A Matemática da Desigualdade

Vivemos sim em um Brasil que vive um momento de embriaguez, só que este porre já dura mais de 500 anos. Estaria na hora de uma internação forçada em uma clínica de desintoxicação ou ainda precisaremos esperar que o país entre em abstinência e delirium tremens mais 500 vezes?

…”Quem ocupa o trono tem culpa, quem oculta o crime também”…

“…vivemos em um país sedento um momento de embriaguez, nós somos quem podemos ser, sonhos que podemos ter…”.

Na letra de Humberto Gessinger para a música dos Engenheiros do Hawaii, a crítica social é apenas uma ponte para a poesia que trata da desilusão do encontro com a realidade.

Vivemos sim em um Brasil que vive um momento de embriaguez, só que este porre já dura mais de 500 anos. Estaria na hora de uma internação forçada em uma clínica de desintoxicação ou ainda precisaremos esperar que o país entre em abstinência e delirium tremens mais 500 vezes?

Um dos aspectos curiosos desta nação “em desenvolvimento” é a eterna balela da “luta contra a desigualdade econômica” propagada em cada novo ano eleitoral.

“O Brasil é um dos países com a maior diferença de renda entre os mais ricos e os mais pobres; vamos resolver este problema.” (candidato X ao cargo Y)

Como não sou matemático, vou precisar de sua ajuda na elucidação do enigma a seguir. Por favor, ajudem.

Imagine-se o Brasil atual, onde vivem e trabalham 3 cidadãos. Imaginemos que estes 3 trabalhadores são funcionários públicos. O cidadão A tem um vencimento mensal de R$ 260,00. O cidadão B, que estudou um pouquinho mais, recebe R$ 2.600,00 ao fim de cada mês. O sortudo do cidadão C foi mais esperto e entrou para a política, e recebe cerca de R$ 26.000,00 por sua jornada de trabalho mensal.

Agora imaginemos a situação a seguir: o governo federal resolve promover um aumento de salário para todos funcionários públicos (afinal de contas, tudo está muito bem amarradinho) de 15%. Vejamos o que acontece:

O cidadão A passa a receber R$ 300,00, o cidadão B R$ 3.000,00 e o cidadão C receberá dali por diante R$ 30.000,00.

Tudo bem. Isso vem acontecendo há décadas. Desde sempre, poderia dizer.

Para melhorar a percepção de onde quero chegar, vamos imaginar a passagem do tempo. Um ano após, nosso governo federal resolve decretar um novo aumento no salário mínimo, desta vez de 20%. Seis meses após, com a balança comercial favorável, inflação controlada e juros baixos, novo aumento de 15% para todo funcionalismo público (para quem não sabe, pago com o meu, o seu e os nossos impostos).

Ao fim desta etapa, os números são os seguintes:

Cidadão A: salário de R$ 414,00
Cidadão B: salário de R$ 4.140,00
Cidadão C
: salário de R$ 41.400,00

Agora, as conclusões:

O cidadão A teve um aumento absoluto de R$ 154,00.
O cidadão B
teve um aumento absoluto de R$ 1.540,00.
O cidadão C
teve um aumento absoluto de R$ 15.400,00.

No começo de nossa historinha, a diferença entre o que o cidadão A e o cidadão B recebia era de R$ 2.240,00, e aumentou para R$ 3.726,00. A diferença entre o que o cidadão B e o cidadão C recebia era de R$ 23.400,00 e passou a ser de 37.260,00.

Agora, a pergunta: alguém me explica como isso contribui para reduzir a desigualdade econômica?

Alguém?

“Quem ocupa o trono tem culpa, quem oculta o crime também
Quem duvida da vida tem culpa, quem evita a dúvida também tem
Somos quem podemos ser, sonhos que podemos ter”