Simplicíssimo

Contos de Zé Agouro

Seu nome era conhecido por todos da região de Cianorte, Paraná, por seus contos estranhos e causos assustadores. Zé Agouro abismava até pelo apelido, e sua feição de pele curtida e cabelos de gravetos fazia jus à sua fama de contador de estórias medonhas.
Dizia Zé agouro que há muito tempo atrás, quando na época ainda era tudo mato fechado, havia um rapaz de nome Desidério. Esse tal era um rapaz muito feio e azarado que morava sozinho numa cabana a beira da estrada, mas que cantava muito bem em prosa e versos um repente numa rima jamais ouvida por aquelas bandas, ganhando assim uns trocados para ir vivendo, tocando e comendo.
De tempos em tempos ele ia à cidade fazer uma coisinha ou outra e ficava por lá o dia todo, mais precisamente no núcleo da pacata vila, onde tinha um bar de taquara e seus habitantes passavam as horas mortas jogando cartas e discutindo sobre assuntos minores. Às sextas-feiras no findar da tarde, os bancos eram postos na varanda pouco iluminada e jogadores punham-se a postos, acompanhados dos olhares de curiosos e torcedores.
Desidério era um desses curiosos, mantendo-se a distância; não muito longe para não perder os fatos, mas o suficiente para não ser notado.
Certa vez decidiu-se fazer um torneio com dinheiro na roda, e o campeão desfrutaria de um passeio a cavalo, puxado pelo perdedor. Todo mundo pôs-se a fazer a inscrição, Desidério também queria, mas nem passou por sua cabeça se inscrever.
– E ai Desidério, não vai arriscar a sorte dessa vez? – perguntou Tarcisio, um boa vida filho de fazendeiro e jogador nato.
– Fica pra próxima. – desconversou o rapaz, timidamente, pois que, nessa mesma hora entrou Juliana, noiva de Tarcisio.
Ah, Juliana era uma linda morena de lábios de mel, seus olhos eram tão verdes que espelhavam toda a mata e seus cabelos tão negros que o próprio crepúsculo a invejava.
– Próxima? Que próxima? – riu Tarcisio, talvez já registrado que os olhos de Desidério planavam ligeiramente sobre Juliana. – se você não fosse tão azarento quem sabe?
No bar todos riram às bandeiras despregadas; todos, menos Desidério, que se comprimiu no canto da parede, socado pelas gargalhadas estrídulas.
De volta pelo caminho de casa, já noite alta, ia Desidério meditativo; o escuro era crescido e só se via mesmo um metro para diante, quando não mais que de repente ele ouviu o trotar de um cavalo. Quem sabe fosse alguém conhecido e pudesse lhe dar garupa, discorreu ele, descontinuando os passos a fim de olhar quem era, mas não é que o danado do cavalo cruzou por ele só em pêlo? Desidério ficou meio que ressabiado, mas logo serenou a mente. – “vai ver alguém bebeu de mais e caiu do cavalo”. – E continuou pelo caminho com passos apertados, já que em seu pescoço soprava uma ventilação gelada anunciando chuva.
Não demorou a outra vez parar, estupefato e de perna encrespada. Olhando firme a sua frente eis que divisa um cão…Parado no meio da trilha, olhando seguramente. Desidério empacou sem saber se tocava o pé para assustar o bicho, ou se ele mesmo se assombrava e saia em disparada correria. Enquanto ponderava qual seria a melhor escolha, o cão virou-se e penetrou na mata espessa que apertava a estrada, desaparecendo; sem nem deixar rastro.
Já ressabiado e caminhando a passos tão extenso quanto uma corrida, Desidério tratou de se mandar, afinal quem vive na mata ouve de tudo.
-Tem fumo companheiro?
A respiração de Desidério aproximou de um urro quando ouviu o vozear vindo por detrás de suas costas. Podia até mesmo sentir o bafo cáustico do falante. Num estremecimento se contornou para trás, e viu um sujeito aborrecível, arrumado de negro; seu manto alongado e o chapéu que lhe ocultava o semblante do mesmo modo consistiam em pretume. Desidério meio que se rebaixou para ver quem era, entretanto não impetrou o desconhecido.
– Tenho sim! – respondeu ao fenecimento de alguns segundos taciturnos, encaixando as mãos pelos bolsos a pesca do fumo; indagou: – passou um cavalo a pouco daqui, parecia perdido, era seu?
