Vida remota

Valter Hélio acordou tarde. À tarde para ser mais preciso. Considerava aquele seu merecido descanso para uma semana sem tempo sequer para cumprimentar o porteiro. Espreguiçou-se confortavelmente na cama e lançou mão do controle remoto para ligar a televisão. Na tela um programa chato não lhe perturbou, já que o Valter Hélio acordou tarde. À tarde para ser mais preciso. Considerava aquele seu merecido descanso para uma semana sem tempo sequer para cumprimentar o porteiro. Espreguiçou-se confortavelmente na cama e lançou mão do controle remoto para ligar a televisão. Na tela um programa chato não lhe perturbou, já que o relógio indicava que em seguida entraria no ar algum jogo de futebol. Era um fanático inveterado. Nem precisou levantar-se para abrir o pequeno congelador e sacar uma cerveja bem gelada. Mas o desejo daquela pipoquinha salgada o fez ir até a cozinha e perder alguns minutos no forno de microondas. Sem sujeiras. Lavar louça era um porre. De volta à cama e ao controle remoto, zapeou alguns canais e acabou retornando ao mesmo. Hora do jogo, times entrando em campo.

Uma semana depois, tudo teria se repetido, não fosse o acidente automobilístico sofrido. Devia ter olhado antes de atravessar, culpou-se, muito embora o médico atribui tudo ao infarto sofrido naquele fatídico instante. De qualquer forma, já era tarde para fazer alguma coisa senão observar o teto do seu quarto e a televisão à sua frente. Havia mais programas chatos do que imaginara até então. Pior. Agora faltava muito, muito tempo para o próximo jogo de futebol. Lamentou não poder se inclinar para abrir o refrigerador e pegar uma cerveja gelada e em pular da cama e retornar em poucos minutos com uma pipoca salgada. Mas ressentiu-se profunda, verdadeiramente e acima de tudo, em não poder mais usar o tão estimado controle remoto.