A linha

Péricles Raimundo, estudioso e detalhista como só vendo, não pôde deixar de realizar mais uma minuciosa pesquisa antes de ir, pela enésima vez, a um psiquiatra. Suas tentativas anteriores não o haviam frustrado, pelo contrário, reforçavam sua certeza de quão difícil de ser compreendido ele era, o que tomava como seu troféu particular. Péricles Raimundo, estudioso e detalhista como só vendo, não pôde deixar de realizar mais uma minuciosa pesquisa antes de ir, pela enésima vez, a um psiquiatra. Suas tentativas anteriores não o haviam frustrado, pelo contrário, reforçavam sua certeza de quão difícil de ser compreendido ele era, o que tomava como seu troféu particular.

A indicação desta vez foi de um amigo da campanha. Aquele com quem brincara enredado nos novelos vivos de lá durante muito tempo de sua infância, juventude e … opa … nos dias de hoje também. Sabe como são as paixões antigas, vem e vão, vão e vem.

Abotoou sua camisa branca de colarinho impecavelmente engomado, bateu três vezes na madeira do móvel da cozinha (tinha que ser lá) com o indicador direito (tinha que ser com esse) e partiu em direção ao consultório, desviando as frestas desenhadas naturalmente na calçada pela conformação das pedras.

Na sala de espera, tocou a campainha e estendeu seu lenço branco na poltrona antes de sentar-se. “Nunca se sabe quem sentou aqui antes”, pensou. Não demorou muito para um homem abrir a porta. Estranhou a bombacha e a alpargata. Realmente nada convencional. Estava aí algo de novo, pensou.

Ao lado do divã coberto por um pelego maleado, a térmica, cuia e bomba denunciavam o mate. Detestava essas coisas que passam de mão em mão. Impossível não ter o pensamento remetido ao folclórico Analista de Bagé, dos contos de Luís Fernando Veríssimo. “Seria o próprio?”

_ Já vi que tu gosta de um chimas. (diz o doutor na tentativa de quebrar o gelo, batendo-lhe forte às costas). Pois fica à vontade e te abanca!
Nem precisava dizer. O tapa nas costas fora tão forte e o pegou de forma tão desprevenida que subitamente viu-se confortado pelos carrapatos do pelego malhado.
_ Mas e daí, desembucha!
Ainda meio tonto, resolveu ir direto ao assunto:
_ Qual a sua linha doutor?
_ Mas que linha vivente, eu lá tenho cara de vovó tricoteira?
_ Não doutor, a linha, como se comunica …
_ Ah sim, linha telefônica. Tenho celular também, mas é só pra nêga veia e pros guri lá de casa.
_ Não doutor, linha, entende? Preciso saber da sua opção.
_ Não me venha com frescuras, sou é macho. E se não gostou, a porteira de saída é a mesma da entrada.
_ Eu me refiro à sua corrente, é importante para eu ver se vou me ajustar.
_ Putz, mais um fresco sadomazoquista! Olha aqui ô cidadão, (disse o doutor apontando para um dos cantos da sala) aquele relho é enfeite, mas não te empolga que ele ta loco pra ser inaugurado.
_ O que quero saber é se você segue Freud, Young, Lacan, Winicot, Bion …
(interrompeu-lhe abruptamente o doutor)
_ Pêra lá! E eu lá sou de seguir homem por aí? (batendo as esporas de brabo)
_ Ah, então você prefere a Melanie!
_ Hmmm, buenas isso depende. (recostando-se novamente na poltrona finamente decorada com uma sela). Como é essa prenda?
_ Não doutor você não está me entendendo. Minha dúvida é sobre sua linha, sua posição …
_ Nunca fui muito do futebol. Mas no GFC (essa era a abreviação de Guasca Futebol Clube, ainda na época da peleia com bucho de boi) ia pela linha lateral até a linha de fundo. Mas também fazíamos a linha de impedimento …
_ Vou tentar de outra forma: você é ortodoxo?
_ Católico apostólico romano. Praticante. Todo domingo tô lá no padre Alfredo. Duas óstias por missa pra garantir a benção.
_ Não é a esta linha que me refiro … Você é biológico ou psicológico?
Era a gota d’água. Sem mais compostura, o doutor perdeu definitivamente a linha (ainda não sabemos qual), arremessando Péricles porta afora, acompanhado de tantos impropérios quanto seu vocabulário alcançava.
E voltando ao consultório, vestiu o lenço chimango no pescoço e colocou seu chapéu de couro legítimo enquanto servia aquele mate ardente falando consigo mesmo:
_ Cada maluco que aparece. Não sei como o patrão agüenta. Ainda bem que amanhã ele já tá de volta …