A guerra civil que se viu

Lula pariu. Agora finalmente sabia-se que ele tinha sido o pai da criança. Um órfão a menos no mundo, caras pintadas a mais nas ruas. Não pararam os comícios e inflados discursos embalados a “meus companheiros”. Dois povos nas ruas. De um lado, vermelhos biletrados estrelados em amarelo defendiam (que ofensa!). De outro, multicolores

Lula pariu. Agora finalmente sabia-se que ele tinha sido o pai da criança. Um órfão a menos no mundo, caras pintadas a mais nas ruas. Não pararam os comícios e inflados discursos embalados a “meus companheiros”. Dois povos nas ruas. De um lado, vermelhos biletrados estrelados em amarelo defendiam (que ofensa!). De outro, multicolores que dizem haver vencido o Collorido tempos atrás ofendiam (que defesa!). Descendo a ladeira, um grupo aproximou-se do outro que aglomerava-se na praça. Queria o seu espaço. Mas a praça cheia que estava não arredou pé. E seguiu o Brasil descendo a ladeira, agora com força nos pés, agora com força nas mãos. E seguiu a praça erguendo as bandeiras, já há muito sem razão. Quem acompanhava nos meios de comunicação não pode conter-se e saiu às ruas. Quem não sabia de nada foi arrastado junto. Outras praças e ladeiras, todas elas. Pouco importava se não havia mais armas em seu poder (“maldito plebiscito”, pensaram alguns). Mas o poder do sangue fervendo fazia do que estivesse à mão a mais poderosa arma. E por fim o sangue espalhou-se. Manchou as praças embrulhado em estrelas e correu pela ladeira tingido por todas as cores. Ninguém poupou, tão pouco foi poupado. O mundo assistia incrédulo a maior tragédia dos últimos tempos. Talvez de todos os tempos. Uma nação inteira dissipando-se por ela própria. Em meio a tudo, lojas começaram a ser saqueadas e os policiais entraram em cena. O tráfico desceu o morro, queria garantir o patrocínio. O exército saiu dos quartéis, queria garantir a ordem. Mais sangue, menos vidas. Homens, mulheres e crianças. Ouviram-se batucadas e realizaram-se sacrifícios dos animais como forma de curar aquela doença social. Mas os protetores dos animais silenciaram as rumbas e morreram junto aos tambores e seus tocadores, aos bichos e suas dores. Mais sangue … mais sangue .. mais sangue. Em Brasília, no melhor aposento do luxuoso Hotel Grand Bittar, os únicos sobreviventes que seriam, políticos que sempre foram, não conseguiram sequer esperar a última morte da rua e jogaram-se a procriar meretrizes naquilo que viria a ser, 9 meses depois, o nascimento do futuro de uma nação, assim mesmo, como teria adorado Darwin, na mais pura e bela seleção natural evoluindo as espécies.