Simplicíssimo

Astronauta Pingüim

18 de julho de 2001 Uma Odisséia no Espaço – Astronauta Libertado

Essa entrevista foi realizada com o Pingüim dias após o show de despedida dos Arnaldos, banda Cover de Mutantes, Rita Lee e Arnaldo Baptista na qual a figura era o tecladista e “piloto” dos moogs. Conversamos com ele no intervalo do show solo que ele fazia com voz e violão no Vermelho 23 Pub, em Porto Alegre. A coisa começou mais ou menos assim:

S — A primeira pergunta não podia deixar de ser: por quê Astronauta Pingüim?
AP
— Pingüim é apelido de infância, minha família me chama de Pingüim. Um dia alguém me chamou assim e ficou. Astronauta é porque na Zero Hora, principalmente, e em vários outros meios de comunicação, é por ordem alfabética, tinha que ter um nome com “a”, aí ficou Astronauta. Só Pingüim ia ficar lá no “p”!

S — Como é a tua trajetória musical?
AP
— Comecei ouvindo. Desde os 10 anos eu tenho a cultura de comprar discos e coisas do rock progressivo (os mais comuns mesmo: Emerson Lake & Palmer, Yes). E eu ouvia aquele som bonito de sintetizador e achava maravilhoso, com meus 10 anos de idade. Comprei e comecei a comprar discos de um cara chamado Walter Carlos, que fez a trilha sonora da Laranja Mecânica, que toca só com moog, e de um japonês chamado Tomita, que toca só moog também. E era essa coisa de moog, moog, moog. Daí eu comecei com uns 16-17 anos a trabalhar numa loja de instrumentos musicais em Novo Hamburgo (RS), Palácio da Música era o nome. Eu trabalhei anos ali, onde me surgiram quase todos os teclados antigos e moogs que eu tenho. Mas eu tinha para gosto próprio. Daí um dia eu estava andando por Porto Alegre, que eu vim buscar um moog aqui (não lembro quem era o cara que me vendeu) e encontrei o Egisto que me convidou para tocar na Acretinice Me Atray . Foi então que eu comecei a tocar com o pessoal de Porto Alegre, mas antes eu não tinha nenhuma pretensão nem de ser músico. Depois surgiram vários convites. Imagina, um cara tocando um instrumento que ninguém tem, que ninguém conhece. Surgiram Os Arnaldos, gravei com Malvados Azuis (que depois virou Cachorro Grande), Wander Wildner, Júpiter e a partir daí deslanchou.

S — E qual o significado dos chinelos de pelúcia que tu usava nos shows?
AP
— Chamar a atenção. Eu acho que o artista não basta ser artista, tem que ter algo de circo. O povo quer pão e circo. Pão a gente não pode dar para ele e foi um jeito de fazer um diferencial.

S — O que você acha da cena musical gaúcha atual?
AP
— Sou amigo de todo mundo, mas acho uma merda bandas que imitam Weezer. Mas são meus amigos e não vou falar mal. Tem a Bidê ou Balde, que é uma banda legal.

S — Eles tem moog …
AP
— Não é uma questão de ter ou não moog. Moog hoje virou sinônimo de “moderno”. Ele já existe há muito tempo e eu tenho a influência do moog muito diferente das bandas da cena musical gaúcha atual, que estão baseadas em Weezer, Blur, Oasis. A minha influência é do rock progressivo e eu não tenho vergonha de dizer que eu tenho a discografia completa do Emerson Lake & Palmer na minha casa, que eu fui no show deles e que eu gosto deles. Mas para “os modernos” tudo isso seria feio.

S — Qual a tua relação com Os Mutantes?
AP
— Eu conheci Mutantes muito cedo. Eu ia na loja do Getúlio quando era na José do Patrocínio ainda. Com uns 10-12 anos de idade já comprava livros e coisas. E um dia, em 1985, o Luiz Carlanca, da Baratos Afjns, relançou um disco e o Getúllio me falou “Cara ouve isso!” e daí eu comprei os dois primeiros dos Mutantes e bateu alguma coisa. Eu não gosto de Caetano, de Gil e nada disso. Mas com Os Mutantes bateu, não digo fã ou não fã, mas eu pensei “existe inteligência nesse país”. E vieram outros discos, mas tudo aconteceu muito por acaso na minha relação com Os Mutantes. De ser fã, de tocar numa banda que toca Mutantes, de conseguir uma guitarra que foi do Sérgio Baptista, de conhecer o Sérgio Baptista, de conhecer o Arnaldo, de conhecer o Cláudio César Dias Baptista, que é o grande gênio por trás dos Mutantes. Esse é o gênio, o engenheiro, o cara que inventou. Depois fui conhecendo, o destino foi me apresentando as pessoas. Gosto muito deles e acho a banda brasileira mais criativa.

S — E Os Arnaldos, por quê acabaram?
AP
— O que levou ao fim Os Arnaldos … eu estou indo embora, não sei por quanto tempo, se por 15 dias ou 15 anos, não sei quanto tempo eu vou ficar fora do país. O Márcio tem as coisas dele para resolver, o Sérgio tem as coisas dele, acabou. Bandas acabam.

S — O que motivou você a ir para Londres?
AP
— Miinha mulher. Estou trocando a minha carreira aqui por um amor.

S — É isso aí, digníssimo Pingüim! Uma boa viagem e um começo fabuloso no Velho Mundo!
AP
— Obrigado!

Nota do editor: a essa altura, o Astronauta deve estar além-mar. Desejamos a ele toda a sorte do mundo nesta grande empreitada, que certamente não foi fácil de decidir enfrentar!

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