Aurora (XXXIV)

“- Uma mulher nestes vales desertos e sombrios? E com um cão negro!”

XXXIV

 

 

– Fujas da luxúria do saber

 

 

No dia seguinte muito cedo estávamos descendo os contornos de um vale de luzes fortes quando ouvimos clamores e barulhos de carruagens. Era uma grande caravana, prelúdio de dificuldades para adentrá-la impunemente, mas saímos pela parte meridional de um vale deserto e, invisíveis, a certa hora percebemos um vislumbre de cruzes e ramos adornando uma imagem de São Francisco de Assis. Aproximamo-nos e, luneta nas mãos, pude ver se tratar do grupo dos franciscanos, saídos de algum lugar distante a se julgar pelas suas aparências exaustas, rumando para Avignon.

Quando os vi tive o impulso de atirar-me vale abaixo, mas minha curandeira me puxou e sussurrou alguns impropérios nada afetuosos. Os monges acorriam de todos os lados, disse-me ela, e devíamos ser mais cautelosos quanto à aproximação.

Andamos, então, circunspectos dentre o verde claro das árvores cheias de neve, manobramos nossos cavalos até um lugar afastado e seguimos a pé até a trilha dos monges. Nosso plano era simples e minha curandeira o deu início: de repente, a caravana freou à vista de uma mulher e um galgo.

 

“- Uma mulher nestes vales desertos e sombrios? E com um cão negro!” – disse severamente um velho eclesiástico com gestos voltados à caravana. Alguns monges fizeram silêncio, outros sussurravam algo entre si.

“- Oh, Santo Deus…” – exclamou ainda o velho, “- uma mulher com este feitio de saltimbanco e quiromante com um cão negro… mas eu conheço estas malícias do demônio! Muitos de vós também as conheceis quando há anos inquirimos uma mulher que mantinha conúbio com o Maligno que lhe aparecia sob a forma de um cão negro!” ele disse olhando para minha curandeira e o galgo, perfeitos em suas representações. Pareceu-me que o único a fazer silêncio àquele momento era eu mesmo, e me calava por vileza enquanto os outros, estarrecidos, faziam o sinal da cruz, olhando para a mulher que trazia numa das mãos a luneta de meu pai e, na outra, ovos podres.

Foi quando puxei pela manga da túnica o menor dos noviços que pude entrever na confusão e lhe cravei no pescoço a lança de meu pai. Ele se liberou de meu puxão com um susto e, com olhos de miserável, entregou a alma com a certeza de algum interrogatório celeste. Tomei, então, o seu lugar com o capuz de minha túnica sobre a cabeça. O velho monge continuava com suas divagações em alto e bom som, discursando enquanto, a suas costas, a mulher já se preparava para a fuga por entre as árvores:

 

“- Não creio que vós tenhais necessidades de minhas antigas experiências para chegar a vossas próprias conclusões sobre estes bruxos. Não há testemunho bem mais autorizado que os vossos próprios neste momento. Estevão de Bourbon conta em seu tratado sobre os sete dons do espírito santo como São Domingos, após ter pregado pelo mundo contra os hereges, anunciou a algumas mulheres que elas veriam quem tinham servido até então. E de repente jogou no meio delas um cão negro, com grandes e fogosos olhos, a língua sanguinolenta que chegava até o umbigo, o rabo curto e em riste no ar, de modo que muitos heréticos o adoravam como a encarnação de Satanás. E após ter rodeado aquelas mulheres por uma hora, o cão saltou até a corda de um sino e lá o sino ressoou melodias nunca antes entoadas. E não é também um cão negro que é amado pelos cátaros e que, segundo os viajantes mais estudiosos são assim chamados justamente pelo fato de cão ser o outro nome de Lúcifer? E não nos diz Alberto Magno, em seu D´Animalia Infernallis, que os cães são o demônio em potencial? E não ouviram também vós de meu venerável confrade Jacques Fournier que no leito de morte do inquisidor Gaufrido Milabriles apareceram dois cães negros que outra coisa não eram senão os demônios que desejavam escarnecer os seus despojos?”

Um murmúrio de horror percorreu o grupo dos monges, muitos dos quais caíram de joelhos para oração.

 

“- Senhor Abade, senhor abade” – se levantou um homem alto, novo e de túnica alva, com ar virtuoso “ – talvez vossa magnificência não saiba o que costumam fazer os pecadores com esses instrumentos! Mas eu sei muito bem, Deus nos livre! Vi mulheres celeradas, nas hortas mais escuras da noite, juntamente com outras desta laia, usarem cães negros para obterem prodígios que nunca puderam negar, algo como pássaros que atiravam-se do céu dentro de caldeirões segurados por anões, algo como cavalgar certos animais e percorrer com o favor noturno espaços imensos, arrastando seus escravos, transformados em íncubos cheios de desejos da carne… E o proprio Diabo se mostra a elas, ou pelo menos tais mulheres o crêem fortemente, sob a forma de cão, de galo, gato ou outro animal escuríssimo, e com eles até, e não me pergunteis como, se deitam! E sei decerto que com nicromâncias do gênero, não faz muito tempo, justamente em Avignon, preparavam-se filtros e ungüentos para atentar contra a vida do próprio papa, envenenando-lhe os alimentos através dos cães. O papa pôde se defender e separar o tóxico apenas porque estava munido de prodigiosas jóias em forma de línguas de serpente, fortificadas por admiráveis esmeraldas e rubis que por virtude divina serviam para revelar a presença de veneno nos alimentos! Onze destas línguas de serpente foram dadas ao papa pelo príncipe da França, graças ao céu, e só assim o santo papa pode escapar às impurezas de uma morte indigna!

