me, e vendo que o silêncio falaria em nome de minha própria curiosidade, ela continuou: “- Segundo os corsos, o oleandro foi o resultado do cruzamento de várias plantas, carnívoras, venenosas e ornamentais, realizadas por um botânico francês e um matemático italiano, Paolo Milanni, morto há um século. Houve um discípulo seu, Vicenzo Locci que…” Assim que ela me disse aquele nome, Locci, uma sensação de forte excitação me tomou o espírito pelas coisas que as ordens do mundo, casuais ou não, me revelavam. Lembrei-me que houve um dia, claro e quente em que, adentrando a pequena oficina de meu pai para levar-lhe um pedaço de pão e água, o vi trabalhando, de costas, sentando numa pequena rocha, à luz de seu lume, com seu martelo escrevendo à pedra a palavra ‘matemático’ sobre o nome ‘Locci’. “- Sim, lembro-me que Goldoni dissera-me: ‘Hipnosys mathemathycas lugaris’, e agora vejo claramente…” – fiz uma pausa que, talvez, ela tenha julgado eterna. “- Vamos… dizes!” – ela exclamou e pela primeira vez a via sem sua calma nauseante ou ar de bondade. “- Lembro-me que meu pai trabalhara durante vários dias na lápide de um matemático italiano, Vicenzo Locci, que somente teve assegurado seu direito a uma digna sepultura após negar suas convicções acerca da inexistência de Deus e aceitar o Salvador como guia, antes da morte por tuberculose. Talvez meu pai esteja na direção do cemitério deste túmulo e o disse a Goldoni, que queria avisar-me… era o único fio solto em nosso colóquio na estufa, hipnosys mathemathycas lugaris!!!” “- Mas Vicenzo Locci não está sepultado em vossas terras, em Pádua, mas no mausoléu de sua família, em Trieste!” – ela exclamou, continuando: “- Seu pai evita voltar a Pádua pelo medo de alguma perseguição, certamente pelos mesmos motivos que levaram Alermano. Mas o que fizeram vocês ao imperador, menino?” – ela se levantou, dando a volta na fogueira. “- Meu pai não sabe.” – respondi, perdendo um pouco a excitação.

“- Não sabe?” – e até mesmo o galgo se aproximou de mim naquele momento, levantando os olhos em minha direção. “- Alermano e eu… três cavaleiros do imperador.” Ela ouviu aquilo como um choque, estática, o vento lhe balançava os longos cabelos; e houve silêncio enquanto um pombo acinzentado pousava a meu lado, interessado nos restos de nossa refeição. “- Junto à morte, acompanha o remorso e vejo agora, uma história secreta.” – seus olhos estavam perdidos no vazio, desfocados e naquela sua expressão de desengano, vi a infelicidade e a culpa que eu mesmo sentia, mas agora personificadas, marcadas por lábios que não sorriam, por olhos estáticos e por um estado de humor que suscitava a doença, a vergonha, a vontade irrefreada da sede de gritar por socorro e compaixão, mas embora a culpa e a infelicidade fossem minhas, eu as via nela; aqueles eram os seus olhos de sofrimento, eram os seus lábios que não sorriam, de modo que não poderia eu gritar por qualquer ajuda, mas apenas assistir minha alma impenitente, mesquinha, demente e perdida, retratada naquela sua carnalidade inocente, e nada mais. Aquela é a justiça que castiga, a consciência que nos permite ver, nos inocentes que nos rodeam, nossas fraquezas mais escondidas, transformadas em realidade pelo significado da ausência da expressão, restando, estranho tabernáculo desta misteriosa obscuridade, o enunciado de nossos próprios sentimentos, suas verdadeiras utilidades e inutilidades, suas verdades e suas mentiras que são nada mais que o espírito a procura de liberdade. E concluo hoje, triste: eis a importância das artes! Retratando o mundo, vemos nas obras as senhas de ouro que nos permitem conhecer a nós mesmos; e não haveria obra mais prima que a alma inocente de minha curandeira, ela mesma se tornou, naquela noite, um retrato que não cria sentimentos, mas expõe através de membros, troncos, olhos e lábios a civilização de nossos próprios anseios. E, como o fez no momento mais insondável, foi querendo perder minhas inquietações que juntei com os olhos as partes de minha miserável amargura, tão concreta na inexpressão daquela mulher. “- Vamos caríssimo, temos que encontrar o túmulo de Vicenzo Locci.” – ela voltou a si e intemporalmente deduzi que minhas digressões a respeito da arte de sua figura humana não duraram, assim como o silêncio, mais do que um segundo.

O matemático Vicenzo, ao negar suas convicções, anseios, vícios e propensões heréticas despistara a inquisição como um coelho, uma raposa. Discípulo de práticas ciganas, colecionador de pedras e obras preciosas, botânico e cientista, criara para si, como vim a saber com o passar de minha vida, uma obscura história, marcada por uma trajetória incerta, até mesmo ignota para alguns, mas, de certo, muito misteriosa. Embora milanês, crescera nos condados alemães, recebera esmerada educação clássica na França e perdera-se pelo mundo após a morte paterna. Nunca conhecera sua mãe (e nisso a ele me solidarizo) e algumas biografias e relatos de amigos o capturaram numa melancólica velhice, entregando-se à escrita de diversos livros de cálculo astrológico, de invenções à base de pólvora, de costumes ciganos, de partituras in-octavo clássicas, de determinações longitudinais daquilo que nomeou de ‘o zênite austral’, perecendo tuberculoso quando, escritor fracassado que se tornou, resolvera enveredar-se a aprender as técnicas quimorânticas orientais e os segredos dos búzios. Vicenzo, verdadeiramente, na busca da maturidade intelectual de seu tempo, incorporara somente suas vertentes mais temerárias a um bom cristão, tornando-se através dos anos e da história, vários Vicenzo Locci, e ao mesmo tempo, nenhum. Apesar de sua perseguição eclesial não o ter levado às vias inquisitivas, seu túmulo, cuja lápide realizara meu pai, se tornara ponto de visita da mais estranha laia de intelectuais da alma, oniromancistas, pampsiquistas, cartomantes, videntes que previam o futuro através do vôo dos pássaros e escritores mediúnicos. Foi em meio a tais companias que, deduzira, meu pai se encontraria a salvo de uma perseguição individual mais acirrada e, desta forma, encontraria meios de chegar a Pádua longe dos olhos do imperador. Dentro de pouco, descobrimos o caminho do mausoléu da família Locci (que embora natural de Milão, localizava-se em Trieste) e encontramos mais do que pude acreditar.