Aurora (XIV)

Excesso de arrojos, abóboda celeste, agulhas e lanças anguladas, àquela hora da tarde, pareciam conspirar num mudo discurso entre pedras historiadas e sacras, fulgurando meu olhar como se pudesse ler (porque imagens são como literatura) suas mensagens e segredos, mergulhando-me numa sala da qual nem hoje nem nunca me esquecerei, mas custo a dizer tamanha a qualidade de seus detalhes, ainda que obscuros dentro daquelas ruínas silenciosas.

XIV

– És os versos de tua juventude

Lembrando destes versos, me florescem agora as mais confusas sugestões através de uma série de pensamentos em que se torna manifesta uma opinião que tenho e guardo não apenas devido a sua força, mas também a sua evidente tenacidade: De tudo que houve escrito a meu alcance, de todos os livros (os livros que durante todos meus anos construíram uma parte tão pequena de minha lucidez), são destes pequenos versos do “Vernáculo” (que somente uma vez li em minha juventude) que retiro algum entendimento claro e satisfação, livre das precauções inofensivas, sinistras e insólitas que me rodeiam até hoje. Certamente por isso não me assustei quando ouvi, no piso superior daquelas ruínas, o ruído de uma porta de ferro maciço, movendo-se vagarosamente sobre seu peso, produzindo um som agudo e áspero ao caminhar em seus gonzos. Depois daquele ruído se dissipar por completo, o silêncio tornou-se ainda mais eloqüente e repleto de ares de terror e pensei se poderia atribuí-los a minha própria imaginação negligente, a meras e inexplicáveis fantasias produzidas pela loucura, pela superstição, pelo sono, mas, de repente, novamente o mesmo ruído rastejante cortou a nave principal da igreja. Não poderia deixar de citar a semelhança daquela situação com a criada por Eloy Flud, escritor dinamarquês, em seu raro e curioso livro gótico inquarto (o manual de uma igreja abandonada) intitulado Vigiliae Mortuorum Secundum Chorum Ecclesiae Maguntinae. Nesta obra, Flud revela uma rara construção abacial onde monges desapareciam, local de estranhos rituais que fora vítima de uma incêndio inexplicável que ardeu durante sete dias e sete noites, fazendo com que a igreja desaparecesse abruptamente, restanto nenhum tijolo, mas somente uma porta de ferro maciço que fechava uma única sala que nunca alguém ousou abrir, até que desaparecesse com os anos, soterrada por um desabamento inesperado. Segui a direção que julguei ser a origem daqueles sons.

A velha igreja não era majestosa como as que veria, anos mais tarde, em Avignon, Marselha, Nantes, Rouen e em Paris. Seguia o estilo das construções do norte italiano, arcadas elevando-se até os céus resolutamente através dos portais externos e internos e colunas fortemente plantadas através das vigas, como se chegassem até o inferno, feitas em pura rocha ordenada em ameias semi-circulares, chegando robustamente até as múltiplas janelas, enormes e arrojadas em batentes de carvalho antigo que atingiam os limites da abóbada repleta de afrescos santos. Sobre este andar, percebi, se erguia o piso superior de onde vinham os ruídos, agora já inexistentes. Segui através de duas colunas retas e lisas que morriam num único grande arco e que conduzia os olhos à penumbra de um lustre majestosamente sinistro, inerte, de onde pendiam enormes teias de aranha, circundado pela imagem de doze arqueiros montados em doze leões que tinham o tronco voltado para o lustre, mas as cabeças voltadas para a direção oposta. Apenas o décimo terceiro leão não estava montado, esculpido entre as duas colunas, olhando de soslaio eternamente para os que, como eu naquele momento, passavam pela abertura do portal margeado de pilares e pilastras esculpidas.

Com os olhos já habituados à penumbra, caminhei até a extremidade esquerda de uma grande escada bifurcada que levava, vi debaixo, à porta de ferro de onde supus que os barulhos nasciam. Uma fraca lâmina de sol brotava pelo vão da porta, vinda de dentro e morrendo friamente nos degraus centrais da escada. Excesso de arrojos, abóboda celeste, agulhas e lanças anguladas, àquela hora da tarde, pareciam conspirar num mudo discurso entre pedras historiadas e sacras, fulgurando meu olhar como se pudesse ler (porque imagens são como literatura) suas mensagens e segredos, mergulhando-me numa sala da qual nem hoje nem nunca me esquecerei, mas custo a dizer tamanha a qualidade de seus detalhes, ainda que obscuros dentro daquelas ruínas silenciosas. À frente da porta, havia uma enorme janela que, embora muito castigada pelo tempo, apresentava um vidro virginal, sem as rachaduras ou as quebras das demais janelas menores que a circundava. Frontalmente a ela, e de costas para mim, percebi um sofá esverdeado, parte pela sua cor original, parte pelos musgos que floresciam com a umidade excessiva que se abrigava nas inúmeras goteiras ao longo do mofo quase silvestre das paredes. Havia, sentado numa das extremidades do sofá, um homem e confesso que a mais lascinante e violenta vertigem de terror me atingiu, a ponto de não saber o que poderia fazer ou dizer, a não ser observar o cenário como um todo. Os cantos da sala abrigavam vasos alongados de alguma cerâmica árabe, impróprios para uma igreja e, portanto, provavelmente levados para lá após seu abandono. Quadros com molduras góticas se confundiam com os musgos nas paredes, e havia a imagem do nascimento de Cristo, na manjedoura com a estrela de Davi sobre três reis magos, uma pintura retratando seu batismo e, numa outra parede, uma enorme obra de arte com uma das cenas do apocalipse, onde uma mulher vestida de azul com doze estrelas sobre a cabeça era engolida por uma besta de olhos dardejantes.