É verdade que os inimigos do pontífice fizeram muito mais, e todos sabemos o que se descobriu do herege Ângelo Personata, detido há dez anos: foram encontrados em sua casa livros de magia negra anotados justamente em suas páginas mais celeradas, com todas as instruções para se construir figuras caninas de cera com que provocar danos aos seus inimigos. E se quereis também saber e acreditar, em sua casa foram encontradas figuras que reproduziam como arte a imagem do próprio santo papa com a cabeça de um cão e com círculos vermelhos nas partes vitais de seu corpo; e todos sabem que tais figuras, mantidas suspensas por uma corda, são postas diante de um espelho e depois são espetadas com alfinetes… Oh, mas porque me demoro com estas misérias repugnantes? O próprio papa as descreveu e condenou, justamente durante o ano passado, em sua constituição Super Illius Specula!” – e neste momento, enquanto todos encontravam-se estupefatos diante do discurso, minha curandeira há muito havia se esgueirado mata adentro.

 

“- Temos celas no subsolo de nossas abadias para tais infernais…” – disse o abade, e num ímpeto de susto e inquietação a caravana se pôs novamente em marcha vagarosa.

Já à noite, os monges dirigiam-se à ceia. A refeição estava na metade quando se sentou junto a nós o monge que discursara com o abade, sempre com ser ar virtuoso. A aparição de minha curandeira ainda lhe era assunto, e conversava com um homem de longa barba, mas não muito velho que estava também em nosso grupo:

“- Aquela mulher me levou a algumas reflexões.” – ele disse, e diante do silêncio dos outros, continuou: “ – Somos todos vítimas de algum tipo de luxúria, que não é a mesma em sentimento, mas pode ter sempre a mesma definição. Como muitos estudiosos, temos a luxúria do saber. Do saber para si próprio. Devemos condená-la, ou condenar alguém por suas práticas? Excluídos de uma parte do saber que mulheres como aquela que vimos têm, queremos nos apoderar dele, e como não podemos, o julgamos como deplorável. O que dizer quando nos apoderarmos deste saber? Tu me perguntarias de que me serviria controlar tanta reserva de saber se não o aceitam em meus círculos, e não aceitaria eu mesmo colocá-lo à disposição de todos os demais… É justamente por isso que falei em luxúria. Não era luxúria a sede de conhecimento de Roger Bacon, que queria usar a ciência para fazer mais feliz o povo de Deus e por isso não buscava o saber pelo saber. A luxúria daquela mulher é apenas curiosidade insaciável, orgulho do intelecto, um modo como qualquer outro, de transformar e pacificar os desejos do mundo, os da carne e os do espírito.; ou o ardor que faz de outrem um guerreiro da fé, ou da heresia. Não existe apenas a luxúria da carne. É também luxúria esta sede de vingança ocultada nos muros de nossa Inquisição, distorcida luxúria de justiça, que se identifica com luxúria de poder. É luxúria de riqueza a do nosso santo pontífice. Era luxúria de testemunho e transformação e penitência e morte a de nossos santos, assim como a de Francisco de Assis. Como todas as outras luxúrias, a de poder e conhecimento é estéril, e não tem nada a ver com o amor, nem com salvação, pois a verdade deste sentimento apenas almeja o bem do amado. O bem de uma pessoa não pode residir em sua morte, em sua tortura. Deus, então, sepulta-nos devido a sua própria luxúria de poder, pois se nos amasse, nunca o Diabo viria nos buscar.”

 

Ouvi um murmúrio entre os presentes, até que o jovem monge concluiu:

“- Como podemos condenar aquela mulher em nome de uma verdade divina da qual não somos guardiões? Devemos agradar ao papa, ao império, aos frades de vida pobre, a Francisco de Assis que decerto nos vigia do céu, ao povo cristão que nos vigia da terra, sob um falso pretexto religioso que nos oculta as mais diversas faces da luxúria? De fato, o que nos torna humanos é justamente nossa capacidade de transformar tal fluxo de podridão em felizes intuitos de nossas almas, desregrando nossas paixões nefastas e repletas de orgulhos em virtudes e que nos faz esquecer que da imagem e semelhança de Deus apenas resguardamos a face mais perversa. Quando nascer a aurora na qual as mais distintas luxúrias se revelem como nosso único bem e conhecimento, seremos eternos, pois não mais necessitaríamos da morte para nos apoderar desta única verdade do mundo.”