Aurora (XII)

Há hábitos que desenvolvemos, como o de parar de repente e escutar a nós mesmos, que só passaram a existir depois deles. Prestas atenção, minha cara, na literatura anterior, em forma de verso, prosa ou teatro. Tú simplesmente não encontras monólogos interiores como os que vemos nos personagens bíblicos. Aquilo que gostamos de chamar de nossas “emoções” surgiram pela primeira vez como pensamentos de Evangelhos.

XII

– Encontrarás a saída do sótão?

Continuamos três dias ainda sós, caminhando por planaltos semi-alagados de vegetação rasteira até encontrarmos a caravana, avistando um pequeno grupo de cinco, seis pessoas que surgiram numa área aberta a nossa frente. Atrás deles, o restante era denso e equipado: cavalos, muito deles, todos alinhados em bando enquanto uma melodia uníssona podia ser entreouvida como o mais belo dos louvores, e nos aproximamos dizendo algumas palavras para atrair-lhes a atenção. Percebi que mulheres e homens dividiam-se em coros para entoar aqueles versos, cantados em latim por lábios nunca reticentes, mas tão fervorosos e unívocos quanto um coro de anjos caídos, cegos e sedentos por redenção. Não obtendo resposta, permanecemos parados ao lado da caravana que rumava em lenta procissão para o túmulo de Locci, e pude ver em cestos de palha e amarrados em bandanas puídas, ou ainda em pequenos estandartes fixados junto às selas dos cavalos, margeados por bordas que impediam a queda dos objetos durante o galope, um verdadeira coleção erudita de estranhezas: peles de leão secas ao sol, lagartos empalhados, dentes de baleia, caroços de frutas de perdida identidade, pedras de várias cores, fragmentos de seixos marinhos e corais azulados, insetos alfinetados em pedaços de madeira envernizada, barris de aguardente, um enorme mosquito encasulado por uma aranha peluda, eternamente imóveis e cristalizados numa peça de âmbar retangular, vidros repletos de líquidos coloridos onde flutuavam serpentes e enguias, chifres de rinoceronte e a cabeça de um marsupial encarapitada na extremidade de uma espada dourada, abainada na lateral de um corcel branco com os membros inferiores e o focinho sujos de barro.

Deduzi, por fim, que meu pai estava certo. Entre aquelas singulares companhias, até mesmo o mais procurado dos infiéis poderia permanecer oculto, e não seria difícil de presumir que quaisquer frentes do imperador tratariam a caravana com vistas grossas, uma vez que Vicenzo Locci, motivo único da existência daquela peregrinação, era tido pela igreja como um intelectual comum, nunca fora sequer escomungado e, ao receber sua lápide como forma de perdão eclesial, não poderia motivar qualquer perseguição àqueles que seu túmulo haviam de visitar. Obviamente, com todo o tempo que estava a nossa frente, meu pai não se encontrava naquele grupo específico; talvez tivesse caminhado com o grupo anterior, ou juntamente ainda com o outro que os precedera, mas sua mensagem decifrada era clara: mover-se a procura de Alermano, um preso do imperador (embora a possibilidade de sua morte ainda pairasse como um corvo negro sobre nossas cabeças), não era tarefa fácil de se realizar incógnito. Buscara, então, a camuflagem perfeita entre os devotos de Locci e talvez já se encontrasse a espera no mausoléu, em Trieste, não muitos dias distante de Pádua, local onde Alermano fora visto pela última vez, em nossa casa. E o fato de meu pai realizar tal empresa (sem ao menos saber o motivo pelo qual o imperador nos procurara naquele dia) o tornava ainda, mais que abnegado, um bendito verdadeiro. Fizemos, então, contato com um velha senhora.