– Não era meu não, elejo andar a pé por essas bandas. – respondeu o homem místico, de brado rouco e nebuloso. Desidério então entregou o fumo com as mãos frouxas, e o homem, que acendeu lançando uma longa baforada agradeceu com um chacoalhar de ombros. Continuaram no caminho em silêncio.
Já a certa altura da estrada havia uma encruzada, e o rapaz folgando da breve despedida, respirou fundo, já que era ali na encruzilhada que virava rumo à trilha de sua choupana.
– Bom, eu viro aqui. – disse ele.
– Eu sei! – replicou o homem excêntrico, e prosseguiu após uma alongada tragada – Tenho o que você carece. Dinheiro? Mulher? Posso te dar tudo.
– O quê? Mas quem é você? – quis saber desidério.
– Sou um amigo e sei que posso te valer.
– Porquê? Por que quer ajudar um desconhecido?
– Não é um desconhecido pra mim. Sei dos teus desejos mais íntimos, sei de Juliana, a doce Juliana. Conheço tudo e todos, e quero fazer um trato.
– E como sabe do que preciso?- inquiriu Desidério, desconfiado.
– Pois sei tudo, e tudo te dou, basta você almejar. Mas terá que me dever um benefício.
– Benefício? Que Benefício?
– Nada do que você não possa fazer, e então, vai querer?
– Claro, vou querer sim. – redargüiu Desidério muito bem-disposto.
– Então você terá tudo o que cobiçar, e no tempo certo vou vir te cobrar o obséquio.
Desidério foi embora para sua cabana e dormiu, esquecendo-se do assunto e do homem. No dia seguinte ele acordou com uma sensação estranha e pensou: – Que mau sonho tive essa noite!
Quando foi à tarde alguém bateu à sua porta. Desidério achou curioso, pois era um menino que nunca vira antes, dizendo o seguinte:
– Mandaram chamar o senhor para o torneio.
A principio ele titubeou, mas pensou: – por que não? E falou ao menino que dissesse que participaria sim. Na sexta feira lá estava Desidério para participar da maratona.
Alguns zombaram, outros se calaram duvidosos e outros apenas ignoram o pobre coitado do repentista. No final da noite, ainda dúbio, Desidério estava sendo carregado no lombo de um cavalo, sendo guiado por Tarcisio e com os bolsos cheios de dinheiro.
Já de volta para sua casa, um pouco alto devido à bebedeira da comemoração, tarde da noite Desidério passava pela encruzada sua casa quando viu aquele homem estranho.
Desidério sentiu seu corpo tremer dos pés a cabeça e um arrepio percorrerem-lhe.
-Vejo que está ditoso, granjeou o que queria? – indagou o homem.
– Sim, ganhei o torneio e o dinheiro está aqui comigo.
– Sim. Mas ainda falta mais um pouco, falta você ganhar o coração de Juliana.
Pensando que teria o coração de sua amada, Desidério respondeu:
– O coração de Juliana, como eu queria ter!
-Você pode ter. Por um preço você pode ter qualquer coisa.
– Qualquer coisa para ter essa mulher comigo.- pensou Desidério, em voz alta.
– Então está arranjado! Na hora certa você saberá meu preço. E o homem foi caminhando até sumir por completo na densidão da penumbra. Desidério foi para sua casa sem dar muita importância à conversa e dormiu tranqüilamente.
No dia seguinte ele foi à cidade, pensava em comprar uma manta nova, um casaco e um chapéu quando, para sua surpresa as pessoas o recebeu como a um figurão. Desidério nunca tinha sido tratado como gente importante, aliás, ele nunca tinha sido tratado como gente. Sempre o viam como um pobre coitado digno somente de piedade, mas nada mais além de um olhar carola que se dá até a um cão sarnento morrendo de fome; jogamos um pedaço de pão velho, cumprindo nosso dever cristão.
Mas naquele dia não, ele estava apreciando um outro gosto da vida e estava gostando, pois até mesmo Juliana agora se desmanchava em sorrisos de mel. Verdade é que não passou muito tempo para que os dois já estivessem casados e Juliana grávida do primeiro filho.
A biografia de Desidério mudou de tal figura que em breve ele estava morando na maior casa da cidade. Estava trabalhando como consultor de gado e tudo em sua vida estava dando tão certo que nada mais o fazia lembrar da noite em que teve o encontro com o tal senhor figurado da noite tenebrosa e do acerto de contas.
