A saudade dela

Sinto que está no abraço solidário e no olhar cúmplice, entre pessoas que se prezam, um pouco da razão do nosso existir…

A saudade dela

Por Luiz Maia
“Sinto que está no abraço solidário e no olhar cúmplice, entre pessoas que se prezam, um pouco da razão do nosso existir…”

De repente uma imensa saudade me invade. Sou tomado pela saudade da amiga distante. Chega a incomodar e a pedir que eu faço algo. Penso em telefonar-lhe. Talvez assim eu possa enganar-me mais uma vez. Imaginar poder diminuir essa distância que atropela minha necessidade dela. Sim, aqui assumo essa carência oceânica de quem gosto e admiro tanto. E essa vontade louca de abraçá-la fala alto e me faz chorar. Penso em sua vida e nos momentos difíceis que passa. A lembrança quando chega em forma de saudade, infinita saudade, geralmente machuca e amplia a nossa consciência de como somos impotentes e limitados diante de simples desejos que bem poderiam ser realizados, mas que infelizmente se perdem no tempo e viram esperanças desfeitas, sonhos sepultados. E geralmente é tão pouco o que queremos… Sinto que está no abraço solidário e no olhar cúmplice, entre pessoas que se prezam, um pouco da razão do nosso existir…

Saber como vai seu caminhar é a única coisa importante que me resta fazer agora. Sei que é praticamente impossível uma conversa sem que a impeça de mexer na sua dor. Dor cuja vontade mesmo é de vê-la livrando-se para sempre. Ver sucumbir de vez e introjetar um pouco de esperança em seu coração. Mostrá-la quão importante é para todos àqueles que a amam. Fazer vê-la que é sempre tempo de recomeçar. Que é preciso seguir adiante. Ir ao encontro dos amigos que a esperam. Buscar sorrindo a felicidade que é sua, desmistificando a impressão de dor permanente em seu coração. Que o tempo passado não nos cabe nenhuma ação transformadora, a não ser contemplá-lo e extrair inúmeras lições para os dias que virão. Mas no amanhã podemos e devemos interferir, moldando-o aos nossos melhores e saudáveis desejos. O amanhã é todo seu… Penso reunir forças, pegar o telefone e ligar…

Não consigo. Sou tomado de súbita covardia. Espécie de medo paralisante me conduz ao silêncio contemplativo. Receio não obter boas notícias. Prevalece o temor de saber que a sua dor fora ampliada. E sua dor sempre foi minha também. Essa emergente covardia poderia muito bem salvar-me de um eventual dissabor. Mas que pensará de mim ao saber que me quedei a esse estranho medo? Por outro lado essa incerteza vai corroendo minha estrutura e me leva ao desânimo. Imagino-me um ser inútil. Imprestável para se fazer presente num possível momento de aflição e desesperança vivido por esse alguém querido que tanto influenciou os meus passos, e hoje me sinto preso ao chão sem esboçar um único gesto, uma só atitude que pudesse fazê-laenxergar que é preciso seguir adiante, perseverando sempre e mantendo fé na vida. Penso que não vale a pena viver assim, sem arriscar e tentar modificar uma situação que nos pareça difícil.

Definitivamente chego à conclusão que doar-se sem meias palavras é a premissa que deve nortear nosso viver, nosso entendimento de vida e de mundo. Doar-se ao outro de coração é algo tão nobre que não pode ser aquilatado nem dimensionada sua importância. Irrelevantes tornar-se-ão os medos e receios que porventura venhamos a sentir diante de qualquer situação que nos apareça. As distâncias tenderão a diminuir e a saudade já não será tanta. E, por mais difícil que seja o problema, vindo mesmo a acarretar uma dor imensa, a ponto do desencanto abrir espaços para o desânimo total,nenhuma dor encontraria melhor guarida que uma mão estendida e um abraço amigo. No seu devido tempo. Na hora certa.

Recife, 9 de novembro de 2005