Simplicíssimo

Os doces da minha infância

Aquela garota verticalmente prejudicada e horizontalmente avantajada era eu.  A “Raquelzinha”. Hoje, criticamente analisando, percebo que nem era um apelido tão carinhoso, e sim irônico, muito irônico, já que minhas características diminutivas eram desconsideráveis se comparadas com meu excesso de “fofura”.

Mas doce eu era, isso é afirmável. Era arriscado me confundirem com um pãozinho de mel… Redondinha, morena e melosa. Tocando em assuntos assim, aquele sentimento nostálgico vem à tona, trazendo a memória lembranças prazerosas, saborosas e divertidas.

Desde pequena fui exagerada; apreciadora e usuária de hipérboles; e isso se pode perceber agora mesmo, nessa autodescrição feita nos parágrafos acima, que não deixa de ser verdadeira, entretanto conta com uma tonelada de deformações jocosas, e visões caricaturadas. Por ter essa mania de aumentar os fatos, minha mãe se irritava facilmente comigo. Mamãe nervosa… Isso era muito engraçado. Eu e meus irmãos fazíamos mil e uma “brincadeiras proibidas”. Eu não segurava o riso quando eu fugia dela. Vinha ela correndo atrás de mim, ameaçando castigos tenebrosos; se cansando facilmente, mamãe acabava por desistir e aí sim, eu olhava, ria e ela acabava me acompanhando nas gargalhadas.

Mamãe sempre foi a mulher mais doce de minha vida. Quando eu deixei de morar com ela foi uma fase amarga. Eu usava fortes doses de adoçante, indo sempre à nova casa dela, mas não era a mesma coisa. Afinal, ela já não faria para mim, todos os dias, lanche, almoço e broncas. Não reclamo, pois minha avó, que passou a cuidar de mim a partir daí em tempo integral, não deixava faltar sacarose em minha vida.

Recordo-me de uma vez em que eu e minha família fomos à praia. Avó, avô, tio, tia, alguns dos primos, minha mãe e uma amiga de minha avó. Uma equipe belo-horizontina em uma praia que talvez seja mais mineira que nós, a “Praia do Morro”. Doce fase, doce passeio, doce divertimento, doce cansaço, e, poetizando, até a água do mar ficava doce, de tanta felicidade que eu sentia ao ver minha família se divertindo em um lugar maravilhoso. Chegamos lá na parte da manhã. Eu não queria que o dia acabasse; era tudo muito bom, e eu não tinha bem o que falar para me expressar. Mas, para quê comentar? Era muito mais fácil e objetivo fechar os olhos e sentir a brisa murmurar no ouvido e trazer o cheirinho do mar. Ao findar o dia, fomos para o apartamento descansar. Para mim, o boletim meteorológico era um acontecimento de referência nacional. Se fosse dada a notícia catastrófica de chuva no dia seguinte eu não sei do que seria capaz. Nostálgico sentimento…

Doce infância a minha. Era bela, perfeita e singela. Minha vida se resumia aos desenhos animados, achocolotado com leite, brinquedos e cadernos da escolinha e revistinhas. Nas tardes vazias minha travessura favorita era mergulhar meu dedo indicador, vulgo furão, no pote de açúcar e me lambuzar. Nas margens dos cadernos, era divertido desenhar frutinhas, borboletas, flores e coraçõezinhos.

Esse sentimento nostálgico, que chega a provocar um pouquinho de dor, me faz criar novos devaneios, assim como eu criava quando criança. O único pedido que faço agora, às bruxinhas que eram minhas amigas de infância, é que permita que meus novos sonhos não sejam diabéticos, que eles sejam sempre adocicados, gostosos e, obviamente, realizáveis.

Raquel Camargo

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