Todavia, certo dia, numa noite tempestuosa alguém bateu à porta. Desidério que dormia a sono solto deu um pulo na cama, tamanho o assombro, e levantou silenciosamente, uma vez que não queria acordar sua bela Juliana. Mal humorado abriu a porta e se descobriu frente a quem pensou nunca mais voltar a encontrar. O assombroso homem daquela noite.
Desidério sentiu o arrepio percorrer-lhe o corpo. Por alguma razão sua mente acusava que aquilo não era um bom sinal.
– O que você quer? – perguntou secamente, olhando se não tinha alguém observando.
– Divertindo? – perguntou o sujeito enrolando um fumo fedido.
– O que quer a essa hora? Minha mulher pode acordar.
– Ah, bela Juliana… Muito me agrada ver que alcançou seu objetivo. Bem, vou direto ao assunto, sabe o que quero e vim receber.
Como todo trato tem um dia para ser cobrado, ali estava o homem para tomar sua penhora.
– Pois muito que bem, e o que vai querer? – perguntou Desidério ainda não se apercebendo do que realmente estava acontecendo. – É dinheiro? Metade do meu dinheiro? – Desidério abriu a carteira que estava numa mesa ao lado, expondo umas notas de réis.
O homem soltou uma gargalhada, lembrando um abutre.
– Ah meu amigo, não é seu dinheiro que eu quero, pois se fui eu quem lhe dei; dinheiro de nada me serve, apenas o dou para gananciosos. Mas vim aqui a fim de querer o concerto que fizemos naquela noite, prometeu que me pagaria um favor quando eu lhe pedisse.
– Tudo bem, diga então o que quer. – respondeu Desidério já impaciente.
– Quero seu filho! – respondeu direto e gélido.
O rapaz achou não estar de ouvidos bem regulados e perguntou, inocente.
– Como é que é? Eu não entendi direito.
– Entendeu sim, fizemos um acordo e hoje vim tomar; quero seu filho, esse era o trato.
– Estás louco? Não fiz trato que lhe daria meu filho, quem pensa que é? Endoideceu?
– Não penso, eu sou. – então o homem pela primeira vez mostrou seu aspecto assombroso.
O semblante de Desidério descaiu naquele instante, aquilo que ele estava presenciando era o próprio mal encarnado.
– Entende agora que não vai voltar a trás no nosso pacto?
– Sim. – respondeu Desidério, abalado na voz, na carne e na alma.
– Pois bem, quando venho buscá-lo?
– Espere, não disse que consentia você levar meu filho, disse que seria um favor e não um contrato, não assinei nada contigo.
O coisa-ruim soltou fogo nas ventas e olhou fulminante para o rapaz.
– Ainda que você tivesse opção, não há coisa nenhuma que substitua, nada que tenha para me oferecer em troca. –
– Sim, tenho o direito de oferecer a mim em permuta, afinal você não disse que estava impedido de modificar o obséquio caso o achasse extravagante.
O mal soltou baforadas, repudiou e debateu, mas Desidério foi convicto em querer que ele mudasse seu pedido de acerto, pois não tinham estipulado o que seria, apenas que ele o pagaria e isso Desidério estava disposto a cumprir, conquanto que da maneira dele.
– Então está feito, o que você sugere? – perguntou por fim o mal.
Os dois fizeram uma aposta e, se Desidério perdesse poderia ser levado para sempre, e se ganhasse o besta se mandaria de vez, o deixando em paz e também a sua família. E assim começou a aposta.
– Mas eu tiro a sorte que te dei, terá que lutar com suas próprias armas. – disse o mal já convencido de que a aposta estava ganha.
– Então tudo bem vamos fazer o seguinte: eu desafio você a cantar em prosa e verso, eu o desafio a um repente. – disse Desidério.
– Ta feito, começamos agora mesmo. – respondeu o homem de outrem.
Desidério disse que deixasse pro outro dia, pois necessitava de preparação da voz, mas que o coisa ruim não se esquentasse que o trato havia de ser cumprido.
Dia seguinte, hora e local marcado, lá estavam os dois preparados e um pouco de curiosos em volta, meio ressabiados pois que de coisa tuim ninguém queria trato.
Desidério então pegou de sua viola velha e o coisa ruim sentou-se à sua frente e começaram a musicalidade cheia de desafios:

