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Serpentes e Escorpiões – parte II

Serpentes e Escorpiões (parte II de II)

– por Rodrigo Monzani

“Uma legítima vantagem não é apenas diversa, mas multiforme, e se acha, não raro, nas profundidades do pensamento, inteiramente inacessível às inteligências comuns e infantis.”
Edgar Allan Poe

A princípio, aquilo lhe causou uma viva excitação no espírito, uma condição mental que ela apenas pôde apreciar em seus efeitos, não lhe sendo suscetível qualquer tipo de especulação ou análise em qualquer um de seus sentidos analíticos ou de método, mas sua intuição lhe dizia que era prazeroso e tragicamente excitante, o embaraço, a hesitação, o entusiasmo, o receio… tudo dentro de um caráter imaginativo e fantástico, revestido de uma proposição análoga aos inadvertidos blefes de um participante de roleta russa.

“- Ouvi dizer que a senhora Randelle foi curada durante uma dessas pregações…” – disse Claudia enquanto Amália devaneava olhando para as cortinas da varanda de seu quarto. Tinha um livro negro nas mãos, entreaberto, onde se podia ler no canto de todas as páginas num carimbo de letras minúsculas:

Este livro é uma doação do Conselho Nacional de Literatura Fantástica. Qualquer opinião expressa em seu conteúdo não representa necessariamente qualquer posição do referido Conselho, sendo, portanto, uma responsabilidade única e exclusiva de seu autor

“- Aqui diz que algumas serpentes podem curar esclerodermia e ‘enfermidades da ‘.””- O que é inteligência excitada?””- Ora, Claudia… loucura, esquisitices, caprichos singulares… como os de DaVinci, que escrevia detrás para frente, com as duas mãos.””- Isso é enfermidade?” – Claudia parecia falar apenas para continuar a conversa, sem interesse.”- Coisas assim podem te deixar louco, de uma hora para outra.”

“- E esclerodermia?”

A avó de Amália sofria de esclerodermia. Sua pele havia ficado atroficamente fibrosa como a de uma serpente, evoluindo crônica, lenta e irreversivelmente. À beira da morte pelo comprometimento pulmonar secundário, vivia cercada de carinhos e cuidados que se acostumara a ignorar. Seu quarto, no qual Amália não possuía permissão para entrar, ficava na ala 23 do hospital da cidade, segundo andar, nº 29 e dava para o fim da escada de incêndio.

“- Vamos curar minha avó com uma serpente. Coiotes doentes podem ser curados com picadas de ratazanas e cobras. Eu sei, eu os cacei minha vida toda. Pergunte ao meu tio Eldon.” Claudia pôde vislumbrar o plano de Amália antes que ela o dissesse. Invadir o quarto do hospital com uma serpente e salvar a vida da avó.

“- Mas como?” – ela perguntou.

(…) Amália pensou que a escada de incêndio do hospital parecia mais velha do que nunca e quando olhou rapidamente para baixo percebeu, surpresa, que Claudia a escalava com habilidade, (as luvas contra os últimos raios de sol da rua, os cabelos amarrados caídos sobre as costas e os reflexos de seus óculos se perdendo para cima) com o chão ficando cada vez mais longe e menor atrás dela. Amália se lembrou de uma música repugnante que aprendera no primário com a velha senhora Clarombone (apelidos: Barbie gorda e cabeça de martelo), uma senhora loira de olhos claros e que sempre usava vestidos floridos de mínimas variações:

… a Dona Aranha subiu pela parede
Veio a chuva forte e derrubou a Dona Aranha…

Aqueles versos evocavam lembranças e visões distintas, desprezíveis: classe lotada nas tardes de sol com o ventilador de teto quebrado, crianças medonhas e maldosas hoje crescidas e transformadas em jovens elitistas, exercícios de pintura da senhora Clarombone, brincadeiras idiotas em grupo, giz de cera, fotos de peixinhos dourados nas paredes, canções infantis demais para fazer algum sentido acompanhadas de aplausos descompassados e gritinhos histéricos de “- Anos perdidos em salas de aula com professores e alunos medíocres. Talvez Amália e Claudia tenham sido umas das poucas a não exaurirem seus últimos espúrios de inteligência diante daquilo, sorrisos forçados de crianças inibidas e olhares entrecortados pela piedade ou qualquer sentimento exacerbado, condescendência e as fraquezas do espírito que advém de tais condições.

Amália sabia que crianças podem ser tão dóceis e inocentes quanto cruéis, uma constatação que quando aplicada a Claudia, a pequena menina luterana que vivia num mundo de vestidos combinando com os sapatos, estudos religiosos e discursos sobre infiéis destinados à salvação vinda dos céus, se transformava num sentimento veloz que nunca conseguira absorver de maneira real e esclarecedora, apenas tangenciava seu coração e alçava vôo novamente logo em seguida num raio que ela sabia que poderia ser alcançado, mas, até então, não sabia como. E através do abandono dos olhos de Claudia por trás dos óculos, Amália sentia que a amiga também sentia isso.

Claudia avançou cinco degraus, segurou a escada apertando os lábios enquanto Amália trazia a caixa e abria as pernas para que ela passasse. Colocou, então, os pés nos ombros de Claudia, os braços já estavam dentro do quarto e quando ela impulsionou novamente o corpo para cima, a escada tremeu e emitiu um ruído débil e medonho, metálico.

Amália estava dentro do hospital. Havia caído ao lado da cama da avó, sozinha, incógnita, adormecida. Se levantou em câmera lenta, impressionada, e por um breve momento se esqueceu completamente de Claudia.

“- Hey, pode me dar a mão?” Claudia surgiu na janela, óculos quase caindo, os ombros do vestido marcados pelo tênis de Amália, um sorriso fascinante torneado pelos lábios úmidos e finos.
“- Venha, agarre meu pescoço.” Dentro do silêncio etéreo, intrépido, elas permaneceram em completo estupor no quarto mal iluminado, abraçadas diante da janela com seus olhos de criança tentando inutilmente envolver cada centímetro estático das paredes enegrecidas pela sombra.
“- Este é o quarto mais estranho que eu já vi.” – Claudia sussurrou e Amália percebeu que ela estava tremendo.

“- Venha, vamos pegar nossas lanternas. Deixe a caixa aqui” – aquela era uma das caixas do celeiro, guardadas pelos crentes. Os guizos da serpente eram audíveis.
“- Você não tem medo de pegá-la?” – Claudia não associou o desembaraço de Amália com a serpente pendurada na ponta de sua forquilha aos seus anos de caça com o tio nos haras.
“- Abra o livro, veja onde a serpente deve picá-la.” – disse Amália, segurando a cobra com dificuldade.
“- Eu não trouxe o livro…”

As circunstâncias turbulentas daquele exato momento se condensariam em pura culpabilidade. Hoje, Amália não se lembra de ter pego ou não o livro, mas apenas da cobra se contorcendo freneticamente no ar, de seu nervosismo irracional que a impediu de segurá-la com a forquilha e do animal caindo no peito da avó, se esgueirando para debaixo dos lençóis brancos. Raramente, tem uma vaga impressão do cenário como um todo, mas sem relutância, ela se lembra dos coices da avó na maca, de sua aflição e, principalmente, de seus gritos.

Rodrigo Monzani

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