Desamarrando nós

O dia não avisou que estava vindo. Somente quando olhei para fora e vi o clarear do fim da noite, foi que ouvi galos cantarem ao longe.

Não sei que motivo leva algumas pessoas manter galos em casa numa cidade que se diz moderna. Sabia apenas que aquela seria minha última noite naquele lugar. Não dormi, mas acordei com vontade de mudar.

O dia não avisou que estava vindo. Somente quando olhei para fora e vi o clarear do fim da noite, foi que ouvi galos cantarem ao longe.

Não sei que motivo leva algumas pessoas manter galos em casa numa cidade que se diz moderna. Sabia apenas que aquela seria minha última noite naquele lugar. Não dormi, mas acordei com vontade de mudar.

Apesar do cansaço do dia anterior, uma quarta-feira bem movimentada, estava muito disposto e não sentia necessidade de descansar. Pelo contrário. Não via a hora de poder sair de casa, ir ao escritório pedir demissão e à faculdade trancar a matrícula do curso de filosofia que estava na metade.

Depois seria a hora de comunicar a meus pais que estaria saindo da cidade. O mais difícil a fazer.

Tinha plena consciência do que aconteceria. Ambos ficariam perplexos. Meu pai, colérico, perguntaria se eu estava louco e o que eu estava pensando da vida. Minha mãe começaria a chorar, olharia para o teto e perguntaria a Deus se foi para isso que havia me criado, o que fizera de errado e coisas desse tipo.

Enquanto eles faziam isso, eu iria até meu quarto buscar minha mala que deixara pronta e diria a eles que ligaria assim que chegasse a algum lugar. Os nós que me mantinham ali seriam facilmente desamarrados.

Além do trabalho e da faculdade – os quais eram dispensáveis para mim naquele momento – havia os amigos e a família. Estes eu poderia carregar no coração e na mente para onde quer que eu fosse. O mesmo eu não poderia dizer do meu suposto amor. Deixá-la não seria muito difícil. Seria, até, um alívio para nós dois. Nossa relação de quase um ano estava desgastada havia muito. Precisaria vê-la com urgência. Ligaria marcando um encontro. Na rodoviária, talvez. Não seria tão difícil.

Ficaria surpresa com aquela imagem: eu, uma mala, e minutos depois, um ônibus. Não precisaria de muitas palavras. Diria que nossa relação estava muito complicada e que seria melhor terminarmos enquanto ainda existia algum respeito mútuo. Ela me faria algumas perguntas, eu as responderia, diria que estava “cheio de tudo e de todos”. E só. Lhe desejaria o melhor e prometeria mandar notícias em breve.

Deitado aqui, agora, imagino se teria mesmo coragem de fazer tudo isso.

Mas a preguiça de levantar me faz seriamente pensar em voltar a dormir.