Simplicíssimo

Vôo 282

Viu-se ali, com os olhos fixos em frente à tela do seu microcomputador, lendo, relendo, treslendo aquela mensagem eletrônica.

Alguns lances da história que outrora eles protagonizaram, imediatamente reprisavam-se em sua memória, como se pouco a pouco fosse se reconstituindo o vivido.

Quando ele chegou àquela cidade onde deveria viver alguns anos de sua vida, imaginou que o Cristo de braços abertos, lá no alto, majestosamente convidava-o para um abraço de boas vindas; sequer supunha que esse abraço viria dela, ao sorrir-lhe um sorriso aquiescente, ao permitir-lhe adentrar em sua vida, para viver, compartilhar e fazer parte dos sonhos da então menina, mal saída da adolescência.

Foram britanicamente pontuais nesse encontro que os deuses lhes reservaram. Tiveram sim, belos momentos; breves, é bem verdade, ante a magnitude do que poderia ter sido; mas assim como ele chegou, teve que partir, refazer o caminho, colocar os pés nas estradas de volta à sua terra natal, às suas origens, ao seu torrão.

Restaram-lhes as cartas… E como foram tantas! As tradicionais cartas de amor, iguais às todas as demais. Cheias de segredos, confidências e planos; cartas simples, como se fossem apenas para registrar um “alô”; cartas manchadas com beijos de batom; cartas perfumadas, caprichosamente decoradas com as figurinhas do “amar é…”; cartas com dedicatórias de “para sempre tua”. Belas cartas.

Foram anos, longos anos de cartas, mas o “para sempre” não resistiu à avalanche do tempo. Perderam-se de vista; ela enveredou por novos caminhos; ele delimitou novos rumos para a sua vida.

Estamos em plena era da tecnologia de comunicação instantânea, da Internet, do correio eletrônico. Quem diria então que agora, nesse exato momento, ao abrir sua caixa de mensagem, ele estaria frente a frente com ela através de um e-mail: – “Estou embarcando no vôo VASP 282, às 08 h: 15 de hoje, com escala em Brasília. Estarei no aeroporto de sua cidade por volta das 12h: 45. Um grande abraço e… até breve”.

Ficou ali…, como se fora um jovem adolescente vivendo a expectativa do seu primeiro encontro; como se a distância enorme que se impusera entre eles, desse-lhe a sensação de que ela era uma estranha; como se nunca tivessem, no auge da adolescência, comungado segredos; como se cada um não tivesse ficado com um pouco um do outro; como se ao reencontrá-la tivesse que fazer uso de mil formalidades ou ao cúmulo de cumprimentá-la com um “ olá, muito prazer em conhecê-la”.

Apagou a lâmpada do quarto, acomodou a cabeça ao travesseiro, adentrou em si. Tentou extrair da memória, algum detalhe que o ajudasse a moldar os contornos daquele rosto que irremediavelmente por muito tempo ficara atrelado ao seu passado. Mas foram vãs todas as tentativas. O tempo parecia ter executado uma desfragmentação ou deletado alguns arquivos no hard disk de sua memória.

– Ora, valei-me Deus, mas que bobagem aquela sua! Ele parecia não se dar conta do tempo transcorrido desde quando seus olhos fitaram-na pela última vez, até aquele momento em que promovia as suas íntimas reflexões. Parecia uma eternidade! Os anos haviam transcorrido, portanto, por força da própria lei natural, eles já não eram tão jovens qual dantes. A menina que ela foi, naturalmente cedeu lugar à mulher madura, consciente, dona de si, na qual ela seguramente houvera se transformado; ele, por sua vez, ainda que relutasse em resguardar reminiscências do menino arredio que fora, sabia que no fundo essa sua relutância havia soçobrado às avalanches do tempo. Parecia que custava-lhe crer que tudo havia mudado.

