Aurora (XV)

Saboreávamos, todavia, as belezas da noite, quando, na chuva, tudo parecia repousar e purificar-se; moviam-se as estrelas mais silenciosamente que a própria lua e acreditei ser a única pessoa, naquele instante em toda a natureza, propensa a bendizer uma noite tão sombria.

XV

– Vives na trágica época de esculturas seguras por mãos divinas

Percebi, enquanto saíamos da igreja e retratado sobre o arco do portal principal, uma escultura que a princípio me parecera mais nobre que as demais. Estava não fixada à parede, mas apenas equilibrada sobre os beirais que coroavam a entrada e devo dizer que, àquela luz, parecia ter caído do pequeno auditório que havia junto à abóboda central e que ficava frontalmente ao altar cujos restos se amontoavam atrás de nós. Apertando os olhos entre a escuridão da noite que avançava, pude ver que parte do beiral do auditório estava em ruínas, e as pedras no chão confirmaram-me a hipótese de que a escultura caíra mesmo do auditório, por algum descuido e ficara encarapitada sobre o portal durante muito tempo, a se julgar pelas teias de aranha que a encasulavam no silêncio.

Não possuía grandes proporções se comparada ao tamanho das arcadas que lhe serviam de berço, mas a riqueza de seus detalhes e de suas figuras certamente fora obra de um esplêndido artista miniaturista e no ângulo que se encontravam, pude percebê-los, atônito que fiquei, perfeitamente estáticos, como se minha surpresa e comoção, em meu silêncio, gritassem por suas próprias danações: havia um uniforme caldeirão, em primeiro plano, largo e liso que nascia entre chamas que flamejavam estática e desordenadamente e, ao redor, entrelaçada ao corpo das chamas, dançava uma enorme serpente de olhos finos esculpidos em V que estranhamente parecia sorrir, sua língua bifurcada tocando com um das pontas o misterioso conteúdo do caldeirão e a outra, a mão direita estendida de um assentado que jazia num trono coberto de esmeraldas, em segundo plano e atrás do animal. O rosto era de um homem velho, com majestosos cabelos e barbas longas que se uniam a frente de seu peito e que se partiam em diversos feixes simétricos como afluentes de um rio imaginário. As esmeraldas que coroavam o trono eram ricas em esmaltes e gemas, e as vestimentas do homem eram cinzas como a pedra, sem pintura, e se dobravam perfeitamente sobre seus joelhos ossudos, dando visão a suas pernas abraçadas pela cauda da serpente. A mão esquerda, com anéis cor de prata e ouro, permanecia estendida em posição de juramento, em atitude não sei se bendizente ou ameaçadora. Sob o arco de esmeraldas havia um nimbo cruciforme e florido, as mais diversas cores retratando aquele pequeno jardim e, ao redor, três terríveis animais, disformes; e seguravam com suas possantes garras e com grandes asas abertas um único grande livro que me pareceu a sagrada escritura. Aliás, não poderia dizer que aqueles animais eram terríveis, pois belos e dóceis pareciam ao homem, mesmo com seus bicos dilatados, suas penas eriçadas, seus flancos palpitantes, suas caldas retorcidas, suas cabeças em ímpeto feroz, suas asas frenéticas, seus olhos malgrando suas próprias aparências formidáveis e suas línguas como pontas de fogo, como criaturas do inferno, como adornos do tímpano da igreja, invisíveis na escuridão, mas atentas com seus olhos de cristal a julgar vivos e mortos. Ao redor do trono e sob os animais, alinhados primeiramente de três em três, depois aos cinco e por último de sete em sete, havia a mais diversa seleção de animais terrestres e marinhos que pareciam cantar os louvores do livro que fitavam, de modo que todas suas pupilas esmeraldinas e de rubis fitassem um único ponto, o centro do livro fechado, com suas posturas afetadas porém graciosas, como se esperassem a revelação de um grande milagre exaltado pelos seus olhares de entusiasmo e de perene deleite e louvação.

E sob os pés destes animais, em espessura mínima, mas perfeitamente visíveis, dispostos em filas simétricas e mutuamente proporcionais, iguais na variedade e variados na unidade, únicos na diversidade e diversos em seus detalhes, em admirável congruência de partes e em deleitável suavidade de tintas, milagre de consonância e concórdia de vozes dissímiles entre si, conexão disposta igual às cordas da lira, conspirantes, profundos e unívocos no próprio jogo alternado dos adornos, resultado de amorosa conexão regida pela regra celestial e mundana ao mesmo tempo num único vínculo de estável nexo de paz, amor, virtude, regime, poder, ordem, origem, vida, luz, esplendor, aparência e figura, sob uma resplandecente qualidade a reluzir em cada parte harmoniosa de suas matérias, havia, num elevado concerto de belezas, a figura dos doze apóstolos, cada um prestes a explodir num cântico de louvor e alegria dentro de um ritmo sobrenatural e harmonioso que cortaria cada pilastra que sustinha a velha igreja e que traria até mesmo à mais diabólica das criaturas a purificação corporal, simbólica, resplandecente, salvadora, promitente, definitiva, cândida, suntuosa e milagrosa. Por fim, a escultura terminava, juntamente com os apóstolos, com três casais de leões entrelaçados em cruz transversalmente disposta, rompantes como as arcadas, fincando as patas posteriores junto ao caldeirão e as anteriores no dorso de seus companheiros, as bocas abertas em rugido ameaçador em simbólica alusão para acalmar os espíritos desgraçados e condenados. Começara a chover e um clarão trovejante iluminou o conjunto daquela obra de uma só vez, gravando como que a fogo sua imagem em meu nervo ótico, polimorfa e enigmática e no entanto, inesquecível.

