Em busca do ouro negro

Na inauguração do Tabuletas de Silício vamos falar sobre uma tropa que foi arregimentada por um império e enviada a outro continente com o único objetivo de atacá-lo e ocupá-lo em busca do tão cobiçado ouro negro, muito abundante naquela nação. Familiar, não? 


PARTE I

A INVESTIDA HOLANDESA
 
Mas se ao ler esta introdução, você pensou que vamos tratar aqui sobre uma invasão estadunidense a algum país cheio de petróleo, se enganou redondamente. Mas não se preocupe, era esta mesmo a intenção.
 
Vamos iniciar hoje a história, contada em duas partes, de uma força expedicionária luso-brasileira, de caráter privado, formada por um fidalgo português de nome Salvador Correia de Sá e composta, em sua maioria, por voluntários cariocas que, movidos pela falta de negros nos engenhos brasileiros, decidem invadir e reconquistar Angola à coroa portuguesa, liberando-a definitivamente dos holandeses.
 
Para entendermos um pouco melhor esta história, é necessário viajarmos quase seis séculos no tempo para recordar que, foi ainda no século XV, que Portugal iniciou sua expansão marítima pela África conquistando Ceuta, no ano de 1415. Nos anos seguintes, os portugueses foram estabelecendo diversas feitorias ao longo de toda costa ocidental africana por onde seus navios atracavam. Um dos principais objetivos destas feitorias era explorar comercialmente as riquezas locais e formar monopólios comerciais que seriam controlados pela coroa portuguesa. Isso ocorreu com o ouro, o marfim e os escravos africanos durante a quase totalidade dos séculos XV e XVI. Contudo, no início do século XVII, esse quadro mudou radicalmente com a entrada da Holanda na disputa pelo monopólio colonial. A situação que era tranqüila para Portugal, se transforma em um verdadeiro inferno dantesco.
 
Depois de ter tomado posse de quase todos os domínios portugueses nas Índias Orientais, atrás do mercado de especiarias, em 1630 a Holanda invade também o Recife e toma o lucrativo mercado açucareiro das mãos dos portugueses. Após a tomada do Recife, não demorou muito para que os holandeses percebessem a relação intensa que existia entre o açúcar brasileiro e o tráfico de escravos africanos. Tal relação era tão visceral que o Padre Antônio Vieira chegou a escrever em uma de suas cartas que sem os negros Pernambuco não existiria, e sem Angola não haveria negros[1]. Assim sendo, logo após de estabilizarem a ocupação do Nordeste brasileiro, os holandeses decidiram tomar também o tráfico de escravos das mãos dos portugueses e iniciaram a preparação de uma poderosa frota com o objetivo de invadir e ocupar São Paulo de Luanda, importante centro de tráfico negreiro localizado na Angola.
 
Foi então que no mês de maio de 1641, os holandeses enviaram, do Recife, uma frota militar composta por vinte e um navios e três mil homens comandados pelo capitão Cornelis Jol, conhecido popularmente por “Houtbeen” (Perna-de-pau)[2]. Tendo esta frota atingido a costa africana aos 9 de agosto de 1641, ela só tomaria definitivamente Luanda no dia 26 de agosto daquele mesmo ano.
 
Um fato curioso que foi de fundamental importância para a tomada da cidade de Luanda, foi a ajuda providencial que os holandeses receberam de um mercador espanhol que chegara à cidade para abastecê-la de vinho. Antes da chegada desse mercador, Cornelis Jol e sua armada estavam vagueando pela costa africana por não saberem a localização exata da entrada da baía. Foi somente após chegar à costa da África, no dia 9 de agosto, que descobriram que ninguém a bordo sabia tal localização. Depois de algum tempo nesta indecisão, o capitão viu com extrema alegria dois de seus navios trazendo apresados consigo o Jesus Maria José, navio mercante comandado por um espanhol. O fato é que o comandante do Jesus Maria José, talvez por se ressentir da recém independência portuguesa da coroa espanhola, não só indicou a localização da entrada da baía de Luanda aos holandeses, mas também, o local ideal para o desembarque destes, numa praia localizada à meia distância de dois fortes, onde os canhões portugueses não poderiam atingi-los. Com esta informação em mãos, os portugueses pouco puderam resistir e, na manhã do dia 26 de agosto de 1641, tendo perdido somente três homens, a cidade de São Paulo de Luanda havia sido tomada das mãos dos portugueses.
 
Tão logo chegara a Europa e América a notícia da tomada de Luanda pelos holandeses, não só Portugal e Espanha entraram em polvorosa, mas também os senhores de engenho no Brasil. Agora que Holanda detinha Pernambuco, o principal centro produtor do açúcar e Angola, fonte quase que exclusiva da mão-de-obra para os engenhos brasileiros, seguramente os outros centros produtores do Brasil português, como a Bahia e o Rio de Janeiro, sofreriam com a carestia de escravos, seja porque os holandeses não comerciariam com estes centros, seja porque elevariam demasiadamente o custo do escravo. Estaria montado, então, o cenário que motivou portugueses e brasileiros a armarem a expedição de reconquista de Angola.
 

NA PRÓXIMA SEMANA, SERÁ PUBLICADA A PARTE II DESTA AVENTURA LUSO-BRASILEIRA, NÃO PERCAM!!!!



[1] Boxer, Charles R, Salvador de Sá e a luta pelo Brasil e Angola 1602-1686, pp.252.

[2] Boxer, Charles R, Salvador de Sá e a luta pelo Brasil e Angola 1602-1686, pp.253.