Simplicíssimo

Fim do Mundo

Era uma vez o fim do mundo

É. Era o fim do mundo, finalmente. Era uma experiência estranha, de fato. O mundo nunca havia acabado antes e ninguém sabia o que devia fazer. Era dia 06/06/06 e todos corriam de um lado para o outro. Ninguém sabia como ia acabar, mas acabaria. Fim do mundo. A cada década, falava-se nisso pelo menos duas vezes, mas daquela vez fazia sentido… ou quase.

06/06/06
6 / 6 / 6
666
Capeta

Esse era o sentido. Uma vez que o zero é um número nulo quando está a esquerda, pode ser cancelado. Ninguém parou e pensou que a verdadeira data era 06/06/2006 e se fosse para acabar acabaria no ano de 06/06/0006. Eles não tinham tempo para pensar nisso, porque, realmente, o mundo estava acabando. Pensar nessas horas é útil. Mas as pessoas não conseguem.
Eles andavam por aí matando seus inimigos, estuprando as mulheres que lhes despertavam desejo sexual e falando tudo que pensavam uns dos outros. Os humanos. Eram felizes, em fim. Faziam o que queriam ter feito e não puderam ou não quiseram ou não tiveram coragem. Enfim, não quiseram.
O fim do mundo serve pra essas coisas. Fazer o que se quer fazer e não se tem coragem. Funciona bem melhor que um copo de vodka. Ou dois. Ou vários. Enfim, é melhor que vodka.
Até que começou. Era finalmente dia 06/06/06, pelo menos na Russia. O primeiro lugar do mundo, na questão fuso-horário.
Nada. Não aconteceu nada. Vários repórteres suicidas foram lá filmar as coisas. Nada aconteceu. As pessoas começaram a deduzir sobre a hora, que hora seria, em função de qual fuso horário e essas coisas. Pensaram e pensaram. Por longas seis horas, seis minutos e seis segundos.
Quando acabou o tempo eles perceberam. Era tarde para os russos mais do leste, mas havia acontecido. O mundo estava acabando, mas respeitando o fuso-horário.
Quando bateram 06:06:06 aquela parte da Terra sumiu. Magicamente sumiu. Como uma fatia de pizza que é retirada da mesma. Puf. Desapareceu. Então as pessoas perceberam: Sempre que o fuso-horário de certo local chegasse as 6 horas, 6 minutos e 6 segundos, aquela parte do mundo acabaria.
Um fuso horário, uma hora, quinze graus da Terra. Era a lógica. A cada hora um novo fuso horário chegava a 06:06:06 e portanto sumia. Cada fuso-horário contém, teoricamente, 15° da Terra. E a cada hora uma fatia de 15° sumia. Do nada.
E o mundo virou caos. A humanidade migrou para o oeste, onde o fuso-horário é mais atrasado. A américa superlotou e tiveram que ocupar todo o extremo oeste. Cordilheira dos Andes, Alaska e até o deserto de Nevada. Hospedaram alguns até na famosa Area 51, por causa da falta de espaço. Os aliens foram hospitaleiros, por sua vez.
E a cada hora, sumia uma fatia da pizza terra. Fuso-horário. Ninguém sabia que até Deus respeitava-o. Uma a uma iam sumindo as maravilhas da terra. Muralha da China, Esfinge, Pirâmides, Torre Eifel, Coliseu e todas essas coisas do velho mundo. A Terra reduzia-se rapidamente. A cada hora perdia 15° da sua circunferência.
Até que, sumiua California. Vulgo pênis dos EUA. Piadinhas rolaram entre os novos 6 bilhões de habitantes da América, dizendo que o poderio estava desmenbrado e blablabla. Os nativos não gostaram, mas expulsar 1/3 dos humanos do seu território por uma piadinha infame, em pleno fim do mundo seria muita falta de respeito.
E foi sumindo e sumindo. Até que todos juntaram-se no Alaska. Na pontinha. Resbalaram por fim. 6 bilhões não caberiam ali, com certeza. A última fatia da Terra. Só faltava ela. Alguns brincaram de gravidade. Brincadeira nova. Sabe essas brincadeiras que se cria em horas de desespero? No caso, fim do mundo? É, isso. Eles se atiravam da borda da Terra não mais redonda e voavam até o núcleo. Era divertido.
Depois eles grudavam no núcleo e ficavam lá, esperando a terra sumir por completo. Lá não tinha mais pressão.
E acabou. Ficou um vazio. As fatias acabaram e as coisas flutuaram no espaço até o resto de tecido biológico e coisa ou outra que chegaram no espaço chocarem-se com um outro planeta. Nesse mesmo planeta, depois de milhões de anos nasceria vida. Mais tarde nasceria um cara mágico e depois de 2006 anos e meio do seu nascimento, tudo acabaria. E assim seguiam-se as coisas. Infinitamente.

 

Carlos Eduardo da Silva Ribeiro

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