Simplicíssimo

O pronome *eu* e a atribuição de atitudes proposicionais

11 de abril de 2003

Suponhamos que Lois Lane seja uma pessoa racional, e que não exista nenhum problema afetando suas faculdades mentais. Nestas condições, podemos supor que uma pessoa não acreditaria que alguma coisa ou pessoa é mais forte do que é, ou mais pesado ou mais rico do que é etc. De tal tipo de pessoa poderíamos esperar a crença que algo é tão forte, pesado ou rico (etc.) quanto é.

Se perguntamos a Lois Lane, ela responde que o Super-Homem é tão forte quanto ele mesmo é, e que Clark Kent é tão forte quanto ele mesmo é. Mas, como eu já disse, ela acredita que o Super-Homem é mais forte do que Clark Kent. Como resolver o problema da atribuição destas crenças a Lois Lane sem considerá-la irracional (como eu já disse, essa hipótese deve ser descartada)?

Comecemos, em primeiro lugar, pela informação disponível a Lois Lane. O Super-Homem e Clark Kent se apresentam de maneira bastante diferente a ela. Assim, seu desconhecimento da identidade secreta do Super-Homem não a constrange, a priori, a suspeitar que a mesma é Clark Kent.

Do ponto de vista dela, sua crença que o Super-Homem é mais forte do que Clark Kent está plenamente justificada. Ela não comete nenhuma irracionalidade do tipo acreditar que exista algum x tal que ‘x != x’, isto é, ela tem esta crença apesar de não acreditar que alguma coisa é mais forte do que é.

As dificuldades se apresentam na terceira pessoa, do ponto de vista da pessoa que atribui crenças a Lois Lane. Do ponto de vista do Super-Homem ( = Clark Kent), por exemplo. Digamos que ela expresse a ele esta sua crença, isto é: que ela diga ao (pessoa que se apresenta a ela como) Super-Homem que o considera mais forte do que Clark Kent, ou que diga ao (pessoa que se apresenta a ela como) Clark Kent que o considera mais fraco do que o Super-Homem. O Super-Homem / Clark Kent estaria plenamente autorizado a atribuir a Lois Lane a seguinte crença: “Lois Lane acredita que eu sou mais forte do que eu mesmo”. Ora, ao mesmo tempo uma tal crença é irracional e corretamente atribuída. Aqui está o nó deste quebra-cabeças.

A questão dura, do ponto de vista da terceira pessoa, é saber se Lois Lane, apesar de acreditar, para qualquer x, que ‘x = x’, acredita que há um x tal que ‘x != x’. Esta questão é importante porque boa parte da comunicação (e consequentemente da própria racionalidade) humana apóia-se na atribuição de crenças e outras atitudes proposicionais (como desejo, conhecimento etc.) a terceiros.

Entendemos, seguindo N. Soames (em “Reflexivity”), que Lois Lane tem *as duas* crenças. Ela crê (segundo seu próprio ponto de vista) que Super-Homem é mais forte do que Clark Kent, apesar de não acreditar que exista algum x tal que ‘x != x’, e também (segundo o ponto de vista da terceira pessoa) que Super-Homem é mais forte que Super-Homem, ou que Clark Kent é mais forte do que Clark Kent (isto é evidenciado quando Super-Homem / Clark Kent usa o pronome *eu*, como em “Lois Lane crê que eu sou mais forte do que eu”). De fato (empiricamente), sem irracionalidade, Lois Lane crê que não há nenhum x tal que ‘x != x’, e também que há um x tal que ‘x != x’.

César Schirmer

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