Do Paranaíba ao Guaíba

No início era a pradaria e um tropel de cavalos. A tropa e os tropeiros só
marcharam ao mesmo lado mais tarde. O brasil meridional, marcado pelo fenômeno generoso do pampa gaúcho nasceu assim com a mágica do campo e a figura do campeiro. O gaúcho.
Depois, vieram as guerras e com elas, marcada a ferro e fogo, a presença de brasileiros com direito a um nome: gaúchos.

O Brasil central, no início, era a estepe. E da estepe brotaram o ouro, a
esmeralda e o homem do campo. Com o fim das minas e dos aluviões, vieram os campos e a noção de distância (Goyaz é muito longe…).
A lua e a dolência do que sonha à distância do reino marcaram corações em brasa para brasileiros de um nome que a poeira do tempo quer apagar: goyanos.

Se as duas porções do Brasil fazem parte da sua geografia interior, você
provavelmente será um leitor dessas croniquetas. Há os rios que nos
acompanham em nossos pesares e sonhos. Há os livros, as canções e as
tradições que nos encantam e nos divertem, em nossa busca por marcar a nossa permanência no mundo

Haverá lugar para as preces e as rezas, as ladainhas e as festas, as danças e os folguedos. À promessa ao amigo Reinehr que anima o Simplicíssimo, sob a égide de nossa proximidade no espaço virtual, começo respondendo motivado pela distância geográfica, com esta primeira crônica que ressalta a dimensão mais importante desses dois braseiros (brasis) que batem ao lado esquerdo do meu peito – somos movidos pela distância.

O cronista Alceu de Amoroso Lima saudando um de meus poetas prediletos – o gaúcho Augusto Meyer, lembrava que a correspondência intensa entre os dois escribas, minguara quando Meyer rompeu a ponte Guanabara-Guaíba, estabelecendo-se no Rio. E lamenta que essas cartas "nunca mais se renovaram!"

"A distância, dizia La Rochefoucauld, é como o vento, que apaga as velas e ateia os incêndios. O amargo moralista aplicava a imagem apenas ao amor. Podemos também levá-la aos domínios da amizade."

Os fados, dizia Amoroso: com a proximidade desceram também sobre eles "a cortina do silêncio que a proximidade, por vezes, engrossa mais do que as distâncias…".

A distância nesse caso é o obstáculo geográfico entre os dois brasis, que uns poucos superaram na década de 70, como eu, quando me mudei para Porto Alegre e como muitos que vêm se mudando para a dita "última fronteira agrícola", chegando a Goyaz nos tardios 80 e que continuam fazendo até hoje.

Em Goyaz, grafado assim pela nostalgia, as nações indígenas e os negros dos quilombos plantaram um Brasil Central totalmente diferente do quadrilátero em que se erigiu Brasília.
Os que vieram em busca de um El-Dorado nunca de todo realizado não saíram de mãos vazias nem sua generosidade foi esquecida no canto dos poetas do passado que se somam ao canto dos atuais. Goiás é um pedaço do Brasil que guarda na Cidade de Goiás (antiga Vila Boa) e em Pirenópolis o melhor de nossas tradições.

E se puder aproximar os Simplicíssimos leitores dos dois gentílicos surgidos com o correr do homem no pampa e a sua presença no cerrado, nos grotões do sertão ou na distância dos banhados pampeiros – eu terei logrado criar um novo verbete que já está na boca dos meninos que freqüentam os CTG´s em pleno cerrado e dos moços que se educam nas universidades e nos cursos de extensão de Porto Alegre: repetiriam comigo: somos "goyuchos".

Da goyana terra, transcreverei poemas e canções como esta que fecha a
primeira crônica, sempre procurando cruzar o vau, juntar os dois veios d´água viva que encantam nossa gente, retratar a beleza que escorre nos seres e nos rios generosos de Goyaz – Araguaia afora, e do Rio Grande como o Guaíba. (AQ).

Goyaz (*)

Terra moça e cheirosa
(…)
Nome bonito – Goyaz!
Que prazer experimento
sempre que o leio
nos vagões em movimento,
com aquele Y no meio!

O fordinho e o chevrolet,
rasgando campos, furando matas,
vão, a trancos e barrancos,
rumo às cidades pacatas
que brotaram no sertão.
(…)
Nas pautas musicais
do arame dos mangueiros,
que gênio irá compor
os motivos dos currais,
os desafios brejeiros
e as cantilenas de amor?

Goyaz! recendente jardim,
feito para a volúpia dos sentidos!
Quem vive neste ambiente,
sorvendo o perfume de seiva
que erra no ar;
quem nasceu numa terra assim,
porque não há de cantar?

(*) Fonte: "Ontem", de Leo Lynce (1928), transcrito por G.M.Teles in A Poesia em Goiás, Ed. UFGo, 2.ed., 1983. p.299/300.