Era uma das últimas da procissão e logo pudemos ver, pelos olhos esbranquiçados como sua pele, que era cega. Com seu vestido negro e liso, concedia à atmosfera um som triste, uma melancólica melodia que dava a impressão de estar vagando pelo ar ebúrneo, as notas nascendo e morrendo do pífaro que tocava com os olhos esbugalhados no vazio. Mais tarde, quando sua música cessou, nos aproximamos dela, e ela nos agradeceu os elogios pela sua prática com aquele instrumento. Disse que aprendera tocar ainda menina e, cega de nascença, entretinha-se em cada entardecer de sua mocidade a praticar aquelas notas, como se as visse e sentisse com a pele. Mais tarde, já adulta, tornara-se a senhora dos sinos numa catedral e tocava aos monges e cardeais sua música nos momentos das refeições, nas viagens aos monastérios, durante execuções das penas da inquisição, fazendo suas suaves notas permearem o gritos de dor alucinada dos que queimavam nas cinzas. Conhecia várias melodias e de cada uma elaborava duas, três, cinco, dez variações sempre mais complexas e explicou-nos que seu instrumento era como uma coisa viva, que reagia com a interação dos ouvintes, com as mudanças do clima, estações e temperaturas, de modo que sua madeira pudera-se adequar, através dos anos, com perfeição à evolução dos tempos e que assim, cada vez mais doce, seu som permaneceria por toda sua vida. Foi junto a esta senhora que permanecemos durante boa parte da viagem, e através dela pudemos nos inteirar com o restante do grupo. Havia um vidreiro que executava vitrais sem imagens, tarefa, segundo ele, destinada a seu amigo pintor; e havia também um naturalista, responsável pelos insetos alfinetados que vi no lombo de um cavalo, que nos falava do poder das ervas e plantas medicinais e da destreza com que a aguda intelectualidade de Locci o influenciara durante toda a vida.

E havia também um religioso barbudo que vestia uma túnica monasterial, exilado como louco (confidenciara-nos o vidreiro) e que, carregando um velha encadernação do velho testamento com dobraduras douradas, pregava aos sussurros a salvação do mundo. Foi um dos mais receptivos, talvez por ser também, o mais solitário e, ao que me pareceu, falava com uma lucidez imprópria para um louco, o que me levou a levantar suspeitas sobre a sanidade do vidreiro. Atrevi-me a interrompê-los em suas digressões e perguntei-lhe, tímido: “- Por que levas esta Bíblia, senhor?” – e ele me virou o rosto tão rapidamente que pensei que ele assustara-se com minha presença intrusiva e impertinente. “- Porque, sem dúvida, é a maior das obras-primas!” – disse, e continuou, percebendo meu silêncio curioso: “- O texto original do que hoje chamamos de Gênesis, Êxodo e Números é trabalho de um narrador magnífico, certamente um dos maiores contadores de história do mundo ocidental. Aliás, em O Livro de Jó, observo que o autor desses textos foi uma mulher que viveu 3.000 anos atrás, na corte do rei Salomão, um lugar de alta cultura, ceticismo e muita sofisticação psicológica. Pense em figuras como José, Jacó e Jeová, meu caro pequeno… são todos personagens maravilhosos! E os efeitos poéticos do texto são extraordinários, comparáveis a Píndaro. Os profetas Isaías, Jeremias e Ezequiel também eram grandes escritores, assim como os autores do Evangelho de Marcos e do Livro de Jó. A Bíblia é uma vasta antologia da literatura de toda uma cultura.” “- Então te interessas pela vasta obra literária que a constitui, e não pelo seu aspecto religioso.” – comentei enquanto o velho alizava a barba com a mão direita, segurando a Bíblia junto ao peito com a esquerda. “- Considero as tradições religiosas como produto de uma época  e a criação do universo como uma grande separação, o criador distanciando-se irremediavelmente de suas criaturas. Até imagino algo parecido com um deus de verdade. Mas ele, ou ela, certamente não pode nos ouvir. Se as preces do homem são uma doença da vontade, então seus credos são uma doença do intelecto.” “- Mas, então, por que ler a Blíblia, se não passa de todo um culto a uma doença do intelecto?” – a questão fora feita por minha curandeira que, atrás de mim, escutava nosso colóquio. O velho se assutou novamente, agora com a intrusão dela, e lhe destinou um olhar indecifrável, no que lhe respondeu: “- Grande parte do que hoje consideramos uma personalidade humana foi invenção dos textos bíblicos. Há hábitos que desenvolvemos, como o de parar de repente e escutar a nós mesmos, que só passaram a existir depois deles. Prestas atenção, minha cara, na literatura anterior, em forma de verso, prosa ou teatro. Tú simplesmente não encontras monólogos interiores como os que vemos nos personagens bíblicos. Aquilo que gostamos de chamar de nossas “emoções” surgiram pela primeira vez como pensamentos de Evangelhos. Neles, mais do que em qualquer outros escritores, parece que os personagens não viveram numa determinada época. É como se existissem desde sempre. Assistir a uma peça Bíblica na China, em termos de identificação do público com o que se passa no palco, não é muito diferente de assistí-la nestes planaltos, ou na Alemanha, ou Inglaterra, ou onde quer que seja. Vês agora sua importância?”

