O assassinato

Não sei como isso foi acontecer, um impulso talvez, apenas aconteceu…
Eu simplesmente a matei, tentaram entender o porquê daquilo e eu não soube explicar. Fui a julgamento.
Pessoas ilustres me apontando, querendo saber o motivo.
Eu disse: – Foi culpa da reforma!
– Da reforma? Vozes ecoaram na sala.

Não sei como isso foi acontecer, um impulso talvez, apenas aconteceu…
Eu simplesmente a matei, tentaram entender o porquê daquilo e eu não soube explicar. Fui a julgamento.
Pessoas ilustres me apontando, querendo saber o motivo.
Eu disse: – Foi culpa da reforma!
– Da reforma? Vozes ecoaram na sala.
Sim, da reforma! Falei, timidamente nervosa.
O juiz mandou-me explicar.

Tudo começou porque eu tinha muito o que falar, várias coisas passando pela minha cabecinha, palavras e ideias foram acumuladas durante muito tempo. Então, simplesmente um dia eu comecei a escrever, e escrever, e escrever… No começo, só algumas partes doentes, imperceptíveis, uma vírgula esquecida, um ponto final distante demais. Foi então que surgiu a reforma ortográfica e, em seguida começou a chacina…

Cadê os acentos?! Onde foram para os hífens, pelo amor de Deus?! O trema era tão bonitinho… Tudo que, aos poucos, aprendi, estava sendo mudado, e eu comecei a assassinar a Língua Portuguesa, foi um processo de longa tortura até chegar o assassinato total.

Depois de ouvirem a minha defesa, deram-me quatro anos de reabilitação para me adaptar à nova reforma ortográfica, caso contrário, terei que realizar trabalho voluntário dando aulas de Matemática e Física para alunos do quinto ano. É quase uma pena de morte a longo prazo.

Após julgamento.

 

Enfim, absorvida.