Mel de engenho

Aquelas moças à minha volta, aquele cheiro de pureza no ar, o viço presente em cada rosto, as inocentes insinuações em cada troca de pernas, tudo isso e muito mais me remetiam a pensar que era ali o paraíso que eu tanto buscava.>

Mel de engenho

Por Luiz Maia *
A pacata Catende, pequena cidade do interior pernambucano, situada a 120 quilômetros do Recife foi, durante a minha infância razão de saudáveis e indiscutíveis momentos de alegrias que, de tão significativas para mim, permanecem até hoje vivas em minha mente. São tantas as lembranças: o cheiro de mel de engenho no ar entrava pelas narinas e nos remetia a pensar que tudo ali tinha sabor de acúcar. A passarada, pelas manhãs, a cantar nas janelas; os passeios a cavalo até a Usina Roçadinho, embora estafantes, eram superdivertidos; o nomoro à frente da igreja não podia deixar de acontecer. E assim eram os nossos dias naquele paraíso encravado na Zona da Mata Sul de Pernambuco. Quem diria que um dia iria sentir fortes saudades dali e até dizer “bons tempos aqueles”?
As pessoas do interior são simples e as amizades fluem com maior naturalidade. Era comum ver os amigos dos meus primos entrando em casa sem a menor cerimônia, como se fossem já parte integrante daquela família. Aquela convivência me possibilitou enxergar alguns valores que hoje não estão presentes entre nós: a solidariedade e a confiança mútua. As amiguinhas das minhas primas, ao saberem que eu estava por lá, vinham em grupo e, muito à vontade, sentavam-se no chão do espaçoso terraço a comer frutas e a me fazer perguntas, com a finalidade de me encabular. E conseguiam – embora eu estivesse mesmo era com a maior vontade de dar vazão ao meu instinto de macho, ao fazer mil elucubrações na vã tentativa de saciar o meu desejo, buscando ter um caso com qualquer uma que assim se permitisse.
Aquelas moças à minha volta, aquele cheiro de pureza no ar, o viço presente em cada rosto, as inocentes insinuações em cada troca de pernas, tudo isso e muito mais me remetiam a pensar que era ali o paraíso que eu tanto buscava. E eu, na minha ignorância de pré-adolescente, imaginava ser o “dono do pedaço” e que todas elas estavam a me disputar. Quanta pretensão! Eu não intuía que estávamos exercitando, inconscientemente, nossa sadia sensualidade, ainda indomada e não cerceada por padrões e conceitos estabelecidos pela sociedade.
O meu tio, Jaime Albuquerque, era um homem muito querido ali. Era Coletor da cidade e seu prestígio atravessava fronteiras. Por seu jeito alegre, brincalhão e divertido era considerado peça fundamental do principal clube da cidade – o Clube Leão XIII de Catende, onde foi por diversas vezes Diretor Social. Esteve sempre à frente do Leão XIII Futebol Clube que na década de sessenta ficara famoso e elevava o nome da cidade por onde passava. Ser sobrinho de Jaime Albuquerque facilitava sobremaneira minha vida ali e os privilégios eram notórios: podia jogar bola no campo sem o menor problema, os cavalos da Usina Roçadinho estavam sempre à nossa disposição. No clube, entrávamos a qualquer hora. E assim os meus dias passavam rapidamente, na companhia aprazível e amiga daquela gente do interior.
Por diversas vezes, embrenhei-me nos verdes e saudosos canaviais das Usinas Catende e Roçadinho, passeando em cima de robustos e rápidos cavalos, pertencentes à Usina Roçadinho, à época do empresário Cid Feijó Sampaio. E foi num desses passeios que conheci a triste e miserável condição de vida daqueles pobres trabalhadores rurais. Muitos vivendo em míseras casinhas de taipa, em companhia de uma considerável prole, sendo esse o indicador maior de que ali havia vida. Diante da nossa presença, todos, sem exceção, ficavam amedrontados e corriam para trancar suas portas. Eu cheguei a indagar do meu primo por que tamanha aversão. Como justificativa dizia tratar-se de um descabido “medo dos homens do governo”, o que só fazia aumentar minha indignação com tanta ignorância, com tamanho despreparo no enfrentamento da vida. Hoje, distante daqueles faustos e áureos anos sessenta, mais que nunca a saudade daquela cidade e de sua gente me faz morada. Sinto uma dor no peito por saber que saber que nada daquilo mais existe.
Recife, 23 de novembro de 2005
* Luiz Maia é escritor, autor dos livros “Veredas de uma vida”, “Sem limites para amar” e “Cânticos”. – Edições Bagaço – Recife/PE.