Tremi como que banhado por uma chuva gélida de inverno e, perdido que também estava naquela contemplação, o velho monge, percebendo meu estado, denunciou a origem da escultura: “- Contrabando. Vejo agora que a velha igreja hoje serve de depósito de obras contrabandeadas pela Europa. A escultura deve ter caído dos beirais logo acima e ficou presa, como que segura pela mão de Deus, como se as arcadas do portal fossem Seus próprios dedos, Seus olhos ocultos na escuridão do auditório abandonado e Sua boca o próprio portal, com a chuva nascendo dentro de Sua garganta. Vistes os vasos árabes da sala principal? Também foram deixados para trás. Talvez os traficantes tenham se dado conta que eram falsos, ou simplesmente não os conseguiram carregar.” “- Mas conseguem eles carregar esculturas tão pesadas?” “- Por dinheiro, os homens fazem o que é até mesmo impensável e inconcebível, caro pequeno.” “- Achas que os libertinos que seguem Assis têm a ver com os contrabandos?” “- Certamente não. São heréticos, mas não ladrões. Assim como, fora Deus, não existe a perfeição, não existem aqueles que sejam de todo ruim.” “- Mas não estais a condená-los sem pensar? Já ouvistes direito o que pregava Francisco de Assis?” – perguntei, vendo algumas gotas de chuva vazarem a cobertura permeável da igreja. “- Sou forte em minha posição, meu caro, e toda forte posição é unilateral; aproxima-se da direção da linha reta e, como esta, é exclusiva, isto é, não toca muitas outras direções, como o fazem as naturezas e partidos e homens fracos, em seu sinuoso ir e vir. Portanto, também dos religiosos é preciso aceitar que sejam unilaterais.

A restauração, preservação e acima de tudo a correta interpretação dos textos sagrados, ao lado de suas peritas explicações, praticadas em uma corporação ao longo de séculos, permitiram enfim encontrar agora os métodos corretos, a idade passada inteira era profundamente incapaz de uma explicação rigorosamente correta da Bíblia, do simples querer-entender aquilo que o Salvador nos diz – foi alguma coisa encontrar esses métodos, não o subestimemos! Toda pregação que fuja a tais métodos deve ser condenada e banida e assim deve se proceder com os libertinos franciscanos. Até mesmo a ciência somente ganhou continuidade e constância quando a arte da leitura correta, isto é, seu próprio método, chegou ao seu auge.” “- E a discussão sobre tais métodos poderia levar ao assassínio de Clemente V?”

“- Tal infortúnio e plano macabro chegará às vias de fato exatamente porque das discussões nada se aproveitou. Rezemos, então, por ele.” “- Mas, morrendo, não estaria o santo papa livre do inferno e condenado apenas ao paraíso?” – comentei enquanto ainda olhávamos para aquela escultura. O monge tentou aprumar a postura, olhou para fora enquanto a noite chuvosa parecia estar pronta a ouví-lo e disse, resignado: “- Como pode perecer alguém que tem o direito de viver? De onde vem este vir-a-ser de outra forma que engendra nossos costumes e nos põe diante da luta mortal contra nós mesmos? Não devemos rezar contra isso também? De onde vem aquela contorção de dor na face da natureza” – e ele agora apontava porta afora, como se suas palavras já se molhassem nas águas da chuva noturna, “de onde vem o infindável lamento mortuário em todo reino do existir? Desse mundo de insolentes, de injustos declínios da unidade primordial da palavra, devemos nos refugiar, nos debruçar nos braços da morte e esperar a redenção, como proponhes? Não, pequeno, olha de longe para depois dirigir, após um silêncio meditativo, a todos os seres e a ti próprio a pergunta: O que vale nosso existir? Para um monge como sou, lutar pelo que acredito e rezar para que aqueles como eu não murchem como a Terra parece murchar com os anos, não sequem, nem minguem com a presença do inimigo, mas sempre, de novo, voltem a se edificar em meio as transitoriedades. Quem seria capaz de se redimir sem tal luta? Digo, nem mesmo o santo papa!”

Não pude respondê-lo, e no silêncio quebrado pela chuva que parecia aumentar energeticamente, tomamos com dificuldade o caminho de volta à peregrinação. Saboreávamos, todavia, as belezas da noite, quando, na chuva, tudo parecia repousar e purificar-se; moviam-se as estrelas mais silenciosamente que a própria lua e acreditei ser a única pessoa, naquele instante em toda a natureza, propensa a bendizer uma noite tão sombria.