Aurora (XVII)

Haveria beleza naquilo? Um corpo, qualquer que seja, inanimado ou não, possui beleza? Teria beleza acaso uma mulher como aquela, jogada num riacho amarrada à pedras, com seus membros frios e sem vida? Assim como as pedras, talvez um corpo possua apenas cor e forma; e existência. A beleza seria o que não existe e o corpo, uma vez morto, como aquele que tratava de ocultar, apenas belo seria se, assim como a beleza, deixasse de existir.

XVII

– Determinas teu sucesso entre teus próprios erros

Havia uma desesperante circunstância que dava grande força àquelas minhas antigas atitudes, manipulações e observações: a ansiedade e a amarga angústia que se desprendiam com o passar do tempo deram lugar a uma atração ainda maior pela morte (e não digo pelos crimes, pois poderiam ser tomados como crimes meus métodos pela busca da verdade?), meus quatro assassínios tomaram os ares de causas naturais, deixei, por um longo tempo, de considerá-los como destroços flutuantes para vê-los como que devidamente amarrados em suas posições primitivas de acontecimetos irremediáveis, exatos e eu mesmo tomei meu lugar com intensa curiosidade por novos métodos de me esquivar das mortes que havia cometido e que sabia que cometeria brevemente. Havia finalmente percebido que reencontrar Alermano e meu pai requiria mais que somente chegar ao lugar certo, mas uma inteligência emocional que determinaria meu sucesso ou meu fracasso naquela busca.

Como um vilão, um monstro num conto de fadas fatídico, figura que se move somente no escuro, tratei de ocultar o corpo da velha senhora e quando perguntado sobre seu paradeiro logo dizia que, como era de seu desejo, a velha ficara na cidadela de nossa última parada, uma vez que ali, como ela própria me havia confidenciado, possuía alguns parentes mais novos e não conseguiria chegar ao fim da peregrinação sem algumas semanas de descanso. Continuaria com a próxima caravana que ali parasse e, com forças renovadas, talves levasse consigo algum neto mais crescido ou outro conhecido para dela tomar os devidos cuidados com sua saúde já debilitada. Definitivamente, aqueles passantes não possuíam uma identidade coletiva, julgo agora através do escasso interesse pelo repentino desaparecimento da senhora, a não ser a de que eram considerados todos insanos aos olhos cristãos, razão pela qual também explicara-se a desconexão de seus argumentos para chegar ao túmulo de Vicenzo Locci. Fiz, então, o que deveria fazer com o cadáver. Prometi a mim mesmo que não olharia, mas os olhos esbranquiçados da senhora pareciam me fitar numa cega obstinação, possuíam um extraordinário calor. Tive ânsia de vômito enquanto me perguntava se haveria algum tipo de beleza naquele corpo inerte, afinal, por quê não conseguia deixar de fitá-la, por quê o cadáver me perturbava tanto e ao mesmo tempo me levava a apertar seus braços frios como se nunca quisesse soltá-los, esperando alçar vôo com ele quando chegasse o anjo da expiação para nos levar ao firmamento…

A beleza do corpo morto não se limitava à pele, pois homens sabem o que há sob a pele e os mais fracos sentem calafrios ante a visão dos mortos, mas os calafrios, para mim, eram como fascinação, toda uma graça consistente em ver, embora não os visse realmente, o coração parado dentro do peito, suas viscosidades e seu sangue, seus humores, veias, tecidos e cores. A repugnação de tocar a velha senhora morta, estrangulada, de sumir com seu ventre da Terra para longe dos olhos alheios, traziam-me uma espécie de socorro que me tornava ainda mais protegido e que embora repleto de desassossego, refez-me a calma e meu humor, mórbido, mas ainda exasperantemente interessante para mim. Haveria beleza naquilo? Um corpo, qualquer que seja, inanimado ou não, possui beleza? Teria beleza acaso uma mulher como aquela, jogada num riacho amarrada à pedras, com seus membros frios e sem vida? Assim como as pedras, talvez um corpo possua apenas cor e forma; e existência. A beleza seria o que não existe e o corpo, uma vez morto, como aquele que tratava de ocultar, apenas belo seria se, assim como a beleza, deixasse de existir. Eis a fascinação que a morte passou a me causar! A beleza inebriante, assim como a morte, é invisível e a vida passa a ter seu sentido mais estreito quando também invisível se torna, se desfaz para somente assim, através de uma terrível sensibilidade das paixões humanas, atribuir-se à beleza. O essencial é saber ver além da pele, não o que ela esconde, mas o que nela mesma está invísivel. É o que sinto (ou o que é meu dever sentir) que torna-me visível a beleza, somos nós que a atribuímos através da intensidade do olhar e minha intensidade, naquele dia, voltara-se a um velho cadáver que acabara de estrangular, belo porque, por ele, sentia eu uma profunda e sombria acuidade. E olhava para ela cada vez com mais desejo, por isso, antes afundá-la nas negras águas do riacho, a considerei uma bruxa, fonte de um encanto que, ao esvair-se de seu corpo morto, me atingiu e me enfeitiçou antes de perder-se no marasmo dos ares locais.

