Simplicíssimo

Ghost Writer da Igreja Nacional do Santo Testemunho

O Senhor dos aflitos esteja ao meu lado nessa hora. Que todos os santos me amparem, ainda que ninguém aqui acredite em santo. Mais 16 depoimentos pra criar ainda hoje. Vão ao ar de madrugada. Quero ver outro no meu lugar dizendo sempre a mesma coisa e tendo que falar de outro jeito. É o desgraçado que estava no fundo do poço, com a vida derrotada, endividado até o pescoço, bebendo, tomando droga, socando a fuça das crianças, chifrando a esposa, amante fazendo vodu. Chega o parente que é da igreja, leva ele pra assistir o culto, mergulha a cabeça dele na piscina de plástico, vem a transformação instantânea e daí a um mês a vida abençoada, empresa com dinheiro saindo pelo ladrão, viagem para Bora-Bora, três apartamentos, uma casa de praia, frota de Pajero na garagem.

O pior é que tem que redigir também a fala do pastor. O desencapetamento, as perguntas que ele vai fazendo pro convertido responder. Outro dia tinha um post-it do bispo aqui em cima da mesa me dando o maior esporro, dizendo que estava tudo muito igual. Mas fazer diferente de que jeito? Se eu troco “fundo do poço” por “fim da linha”, eles corrigem o texto e mandam falar “fundo do poço” de novo. Se eu falo em “falta de perspectiva” volta pra “vida derrotada”, assim não dá. E o dízimo? Agora a imprensa está pegando no pé dizendo que os pastores são ostensivos, que batem carteira na cara dura. Veio ordem pra maneirar no roteiro, pra pegar mais leve na hora de pedir o dinheiro e dar o número da conta, deixar uma coisa mais velada.
Ainda se fosse só o texto, ficava fácil de resolver. Mas tem o problema dos atores, quer dizer, dessas toupeiras de teatro amador que falam tudo decorado, como se estivessem olhando o teleprompter. Eles tinham que ler o script e falar do jeito deles, pra ficar mais natural. Já disse isso não sei quantas vezes nas reuniões de pauta, mas na hora da gravação é aquela coisa mais falsa que perfil do Lula no orkut. Quando dá, já sento direto aqui no computador e deixo as falas prontas já pra uma semana ou mais. Aí entra o horário eleitoral de algum partido ou então mais comerciais por break e tenho que enxugar tudo de uma hora pra outra, pra caber no horário do programa.
O calvário prossegue na hora da cura. E quem opera o milagre é este escriba mal pago. Já comprei por conta um tratado de moléstias e fico caçando enfermidades para adoecer o moribundo de araque, conforme o jeitão do freguês.
Tudo bem que é meu ganha-pão, eu devia torcer pra audiência subir. Mas, se sobe, eles ligam de madrugada em casa, pedem pra ir voando pra ilha de edição do programa e fazer render a enganação redentora. “Força a mão aí, meu camarada, capricha no exorcismo porque o ibope tá lá em cima, não deixa despencar não”. Teve um dia que nem dava tempo de escrever pra mandar pro engravatado que estava comandando o programa, eu ia falando os textos de improviso direto no ponto dele. Ah, minha mãe. Se me dá um branco a farsa toda desmorona, despenca o cenário dos querubins tocando trombeta, é capa de “Veja” na certa. E o pior é remoer essa adrenalina sabendo que o bispão manda-chuva tá lá no palácio dele, onipotente no seu trono Luiz XV, vendo tudo ao vivo e já dando feedback por celular para o diretor do programa. Muda ali, muda aqui, repete em câmera lenta a cena do cara que jogou longe a muleta e invadiu correndo o palco.
Eu tenho o poder e o dom, a ira santa, o fogo sagrado que destroi a iniquidade e manda pro fundo do inferno os devassos e os incrédulos. E o que eu quero agora é mandar pro ar este texto. E vai desse jeito mesmo, no calor da hora. Estou sozinho aqui na técnica, é só apertar um botão. O templo ruiu. O Cristo de verdade apareceu para expulsar os vendilhões.
 

 

Marcelo Sguassabia

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