O caso Katilce

 Segunda-feira (20/02/2006), show do U2 no estádio do Morumbi, em São Paulo. São mais ou menos 23:30, e Bono Vox, vocalista da banda, convida uma garota para subir no palco e lhe fazer companhia enquanto canta "With or without you", talvez a mais romântica das canções da banda.

  Segunda-feira (20/02/2006), show do U2 no estádio do Morumbi, em São Paulo. São mais ou menos 23:30, e Bono Vox, vocalista da banda, convida uma garota para subir no palco e lhe fazer companhia enquanto canta "With or without you", talvez a mais romântica das canções da banda.

  Os fãs do quarteto irlândes já estão acostumados a assistir tal cena. Na turnê "Pop-Mart", em 1998, no Rio de Janeiro, Bono fez o mesmo. E em tantos outros shows da banda que não assisti.

  Nesta turnê não seria diferente. Não apenas eu, mas creio que todos os fãs da banda, esperavam por aquele momento que quase sempre é de muita emoção.

  Mas, não sei por quê, quando Bono pediu para levarem a garota até o palco, tive a sensação de que algo não estava certo.

  Não senti o "clima" de "With or without you". No momento em que The Edge tocou os primeiros acordes da canção, parece que Bono pensou "Bom, lá vou eu de novo". A garota subiu no palco toda sorridente e não chorou em momento algum da música. Não é uma regra, mas ela deveria ter chorado.

  O que importa é que eu estava certo. As "condições climáticas" daquele momento não foram favoráveis a "With or without you". A garota – Bono perguntou seu nome, chama-se Katilce -, quando estava prestes a voltar do lugar de onde veio, pediu um beijo ao vocalista. Ele, que algumas músicas antes dera um selinho em Adam Clayton, o baixista, fez o mesmo com ela.

  Terça-feira (21/02/2006), 11:00, mais ou menos. Um amigo (Thiago, um dos meus comparsas de blog) me manda, via MSN, o link para o perfil de Katilce no Orkut (site de rede de contatos no qual cada usuário tem uma página com seu perfil, fotos, uma página para recados, e outras para expor informações que desejar, como telefone, email, site, etc.).

  Curioso que sou, vou conferir. No álbum de fotos dela, uma do Bono.

  Noto que ela tem uma quantidade de recados muito grande (qualquer participante do Orkut pode deixar recados para qualquer outro usuário). Clico na página de recados. Muitos, mas muitos mesmo. Centenas de pessoas acessam o perfil de Katilce. Alguns anunciam produtos ou serviços. Alguns são hostis. Outros, amigáveis. A maioria é sem noção mesmo. Alguém deixa um link. Clico. Vou parar numa comunidade que criaram para ela.

  Na verdade, em uma das dezenas de comunidades que fizeram em sua "homenagem". São tantas, e tão absurdas, que não vale a pena citar nomes. Darei apenas um exemplo: "Katilce para presidente".

   O transtorno para ela seria enorme se fosse apenas isso. Mas tem mais.

  Alguém descobre seu telefone, o telefone de sua irmã, encontram o perfil do seu namorado. E espalham todas essas informações. O rapaz se torna motivo de piadas e hostilidades. Até uma negociação que ela fizera num site de leilões – pretendendo comprar um cd de tiragem limitada do U2 – conseguem descobrir.

  Eu poderia discorrer sobre o que – por coincidência – meu professor de teoria literária (o escritor Mayrant Gallo) – comentou conosco em uma de suas últimas aulas: vivemos na época do efêmero, das celebridades instantâneas.

  Mas não. Disso todos estamos carecas de saber.

  Digo apenas que o inferno que Katilce vive no momento – porque é um inferno ter sua vida invadida dessa maneira – é obra de nossa juventude. Pois são jovens os que ligam para Katilce, comentam bobagens nas comunidades e importunam o seu namorado. Juventude essa da qual faço parte.

  Madrugada de quinta-feira (23/02/2006), 01:45, mais ou menos. Escrevo esta crôniqueta e me pergunto o que os jovens farão com o nosso futuro.

  Prefiro não saber.