“- Venha até aqui, pequeno.” – me disse o homem, e percebi que sua voz era familiar. “- Como sabes quem sou?” – perguntei, imóvel. “- Te vi lá embaixo enquanto subia. Sente-se ao meu lado.” Aquele era o velho de nossa peregrinação. Quando avancei, o reconheci pela expressão desenganada e pelos trajes monasteriais, além da grande Bíblia que sempre levava consigo, aninhada no centro do sofá corroído pelo tempo. Seu rosto era severo e impassível, a face iluminada pela luz da janela para onde olhava com os olhos escancarados, como se a humanidade que se desenhava atrás daquele vidro já perecesse com o fim de suas vicissitudes. “- O que fazes aqui? Conheces este lugar?” – perguntei, ainda de pé, ao lado do sofá. “- Se conheço este lugar? Ora, pequeno,” e aqui sua expressão voltou àquilo que mais se aproximaria do normal, “vivi neste mosteiro por um longo tempo, antes mesmo de teu pai e tua mãe se conhecerem”. Percebendo meu silêncio estático, ele se levantou com dificuldade, caminhou até a janela com os braços cruzados nas costas e continuou: ” Há quinze anos, este prédio abrigava a casa mais simples e mais digna de Deus, pequeno, mas o demônio a transformou nisto que agora vemos, um depósito de poeira e histórias perdidas.” “- O que aconteceu, eras um monge daqui?”

“- Eu era o bibliotecário. Contávamos com um verdadeiro tesouro escrito, meu caro pequeno. Não imaginas o conhecimento que estes muros já guardaram em seu ventre, mas os libertinos levaram tudo com seus corpos e membros tomados pelo maligno.” “- Quem são os libertinos?” “- Partidos nascidos dentro da própria igreja que pregam a mendicância dos monges e que condenam o que consideram a ostentação mundana. Seguem os conselhos e as profanas pregações de um louco que escrevia na areia e falava com os pássaros, Francisco de Assis. Nós, a igreja de outrem, de hoje e sempre” e aqui seus olhos ganharam vida ” somos a personificação de tal ostentação para eles, éramos nós o próprio maligno.” “- Então a igreja combate com a própria igreja?” “- A Verdadeira Igreja combate a falsa igreja e nesta guerra, perde alguns combates.” “- Mas o que querem os libertinos?” – perguntei, agora mais curioso que amedrontado. “- Querem a diabólica transfiguração da sagrada escritura! Querem o dia em que padres pedirão esmolas de porta em porta, como se tal baixaria significasse virtude! No entanto, não percebem que ao fazê-lo transformam o povo santo de Deus numa corja de monstros arrotados dos confins da terra e de seus abismos desconhecidos! Perde-se a severidade da Divina Lei Sagrada com esta mendicância que prega Assis! Óh epifania dos tempos! Que Deus proteja nosso Santo Padre Clemente!” – ele agora gritava, gesticulando através do ar poeirento; e senti compaixão pela dignidade da idéia que defendia, até que lhe perguntei: “- Mas por que achas que o papa Clemente corre perigo?” “- Por que os libertinos querem matá-lo, pensam que o substituirão por uma papa tão profano quanto eles próprios e assim assumir o controle da igreja.” Ele respondeu e fechando a expressão novamente, me pegou pela mão: ” Vamos, pequeno, a carana irá partir e vai sem nós se não nos apressarmos. Este lugar me tráz tanto boas quanto más recordações e se o saldo é nulo, não temos porquê estender a visita”.

Ao sairmos, percebi que talvez por imaginar aquela conspiração palaciana, todos considerassem o velho monge como um louco. O papa Clemente, embora herético, procurava reabsorver uma ou outra necessidade que pudesse trazer à tona a fragilidade interna da própria igreja, mas é claro, o fazia nos moldes e nas instituições de sua ordem e querendo, desta forma, aquilo que naturalmente sua própria ordem não queria, se tornava um papa sem unanimidades, já que desagradava a todos ao não conseguir agradar a todos. Não foram poucos os consensos realizados entre as facções religiosas a fim de diminuir os tormentos causados pelos embates de extremistas, não foram poucos os discursos de teólogos imperiais que versaram a respeito de moderação e acordos entre minorias e maiorias, nunca muito diferindo em conteúdo, tal foi a magia destes discursos humanos que, por humano acordo, significavam frequentemente, através de sons iguais, coisas diferentes. Por fim, pouco destas articulações foram úteis, serviram basicamente para se ganhar tempo de paz, mas também tempo de guerra entre franciscanos (os chamados libertinos), dulcinianos e demais ordens. Mais tarde, vim a saber das mortes nunca explicadas de papas anteriores a Clemente. Bonifácio VIII, Thiago III… e mais alguns outros, todos foram mortos em circunstâncias obscuras e nunca bem explicadas, a ponto de nunca encontrarem o corpo de Ubertino de Casale, visto pela última vez em Roma e que, com seu sumiço repentino, fizera com que os conclaves elegessem um novo papa, Girolamo de Costaferrata, em dois dias. Como eram e ainda são poucos os que sabiam destes embates, o velho monge que me fazia companhia era considerado como louco ao proclamar livremente suas idéias a estes respeitos e mal sabia eu que seriam exatamente tais enclaves que me libertariam do futuro claustro e me levariam a reencontrar meu pai e Alermano. Verdadeiramente e como qualquer pagão pecador, o santo papa Clemente estava com os dias contados.