Minha companheira costumava se sair bem quando confrontada com suas próprias digressões, mas as alheias, percebi naquele momento, a confundiam. E a expresão de irremediável satisfação no rosto do velho logo prenunciou a continuação de seu discurso. Ele abriu, então, a Bíblia e numa de suas primeiras páginas, leu em voz intrépida: “- No princípio era o Verbo, e o Verbo era Deus. O que isso te diz, minha cara?” “- Que é dever do bom cristão dar testemunho da verdade, e do bem.” – ela respondeu olhando-me com o canto dos olhos, condenando a expressão humilde e irônica de seu interlocutor, no que ele interveio, olhando para o céu: “- Significa que somente o verbo, a palavra pode dar a vida. Somos, assim, meros personagens de algum escritor divino que, insatisfeito com o rumo de sua história, desfaz-se de uns, cria outros conforme a perícia de sua imaginação…” – ele então baixou os olhos novamente sobre nós e finalizou, antes de silenciar-se de todo: “- Eu já enfrentei a escuridão, meu caros, beijei musas lá dentro e posso dizer-vos: antes da fé, da verdade, antes da cobiça e do medo, concentram-se ao nosso redor algumas mentiras e digo-lhes que é melhor não conhecê-las.” Pelo que pude apurar entre os transeuntes, nossa viagem ao túmulo de Locci levaria ainda alguns dias. O tempo esfriara consideravelmente às noites, no que tínhamos que aquecer todo grupo com enormes fogueiras de chamas dançantes e sombras fantasmáticas. Embora o crepúsculo dos céus se anunciasse sobre nossas cabeças, as constelações à noite, organizadas e compridas, mas sem medida; e as nuvens brumosas, cintilantes, densas e inatingíveis sob o sol durante o dia, até mesmo a claridade e o silêncio eram opressores e a atmosfera que envolvia a caravana, percebi, era pavorosamente pesada, fonte de soturnos sentimentos que se esgueiravam procurando algum recanto escuro dentro do meu corpo, depois de me espetarem as retinas, impressionados com o que viam. Tudo parecia novo, mas não havia excitação ao pensar que não conseguiria ver tudo até chegarmos ao fim da viagem.

Foi algo somente comparado a uma criança que penetra num sótão escuro de um casarão antigo, de construção desigual. A cada passo apresentam-se caixas, velharias, livros, obras de arte, roupas esquecidas e velhas, feixes de lenha, garrafas vazias e coloridas, alguns móveis empoeirados e instáveis… A criança vai caminhando, demora-se para descobrir algum tesouro, entra num corredor escuro e imagina alguma presença alarmante e terrível; acaba por adiar a busca ao sentir medo, e toda vez que volta a pesquisar, movida pela curiosidade, ela avança um pouco mais a pequenos passos, de um lado temendo adentrar demasiadamente, do outro quase pregustando futuras descobertas, oprimindo as emoções; e aquele sótão abandonado e escuro jamais termina e pode reservar-lhe novos encantos e recantos para toda sua infância, como se a criança nunca achasse a saída. Os ruídos, os meandros, novamente o silêncio… tudo faz o espaço dilatar-se e o que antes era apenas um sótão escuro, pode-se tornar um local eternamente hostil, com infinitas portas. Naqueles dias, a criança era eu e o sótão, a peregrinação da qual tomei parte.