Simplicíssimo

Doutor da Universidade da Vida

Já fiz, em outras oportunidades, referências quanto à metodologia de ensino adotada e empreendida pela vida: primeiro a vivência, depois a lição. Prática metodológica desprovida de consistência para alguns estudiosos do assunto, mas que tem lá os seus pontos positivos no contexto da aprendizagem não formal. É quase uma práxis, uma alternativa aos tantos excluídos ao acesso à educação formal.
A vida, na sua maestria, vai empreendendo suas lições. Ensinando, monitorando, exigindo, avaliando e colocando no mercado de trabalho levas e mais levas de criaturas que vão assimilando e adquirindo estratégias de sobrevivência. Vão em frente, eliminando bloqueios, consagrando-se, de uma maneira ou de outra, no contexto espetacular desse show que é o viver. Alguns se destacam, ganham notoriedade, dentro dos seus limites cognitivos, e à sua maneira, inferem, argumentam e até mostram-se exímios na arte de persuadirem. Parecem até autores de teorias e doutrinas alternativas inéditas, que lhes são bem peculiares, proporcionadas pelas cátedras da universidade da vida. Criaturas excepcionais, capazes de adaptarem –se às exigências da vida, dessa árdua luta pela sobrevivência.
Ele é um representante em potencial desse tantos excepcionais que estão por aí. Ele vai elaborando seus conceitos, suas crenças, suas convicções; às vezes não tão afinadas com os princípios do que se convencionou rotular de intelectualidade, mas ele vai seguindo; ele se torna excepcional por ter sido um dos muitos gerados no ventre de um pedaço de chão paupérrimo, encravado nos confins de um mundo distante, quase perdido em pleno nordeste brasileiro. Pedaço de chão, de terra fértil na produção de miséria, de fome, de restos de gente; ele se torna excepcional por não ter tido o status fascinante de sentar-se nos bancos que fabricam doutores; sua cadeira foi em torno de uma mesa, na companhia da fome, que talvez tenha lhe roubado o ânimo de alimentar o desejo do saber formal; ele se torna excepcional quando na sua pequenez insignificância, torna-se capaz de persuadir, inferir, polemizar, à sua maneira, e cunhar sua marca registrada que ficará cravada na História; ele se torna excepcional quando na sua pequenez se agiganta na confiança em si, estufa o peito e mostra no semblante os seus títulos, diplomas e certificados com os quais a vida o condecorou; ele se torna excepcional quando ousa contrariar conceitos, preceitos, convicções, vaidades, discriminações e coloca o bisturi nos brios de uma elite famigerada por poder; ele se torna excepcional mesmo quando não entende o manejo e a intimidade com a linguagem tecnicista, tão cheia de floreios, bem íntima dos aristocratas intelectualizados, mas arvora-se no seu linguajar rústico, rude, mas assimilável pela massa, pelo povo ; ele se torna excepcional quando teima em reverter os papéis, em mudar o curso do rio, sempre quando posiciona-se no centro de um palco, depara-se com uma platéia esnobe e elitista, a mais fina flor da prepotência e arrogância de tantos tempos, lança um olhar sinuoso e parece nos dizer: companheiros, que me desculpem a franqueza, mas a realidade da vida, dessa vida nua e crua, do jeito que ela é, ilustres doutores, vocês ainda têm muito o que aprender.
eduardo.conde@uol.com.br


Eduardo Augusto Conde Cavalcante

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