Não quis mais pensar sobre aquilo e retornei com minhas trêmulas misérias para a peregrinação, sem ser percebida minha ausência. Caminhamos durante muito tempo, escurecia rapidamente, e esfriava também. Abotoei meu velho casaco e sentei-me numa rocha úmida que dava para um desfiladeiro, olhando um riacho barrento e repleto de folhas marrons que corria distante, prestando pouca atenção às discussões dos peregrinos, que já se assentavam para um momento de descanso. Minha curandeira fumava, reencostada numa árvore e depois de algum tempo apagou seu fumo com os dedos e veio sentar-se ao meu lado. “- Estamos na época dos aspargos.” – ela disse, me estendo um tufo da planta para comer. Passaram-se alguns minutos. O céu, de tão nublado, tingia-se de púrpura. O vento agitava as bétulas do outro lado do desfiladeiro, e eu tremia, não sei de frio ou medo; ou os dois. O velho monge e um homem de aspecto deplorável discutiam monotonamente. Percebi que sempre que ficava de mau humor, o monge se comportava daquela maneira – confusa, agitada – pescando logo uma alma para perturbar com suas divagações a respeito da Bíblia e da Salvação dos Tempos. Um outro homem surgiu de repente entre as árvores, agitando o mato e limpando as mãos enlameadas nas calças. Havia escalado rapidamente o desfiladeiro: “-Alguém se aproxima!” disse ele em voz baixa. Todos pararam de falar e olharam para ele instantaneamente. O medo de um encontro com as delegações imperiais, ou mesmo as da igreja, fez com que alguns corressem para atrás das rochas ou se esgueirassem mato adentro, deixando seus cavalos. “- Como?” – sussurrou o velho monge. “- Ali atrás, vem alguém… escutem.” – o homem respondeu, tomando lugar atrás de nós. Fizemos silêncio e trocamos olhares.

Uma brisa fria fustigava a mata, e uma revoada de pétalas de corniso caiu na clareira e na fogueira que havíamos feito. “- Não ouço nada.” – disse para minha companheira. Ela levou um dedos aos lábios, todos estávamos parados, atentos. Tomei fôlego e quando ia falar, ouvi algo. Passos, estalidos de gravetos quebrados sufocados na mata vindos do desfiladeiro. O velho monge mordiscou os lábios e olhou em volta. O desfiladeiro era aberto, não havia modo de qualquer um de nós correr atravessando a clareira e fugir pela mata sem fazer barulho. Estava a ponto de dizer algo, quando de repente as moitas se abriram ali perto e uma sombra saiu, entre duas árvores secas. Todos nós trocamos olhares e depois nos voltamos para a figura a uns vinte metros de distância, ainda oculta nas sombras à beira da mata. Era um homem, gesticulou para nós, impaciente. Ouvi o ruído súbido de seus passos no cascalho e, sem me dar conta do que fazia, levantei para ver quem era. “- É o vidreiro!” – gritei, apontando para ele. A expressão assombrada de todos deu lugar a uma calmaria aliviante, fria como a brisa, agora mais fria e arrepiante. Virei-me e seguiu-se um curto silêncio medonho. O vidreiro falou e sua notícia era surpreendente. “- O que fazia a nossa frente?” – perguntou-lhe o monge. “- Avancei além do desfiladeiro. Sabia que estávamos perto…” – ele se aproximou ainda mais e segurou o velho monge pelos braços, com força, como se estivesse prestes a lhe suplicar algo. Sua presença súbita era demais para mim, estrondosa, e confesso que me deixara mais confuso do que já estava. O vidreiro pigarreava, tentou se recompor, emocionado que estava, limpou o suor com as mangas sujas de seu casaco e, num farfalhar na mata, disse em voz fria, olhando por um longo tempo para nós, duramente:

“- Eu vi, venham!!!” – e então alguns se aproximaram reticentes, a lentos passos. “- Venham, venham todos!!!” – ele continuava a gritar. Percebi um semblante de desconfiança em minha curandeira. As matas pararam com o fim dos ventos e permaneceram em silêncio. Ninguém emitia som algum. Todos se aproximaram e então o vidreiro afastou com os braços o mato mais alto, abrindo a passagem para os que vinham de trás. Agora todos se acumulavam perto dele. O velho monge, um dos primeiros, sorriu. “- Meus caríssimos, vêem aquela construção?” – os mais velhos apertavam os olhos no meio da névoa. O vidreiro anunciou, aos brados:

“- Senhoras e senhores, estamos diante do mausoléu da Família Locci!”