Lembrara que, há já alguns anos, tinha o hábito, meio que infantilóide, de guardar um monte de objetos. Tudo que estivesse relacionado a algo que lhe rendesse boas lembranças, teria um lugar sagrado na coleção de suas saudades. Uma forma meio démodé que encontrara de sempre “presentificar”, suas lembranças. Chegara, algumas vezes, a ridicularizar aquela sua mania, mas quem, de sã consciência, nunca teve o seu “bauzinho”? Aquele lugar mágico, onde guardamos nossas saudades e quando bem entendemos, saímos por aí, de um pólo ao outro do passado, via túnel do tempo?

– Como seria bom se eu ainda dispusesse daquele meu “bauzinho!” Ora, se ela foi a dona das minhas melhores saudades, sem dúvida, lá teria muito dela guardado, pensou.

Insistiu, em acionar todos os mecanismos de sua memória. Fragmentos dispersos de algumas reminiscências começaram então a surgir, como se fossem retratos esmaecidos de um passado longínquo. Estavam lá: lembranças dos bilhetinhos cheios de dedicatórias; das promessas que ouviu e tantas outras que fez, mas nunca se cumpriram; de uma música que marcou época em suas vidas; dos sonhos que não resistiram à realidade e… detalhes, muitos detalhes da sua última carta… Aquela que até hoje ele sabia seu conteúdo de cór.

Foi ali, ao lacrar aquele envelope, onde ela selou o desencontro de dois destinos. Lembrava, ainda, da reação que lhe tomou de assalto, no exato momento em que, pausadamente, lia, filtrava e retinha no cérebro aquele amontoado de palavras anavalhadas, ferinas e desafiadoras.

Imaginou, naquele momento, que nenhum outro episódio haveria de marcar-lhe tanto, quanto ler aquela avalanche de frases exageradas, ditas a esmo, à queima roupa, sem conceder – lhe a mínima chance de defesa, feito execução sumária.

A porta que outrora se abrira para ele, fora a mesma por onde teve que sair. Não houve jeito. Desfazer planos, apagar rastros para não saber fazer o caminho de volta – caminho que até pouco tempo estava nos seus propósitos; esquecer promessas e rogar para que o tempo corresse a mil, era o que lhe restava. Afinal, se ela chamou para si a incumbência de espetacularmente mudar o curso de dois destinos, quem seria ele para negar-lhe o sagrado direito do livre arbítrio? Assim foi feita a sua vontade.

Saiu de sua vida, mas trouxe um trunfo: em momento algum se viu no direito de apelar para estratagemas de mau-caratismo com o propósito de atropelar seus novos projetos de vida. A certeza que sobrevivera sã e salvo, era-lhe suficiente para estufar o peito até com certa dose de orgulho. Não que nessa atitude houvesse algo de soberbo. Não, afinal, ela foi uma dessas surpresas especiais com as quais às vezes a vida nos presenteia; ela foi a companhia eleita para que juntos recebessem as lições que a vida tinha para lhes repassar, ademais, ele sabia perfeitamente bem que não poderia posar-se de mocinho. Tinha noção exata de tudo: das feridas que foram e ficaram abertas, sangrando por algum tempo; das mágoas; das conseqüências que fizera jorrar por conta de tantos atos inconseqüentes.

O tempo passou…, mas ficou impregnado nele a sensação estranha de perda. Necessitou de alguns anos para entender que muitas vezes desperdiçamos tanto tempo, blasfemando por termos perdido isso ou aquilo numa determinada fase de nossas vidas, mas raramente nos voltamos para nós e perguntamos: será que estávamos suficientemente “preparados” para fazermos jus ao que imaginávamos buscar? Sim, porque, afora todas as concepções que se tenha sobre a vida, ela é, antes de tudo, um desafio. Tem suas exigências, seus critérios. Sempre estará ali, nos colocando em berlindas, mas, paradoxalmente, nos mistérios da sua mudez, nos mostrando que às vezes necessitamos de alguns “reajustes”. É aí onde nos concede belas oportunidades de, através dos nossos próprios deslizes, assimilarmos suas lições para sabermos lidar com os seus desafios. Aí é-nos fácil ver que há tempo certo para tudo na vida.