Olha só companheiro
Não vim fazer provocação
Só quero esclarecer
O que foi uma confusão

O coisa ruim
Então não deixou por menos e começou o seu
:
Deixa de conversa mole
Deixa de conversação
Vosmice não me conhece
Pra ficar de enrolação.

Desidério
Ocê é muito presunçoso
Vou mostrar que eu sou bão
Pois meu fio ocê não leva
Nem ninguém da geração

Coisa ruim:
Vou mostrar quem é que manda
Nas pessoas e criação
De mim esperteza emana
Sou doutor com graduação

Desidério:
Uma palavra tu não conhece
É a dita discrição
Diz que faz e acontece
Mas é só um moleirão

Coisa ruim:
Olha aqui caboclo burro
Sou do mal o portador
E pra meio de conversa
Posso ser seu professor

Desidério:
Pra mim só existe um professor
E a Ele eu sirvo bem contente
É a Jesus meu Senhor
Meu amigo e confidente

Nessa hora, o coisa ruim ficou muito furioso e soltou baforadas feito uma locomotiva :

Agora é guerra deflagrada
Esta vosmice num engole
No teu lombo eu vou montar
Até seus ossos ficarem mole.

Desidério
Coisa ruim, agradecido
Mas isso não vai dar não
Pra no meu lombo ocê subi
Preciso eu deita no chão
De tão baixo que é vosmice
E somando mais a idade
O que vosmice parece
É um macaco gibão.

Coisa ruim:
Agora ocê me injurio
E pra ocê eu vou jurar
Que antes que este repente acabe
Sua alma eu vou levar

Desidério:
Minha alma tu não leva
Pois dela não te fiz doação
Desculpe-me, mas já tem dono.
É Do Senhor Deus da criação

Nessa hora então o demo se decidiu que iria confundir a cabeça de Desidério.

Muito bem então amigo
Não vamos brigar não
Só quero te levar comigo
Pra fazer uma excursão

Desidério:
Olha eu até queria muito
Agradeço com educação
Mas não tenho passaporte
Tenho medo da extradição

Coisa ruim:
Muito bem agora chega
Pro ínferno eu te condeno
Comigo vosmice desce
Pois já sabe que eu sou o demo

Desidério:
Tudo bem então eu desço
Contigo sem discutir
Só peço antes um favor
Antes de contigo ir

O coisa ruim rindo de satisfação resolveu ceder ao último desejo de Desidério e cantou:

Faça logo o seu pedido
Que já não posso esperar
Ainda tem mais umas almas
Pro inferno eu levar.

Desidério:
Peço só coisinha simples
Coisa fácil de fazer
Só beber uma branquinha
Antes de contigo descer.

Desidério então pegou uma garrafa de pinga branquinha e encheu dois copos, deu um para o dito-cujo que bebeu de um gole só até a última gota. Interrompeu por uns instantes e arregalou os olhos para Desidério, que se desmanchava em gargalhadas, pois no demo dera uma lição.
Terminado o repente Desidério cantou com exultação:

Não te chamo de amigo
Mas desculpe a enganação
Pois a água que bebeste
Foi água de santificação
Pois eu sirvo ao Deus Eterno
E Dele foge o rei do inferno

Dizendo isso… Puf!
Sumiu o coisa ruim num grito espantoso, envolto numa cortina de fogo, deixando em paz a Desidério e sua família.
Mentira? Verdade?
Quem vai saber? É só mais uma estória sobrenatural de Zé Agouro.

Priscila Magalhaes

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