Aparências

Preocupa-me o destino sombrio das relações interpessoais. A informatização da sociedade aliada à violência nas grandes cidades têm levado as pessoas a saírem cada vez menos de suas casas. Aumenta o número de amizades virtuais em detrimento do contato pessoal.

Preocupa-me o destino sombrio das relações interpessoais. A informatização da sociedade aliada à violência nas grandes cidades têm levado as pessoas a saírem cada vez menos de suas casas. Aumenta o número de amizades virtuais em detrimento do contato pessoal. Vejo cada vez mais pessoas interagindo com as máquinas em salas de bate-papo, participando de listas de discussão, todas envolvidas com as facilidades da informática. Quase não vejo mais ninguém se encontrando nas ruas, pessoas felizes sem ter local certo para onde ir e muito menos hora certa para voltar.

É certo que muitas aparentam ser felizes, embora estando distante anos-luz da sadia participação no mundo real. A violência por si amplia a necessidade de ficarmos mais em nossas casas, como a nos proteger das maldades do mundo. Acostumados a viver em seus casulos, o homem segue caminhando sem muitas companhias. Quando somos forçados a nos afastar uns dos outros, banal e irreversivelmente, é porque algo anda errado nas relações humanas.

Essa divagação traduz a minha insatisfação, além do olhar crítico de alguém que não comunga com o desperdício do verdadeiro viver por parte de centenas de jovens hoje em dia. A vida tornou-se frenética e os prazeres duvidosos. Diante dessa realidade o homem passa por momentos de muita procura. Às vezes eu penso em me encontrar com pessoas reais, porque já não há mais tempo para nada. Preciso ver gente. Pessoas com as quais mantenho contatos virtuais diariamente, mas que nunca as vejo e pouco sei de suas vidas. Mas sei que esse meu desejo não vai florescer.

Essas coisas me fazem imaginar como seria oportuno um encontro para trocarmos um forte abraço, instante propício para ensaiarmos uma longa conversa. O meu entendimento de que as relações humanas estão cada vez mais empobrecidas certamente me conduzirá por caminhos que me levarão a inevitáveis lembranças. O certo é que já não existem mais encontros, nem os abraços, muito menos os toques de antigamente… Eu sinto falta por compreender que essas coisas oxigenam a vida.

O mundo entrou na era da informatização e não há mais volta. Sinto saudade do cheiro de flores, das idas aos bares, dos parques floridos e das sombras das árvores onde nos encontrávamos para uma simples conversa de fim-de-tarde. Como não sentir saudade de pisar no chão descalço, do jogo de bola, saudade de comer frutas em cima das mangueiras nos quintais. Eu só entendo a vida quando vivida em total comunhão com a natureza, entre pessoas que se amam e se querem bem.

Sinto a falta do calor dos abraços que já não são mais meus, da ausência de falas descompromissadas com preocupações outras, dos risos inconseqüentes e dos amores que estão por vir. Sou carente de coisas simples: das conversas amenas nos restaurantes à beira-mar de Olinda, do papo descontraído na alegria da chegada de mais um fim-de-semana, onde nos reuníamos à procura de um recanto aprazível para extravasarmos a nossa sede. São coisas simples que eu vivi um dia e que certamente davam um melhor sentido à nossa própria existência. Sou feliz. Mas o mundo envereda por caminhos que eu jamais escolheria para os meus filhos.

* Autor dos livros "Veredas de uma Vida", "Sem Limites para Amar" e Cânticos" – http://geocities.yahoo.com.br/maialuiz/     
 
Recife, 1 de março de 2006