Mas o tempo deles não era aquele. Não, não era. Eram apenas meros aprendizes dessa mestra extraordinária que tinha muito o que lhes repassar, e assim foi feito, tudo na medida exata para não desperdiçarem nenhuma chance de assimilarem os novos aprendizados.

Hoje certamente estão refeitos. Superaram aquelas fases de ansiedades, de indecisões, de buscas e incertezas, características comportamentais típicas dos jovens que há muito deixaram de ser. Cresceram, amadureceram, conquistaram seus espaços, firmaram-se como adultos conscientes no contexto existencial e aí certamente estão cientes que na história protagonizada por eles, não há culpados ou inocentes, porque hoje dispõem de todas as respostas às tantas perguntas que por muito tempo ficaram sem eco.

As benesses dessas conquistas, bem que poderiam ter sido dedicados a eles, mas não. Teriam outros caminhos a seguir; o muito ou pouco que restou certamente hoje faz parte da coleção de momentos guardados no silêncio de um “bauzinho”, ou num canto qualquer da memória de cada um, nesse recanto sagrado.

O que torna incrivelmente fascinante o espetáculo do viver é essa possibilidade sensacional de, a cada amanhecer, podermos superar fases, absorvermos conhecimentos que nos chegam a cada romper de um novo dia. Tudo bem, às vezes perdemos, blasfemamos ante às adversidades que contrariam nossos prognósticos, mas quantas belas surpresas vivenciamos ao longo dessas jornadas tantas! Algumas estranhas, esquisitas, fogem à nossa capacidade de compreendê-las; outras perfeitamente dentro dos limites plausíveis do racional, e como já disse o poeta baiano: é incrível a força das coisas, quando elas têm que acontecer!

A voracidade do tempo pode até, abruptamente, arrancar-nos essas sensações vividas, experienciadas, compartilhadas; mas pouco importa. Ora bolas, que se dane! Restarão as lembranças que virarão saudades, que passarão a ser o que há de mais sagrado em nossas vidas, por termos sidos dignos de vivê-las. Fazem parte de nossa história.

Ela o encontraria muito diferente. Um sujeito mais arrojado, a querer sempre mais do que a própria vida possa lhe reservar: sentir; provar; vivenciar; experienciar; correr riscos; ir a onde ninguém ouse, hoje são seus principais objetivos vivenciais, como forma de não deixar escapar nenhuma oportunidade de ter sempre os seus referenciais, de tentar estar sempre “preparado” ou pelo menos não tão vulnerável aos desafios dessa magnífica roda viva que é o viver.

Retornou de suas reflexões, recompôs-se, conferiu o relógio. Os ponteiros já quase acusavam o horário anunciado. Deu uma olhadela na sua imagem refletida no espelho, escondeu alguns fios de cabelos brancos, maldisse algumas rugas e colocou duas gotículas do fifteen, seu perfume. Sentiu-se bem.

– Bom dia. Alguém deseja falar com o senhor. Posso mandar subir? Era a voz do porteiro, através do interfone.

– Quem poderá ser? Indagou-se.

– Sei lá, da maneira que as coisas estão caminhando, talvez seja ela e logo estará ali, do outro lado daquela porta, acionando aquela campainha irritante.

– Não, estou descendo. Só um minutinho, por gentileza.

A vontade dele, naquele momento era descer aqueles dois lances de escada num só fôlego, chegar ao portão principal esboçando uma incrível tranqüilidade.

O celular soou rasgando o silêncio. Volume máximo. Estava programado para despertar-lo. Ainda sonolento e ofuscado com a luz que invadia seu quarto, olhou para o display e lá estava a hora marcada para o compromisso inadiável no seu trabalho.

Dirigiu-se à sacada, observou o movimento das ruas, acenou para o porteiro, como a querer perguntar pela visita, mas viu que tudo estava igual, exatamente igual à rotina do seu dia a dia.

Foi um sonho. Ele acordou.

Eduardo Augusto Conde Cavalcante

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