Tudo ao mesmo tempo agora

Onze da manhã. Tirou do bolso o maço de cigarros.

Sentado esperando o ônibus, pensava em como deixara sua vida chegar àquele ponto.

Tudo que lhe servia de chão desabou enquanto corria.
“Aconteceu tudo muito rápido”, pensou.

Onze da manhã. Tirou do bolso o maço de cigarros.

Sentado esperando o ônibus, pensava em como deixara sua vida chegar àquele ponto.

Tudo que lhe servia de chão desabou enquanto corria.
“Aconteceu tudo muito rápido”, pensou.
Enquanto caía, lembrou que não havia rede de proteção. Foi removida no apagar das luzes. Quando se deu conta de que podia se levantar, começou a procurar saídas.
Tudo o que tinha em mãos se resumia a algumas roupas, um maço de cigarros e algum dinheiro. Com muita sorte e o mínimo de gastos poderia talvez passar dois meses morando naquele lugar que evita chamar de casa. Precisava encontrar um emprego o quanto antes.
Cigarro entre os lábios, buscou o isqueiro. Foi forçado a alterar o horário de seu vício. Costumava fumar à noite. Antes da queda. Agora seu vício acompanhava sua angústia. Se o maço de cigarros não lhe custasse uma boa parte do pouco dinheiro que lhe restava, fumaria durante todo o dia. Precisou impor limites. Eram dois pela manhã, dois à tarde e um à noite. Nessa conta não entram os que ele consegue com estranhos.
Era uma manhã tranqüila. Debaixo da sombra de uma árvore ele aguardava pacientemente o ônibus que em poucos minutos viria a seu encontro.
Sacou o isqueiro. Acendeu o cigarro na terceira tentativa.
Quando deu a primeira tragada, um vento agradável passou por ele trazendo a notícia de que em breve sua angústia chegaria ao fim.
Como que esquecido da realidade, assustou-se ao ouvir repetidas vezes a buzina do ônibus.
Cada vez mais perto.