Por pouco

 Desceu do apartamento, ligou o carro e foi-se. Na hora do almoço resolveu andar um pouco, esfriar a cabeça. Apesar dos perigos que corria, Eduardo não deixava de fazer suas vontades. Percorreu alguns metros. De repente alguém se aproximou.
  – Calado, ou morre agora.

  Dormir era algo impossível para ele ultimamente. A gravidade do seu caso era tão grande que seu chefe propôs-lhe algumas folgas.
  – Assim você não aguenta. Está que é um lixo!
  – Ora, deixe-me em paz! Estou ou não fazendo meu trabalho?
  – Está, mas…
  – Mas nada! De mim cuido eu – dito isso, virou as costas e bateu a porta.
  Podia falar assim com seu superior. Sempre fora o destaque do jornal, e ultimamente, era mesmo – e apenas ele – a bola da vez. Sabe-se lá Deus como, conseguiu um furo de reportagem histórico. Descobriu que políticos de primeira grandeza – senadores e ministros até – mantinham ligações com o crime organizado e o narcotráfico. Os nomes ainda não haviam sido divulgados, mas ele tinha uma lista com todos eles guardada a sete chaves.
  Eduardo Fonseca nunca gostou de badalação. O sucesso de Eduardo era resultado de sua competência. Seu nome era citado em conferências, revistas especializadas, enfim, ele era uma referência para qualquer jornalista.
  Mas coloquemos esses detalhes de lado. É chegada a hora de saber porque Eduardo Fonseca não consegue dormir ultimamente. Desde que começou a fazer a tal reportagem, Eduardo vem sendo ameaçado de morte. Todas as noites sonha com o fim da própria vida. Alguns amigos o aconselham a tomar algum remédio para dormir, mas ele tem medo de que alguém entre em seu apartamento e o encontre dopado. Seu sono leve o previne de alguns infortúnios, quando como no dia em que despertou ao ouvir barulhos vindos da cozinha. Acordou, e de revólver em punho, verificou que era apenas o gato do vizinho revirando alguns restos de comida.
  Certo dia, foi para o trabalho como normalmente o faz. Desceu do apartamento, ligou o carro e foi-se. Na hora do almoço resolveu andar um pouco, esfriar a cabeça. Apesar dos perigos que corria, Eduardo não deixava de fazer suas vontades. Percorreu alguns metros. De repente alguém se aproximou.
  – Calado, ou morre agora.
  Nada pôde fazer. Eduardo foi forçado a entrar num desses becos escuros e desertos, iguais aos vários que existem por aí. Depois, ninguém ouviu os tiros que o mataram.
  Assustado, Eduardo Fonseca levantou, foi ao banheiro e lavou o rosto.